O vídeo Kony 2012 foi lançado no YouTube e Vimeo há seis dias, e já foi visto mais de 100 milhões de vezes no total, espalhando-se via Facebook, Twitter, Tumblr e outras redes sociais. Isto o torna o vídeo que se espalhou mais rápido de todos os tempos, ganhando de astros pop, Susan Boyle, Rebecca Black e Annoying Orange. Mas quem é Kony, e por que este vídeo é tão polêmico?

Joseph Kony é o líder do Exército de Resistência do Senhor (LRA na sigla em inglês), um perigoso grupo religioso e militar que atua em Uganda e em países vizinhos da África. O LRA é acusado de assassinatos, sequestros e uso de crianças nos conflitos – eles aliciaram cerca de 30.000 crianças nos últimos 20 anos. Kony fugiu de Uganda há seis anos, caçado pelo exército do país, e o LRA perdeu muito de sua força em Uganda, mas continua ativo em áreas remotas de países vizinhos.

Então a instituição de caridade Invisible Children criou um vídeo de 30 minutos para tornar Kony famoso, “não para celebrá-lo, mas para obter apoio para sua prisão e criar um precedente para a Justiça internacional” – eles igualam Joseph Kony a Adolf Hitler. A Invisible Children quer que os EUA intensifiquem sua presença em Uganda, hoje limitada a 100 consultores militares, para encontrar e julgar Kony em tribunal internacional — ele já foi indiciado por crimes de guerra pela Corte Criminal Internacional. A mensagem é simples: Stop Kony. E ela se espalhou – e rápido.

Grana alta

E o que você faz para ajudar? Participa no abaixo-assinado, compra o kit com bracelete Kony 2012 (só US$30!) ou faz uma doação. E aí está o problema. Se a campanha fosse apenas para conscientizar o mundo, ficaria por isso mesmo. Mas ao pedir dinheiro e se tornar uma campanha terrivelmente popular, a Invisible Children chamou a atenção de críticos. Como disse Katie Baker do Jezebel americano, “levei quase tanto tempo lendo as críticas do que levei vendo o próprio vídeo”. E eles provavelmente estão certas.

A instituição de caridade Invisible Children tem um bocadinho de dinheiro: eles arrecadaram US$ 9 milhões em 2011, o triplo do ano anterior. E com o sucesso do vídeo acima, eles podem ter arrecadado pelo menos US$15 milhões em uma semana: a instituição disse ter vendido 500.000 kits de US$30 cada – e isso sem contar as doações.

E o que eles estão fazendo com o dinheiro? A maior parte… não é caridade. Jedidiah Jenkins, líder do Invisible Children, disse em entrevista que 37% do orçamento vai direto para projetos na África Central, 20% são salários e custos administrativos, e os 43% restantes são para “conscientização”. Ou seja, eles gastam mais criando campanhas pra arrecadar dinheiro do que usando o dinheiro para caridade. E segundo investigação da Alternet, a Invisible Children tem apoio de grupos cristãos de extrema direita. Os relatórios financeiros da instituição são abertos.

Kony é o menor dos problemas

E a polêmica não para por aí. Muitos questionaram o foco da campanha em Kony: ele fugiu de Uganda há seis anos, e está enfraquecido assim como o LRA, que está na ativa apenas em áreas remotas do Congo, Sudão do Sul e República Centro-Africana. Ninguém discute o mal que Kony fez para o país africano, e seria importante para a moral daquele povo que ele fosse trazido à justiça. Mas a escolha desse alvo pode ter sido mais pela facilidade de vender uma “causa” (é mais fácil ver o “mal encarnado”, como em Hitler) do que pela urgência da questão.

O premiado jornalista ugandês Angelo Izama diz que o vídeo é um retrato “de uma era que já passou”. As crianças que antes fugiam para não serem sequestradas e alistadas hoje “são semi-adultos”, sofrendo com desemprego, prostituição e HIV/AIDS. E hoje, as “crianças invisíveis” que intitulam a instituição de caridade não sofrem com Kony e o LRA – sofrem de doenças como uma síndrome neurológica incurável que as faz ter convulsões e as impede de comer direito. A síndrome afeta mais de 4.000 crianças no norte da Uganda.

E como lembra Michael Wilkerson, jornalista que já morou e trabalhou em Uganda, o país tem outros problemas enormes: o presidente Yoweri Museveni entrou no quarto mandato em 2011, ultrapassando 25 anos no poder. O governo é fortemente suspeito de corrupção e acusado de violar direitos humanos. E o país pode ficar mais poderoso com as enormes reservas de petróleo na fronteira com o Congo. Como “parar Kony” resolveria algum desses problemas? A Invisible Children reagiu às críticas, mas não respondeu a essa pergunta.

É impressionante como a instituição Invisible Children conseguiu emplacar um vídeo de 30 minutos tão rápido, reunindo a atenção e apoio de milhões ao redor do mundo — e é bom que as pessoas das redes sociais, tão acostumadas a ver só frivolidades, sejam expostas a questões importantes do resto do mundo de quando em vez. Também não gostamos do papo de “há questões mais importantes pra se preocupar”, mas no caso, as dúvidas e críticas à organização são tantas que é melhor não doar enquanto não estiver claro qual o real motivo por trás desta campanha. [Jezebel]

Fotos por k-ideas/Flickr, Invisible Children e Goran Bogicevic/Shutterstock