Durante a Primeira Guerra Mundial, longe das linhas de batalha, o Reino Unido enfrentou uma crise diferente. Enquanto milhares de soldados vestidos de cáqui se encaminhavam para o front, a economia britânica quase parou completamente. Com os homens longe, a função de manter as luzes do país acesas passou para as mulheres. As mulheres britânicas ocuparam as fábricas de munição, hospitais, universidades e laboratórios.

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Situação da mulher

No começo do século 20, as mulheres britânicas não podiam votar, assim como não tinham direitos de propriedade e nenhuma forma mensurável de autonomia. Mulheres de classe média e alta ainda eram tomadas como o “sexo frágil”, propensas à histeria e humores, e esperava-se que elas passassem seus dias adorando seus maridos, mantendo uma casa bonita e criando as crianças (mulheres pobres e de classes mais baixas no entanto já precisavam trabalhar). A ideia de uma onda de delicadas rosas inglesas indo trabalhar em macacões sujos arrepiava inúmeras espinhas patriarcais –no entanto a máquina de guerra imperial precisava de alguém para substituir os homens e garotos lutando lá fora, então lá foram elas.

Elsie Inglis e algumas de suas irmãs médicas, 1916 (Inglis à extrema esquerda). Fonte: cortesia da Edinburgh City Libraries and Information Services- Edinburgh Room.

2018 marca o centenário das mulheres acima de 30 anos ganharem o direito de voto no Reino Unido (assim como o fim da Primeira Guerra), e o novo livro da autora Patrícia Fara, A Lab of One’s Own: Science and Suffrage in the First World War [Um Laboratório Próprio: Ciência e sufrágio na Primeira Guerra Mundial], habilmente une as duas narrativas.

Fara também nos dá uma visão sobre o que aconteceu depois que os soldados voltaram para casa, o infame destino que caiu sobre essas mulheres de vanguarda depois que seus “superiores” voltaram para seus lugares, e a forma como essa era impactou o trabalho de mulheres cientistas hoje em dia. Ela reflete sobre a dissonância que essas mulheres sentiram conforme desenvolviam e construíam armas de guerra que tinham o objetivo expresso de matar pessoas. Além disso, Fara reconhece que a imagem está longe de estar completa; as contribuições de mulheres negras e mulheres da classe trabalhadora, por exemplo, estão amplamente ausentes. Isso ocorreu como resultado tanto da ignorância histórica quanto da incrível disparidade de classe. Logo, mesmo dentre as poucas oportunidades, as mulheres brancas de classes mais altas tiveram alguma vantagem nesse processo.

A autora esbarrou nesse rico tesouro histórico por acaso, durante a sua visita a Newnham College em Cambridge, uma das mais antigas universidades femininas do mundo. Lá, uma arquivista a mostrou um grande livro feito à mão listando as atividades das estudantes, graduadas e professoras durante a Primeira Guerra -e Fara ficou impressionada com o que viu.

“Eu acho que esses homens estavam assustados. Eles queriam proteger suas posições e se agarrar à sua suposta superioridade”.

“Para o meu espanto, no livro eu vi os nomes das doutoras que operaram no front de batalha, químicas que desenvolveram explosivos e gases venenosos, biólogas que pesquisaram doenças tropicais e matemáticas que foram recrutadas para trabalho de inteligência”, disse Far ao Gizmodo. “Algumas delas morreram em serviço no exterior; e muitas foram condecoradas com honras militares e do governo, não apenas da Bretanha mas também da Sérvia, França, Rússia, Bélgica e Romênia. Logo na primeira página incluí uma física que cuidava de departamentos de raio-x de hospitais, uma matemática que viajou para a Sérvia como doutora e uma cientista que sobreviveu a uma epidemia de tifoide no exterior, mas morreu de pneumonia em Londres logo depois de voltar para casa. Por que, eu me perguntei, essas mulheres extraordinárias estavam ausentes dos numerosos livros detalhando os avanços científicos, médicos e tecnológicos impulsionados pela guerra?”.

Christopher Nevinson, The Acetylene Welder, 1917, Litografia. Fonte: Copyright David Cohen Fine Art/Mary Evans Picture Library.

Nós todos estamos acostumados com imagens de corajosas operárias e enfermeiras limpíssimas, mas a contribuição das mulheres de classe média e alta que constituíram o grosso da comunidade científica do Reino Unido são um assunto bem mais esotérico.

“Havia relativamente poucas dessas mulheres, e é extremamente difícil desenterrar mais do que migalhas de informações sobre elas”, explicou Fara. “Na década de 1970, historiadores feministas começaram a escrever sobre as mulheres –que afinal são 50% da população– porque queriam desafiar os relatos dominados por homens sobre batalhas na Frente Ocidental durante a Primeira Guerra. Elas reescreveram a história da guerra descobrindo histórias fascinantes sobre todos aqueles milhares de mulheres que foram cruciais para a vitória”.

Em geral, as meninas eram desencorajadas a seguir estudos excessivamente “intelectuais”, então aquelas que enfrentavam a convenção e iam atrás de um microscópio ou uma mesa de desenho, em vez agulhas de tricô, tinham uma difícil jornada desde o início.

“Para ter sucesso em matemática, ciências ou engenharia, as mulheres precisavam de coragem, determinação além de inteligência. A cada passo elas enfrentavam preconceito, escárnio e exclusão”, disse Fara. “O primeiro obstáculo foi persuadir os pais a deixá-las seguir um rumo tão ‘masculino’, e às vezes isso significava esperar até os 21 anos. Então, é claro, precisavam arranjar o dinheiro. Algum financiamento de organizações de mulheres estava começando a estar disponível, mas a maioria das estudantes contava com a riqueza da família. Uma vez na universidade, elas eram ridicularizadas por professores, assim como pelos alunos do sexo masculino. Elas tiveram que sentar em lugares especiais em palestras, elas foram banidas de muitas aulas práticas (especialmente qualquer coisa relacionada à reprodução), e elas não podiam entrar nas salas comuns. Em Cambridge, elas não eram formalmente membros da Universidade até 1948: quando Philippa Fawcett chegou ao topo nas provas de matemática, ela não teve nem a permissão para conseguir o seu diploma”.

Logo que essas jovens passaram pela escola ou pelo treinamento e foram para a arena profissional, muitas se viram à deriva em mais um ambiente inóspito. Paradoxalmente, mesmo que as contribuições das mulheres para o esforço de guerra se mostrassem indispensáveis, um número esmagador de seus colegas homens se esforçou em difamar, desacreditar e impedir o progresso das mulheres a cada passo.

“Eu acho que esses homens estavam assustados. Eles queriam proteger suas próprias posições e se apegaram à sua suposta superioridade ”, disse Fara. “Quando viram que muitas dessas mulheres eram mais inteligentes e mais competentes do que eles, eles se defenderam atacando”.

Martha Whiteley no Imperial College. Foto: Arquivos, Imperial College London.

Enquanto as mulheres da classe trabalhadora passavam seus dias em fábricas de munições e estaleiros, e os homens lutavam nas linhas de frente, as mulheres químicas trabalhavam para alcançar a morte em uma escala ainda maior.

Ida Smedley ajudou a colocar em movimento a produção em escala industrial de acetona, que era usada em explosivos mortais. Uma equipe de oito mulheres no Imperial College London, liderada por Martha Whitley, tinha um laboratório inteiro dedicado a explosivos e gases venenosos. A própria Whitley foi pioneira no gás mostarda, um agente químico nocivo que destruiu os campos de batalha de Somme com suspiros agonizantes (que desde então se transformou em sua encarnação moderna, o gás lacrimogêneo – que foi proibido pela Convenção de Genebra em 2014, mas ainda encontra seu caminho até as mãos dos policiais e pulmões de manifestantes de Ferguson até a Palestina).

Fara notou a falta de relatos contemporâneos lamentando ou refletindo sobre seu papel no massacre, observando certo tipo de ambivalência, ou mesmo entusiasmo, como no caso de uma moça de Coventry que exigia treinamento extra para que ela pudesse fabricar artilharia.

A escritora revelou pelo menos um registro tangível delas em crise com seu papel na guerra. “O fato de usar a energia da minha vida para destruir almas humanas atinge minha alma. Mas por outro lado, estou fazendo o que posso para levar essa situação horrível ao fim”, escreveu uma jovem trabalhadora de munição em um ensaio para a revista da fábrica. “Mas quando a guerra acabar, nunca na Criação eu farei a mesma coisa novamente.”.

Retratos da época

Embora as mulheres abastadas da ciência, medicina e indústria que povoam a pesquisa de Fara certamente tenham feito importantes contribuições em seus campos, também é importante notar que muitas delas eram seres humanos com falhas profundas. Muitas delas eram propensas ao racismo insultuoso e ao classismo.

As mulheres de classe média e alta tendiam a desprezar as mulheres mais pobres que estavam engajadas em vocações menos acadêmicas, e à medida que mais mulheres da classe trabalhadora se envolviam com o trabalho de guerra, suas arrogantes colegas lamentavam grosseiramente a falta de empregadas disponíveis. A defensora da educação das mulheres, Ethel Brilliana Tweedie, disse a seus funcionários domésticos que eles não deveriam trabalhar nas fábricas, mas que deveriam ficar em casa para cozinhar para mulheres como ela. Algumas –no caso da notável eugenista e antifeminista Arabella Kenealy– eram francamente monstruosas, seus legados científicos foram manchados pelo racismo e pela supremacia branca.

“O fato de usar a energia da minha vida para destruir almas humanas atinge minha alma.”

Depois que o armistício [acordo que cessou a guerra] foi declarado e os homens da Grã-Bretanha começaram a voltar para casa, tornou-se imediatamente aparente que, apesar de tudo o que as mulheres haviam acabado de realizar, a sociedade britânica esperava retornar às suas normas patriarcais pré-guerra. Assim que os soldados retornaram, muitas cientistas e profissionais médicas pioneiras foram empurradas para fora de seus laboratórios –e de volta para a cozinha.

As mulheres eram ativamente desencorajadas a procurar trabalho, e pediam para que elas voltassem para casa para cuidar de seus maridos (aquelas que eram capazes de encontrá-los – graças às baixas em tempo de guerra, as mulheres agora superavam os homens) e criar os futuros filhos e filhas do Império. Em 1921, havia menos mulheres envolvidas no trabalho fora de casa do que em 1911. Aquelas que conseguiram um emprego foram relegadas aos empregos de menor prestígio e menor salário, ou foram rebaixados de seus postos de guerra em favor de veteranos que voltavam com muito menos experiência. As mulheres que um dia foram aclamadas como salvadoras de uma nação eram agora consideradas por muitos, segundo o livro de Fara, como “cruéis e egoístas, privando os homens e seus dependentes de um meio de vida”.

Preconceito no trabalho e na universidade

Em 1927, as mulheres estavam sendo advertidas abertamente de que seus trabalhos e perspectivas nos campos médico, científico e industrial eram terríveis; as matrículas de mulheres nas universidades despencaram conforme universidades de prestígio como Cambridge e Oxford impediam que as mulheres ocupassem cargos executivos. De acordo com os homens responsáveis, isso era inteiramente culpa das mulheres – um acadêmico opinou que eles deveriam ter “convencido seus colegas masculinos que não reconheciam o seu valor” ao invés de esperar tratamento igual.

As divisões de classe eram rígidas durante esse período, que é mais uma razão para as demandas das sufragistas para pagamento igual pelo mesmo trabalho. Muitas vezes esses pedidos passavam direto sem serem analisados, mesmo em reuniões internas.

“Depois de uma luta interna pelo poder no principal sindicato do sufrágio, as mulheres que pensavam que o patriotismo era o mais importante passaram a dominar. Depois de 1918, quando as mulheres com mais de 30 anos tiveram o direito ao voto, as campanhas passaram a reivindicar igualdade e independência financeira”, disse Fara. “Houve discordância: algumas mulheres (eu teria ficado deste lado!) insistiram que deveriam poder trabalhar em empregos masculinos com a mesma taxa de remuneração; outras achavam que deveriam receber um salário por cumprir seus tradicionais papéis domésticos como mães e educadoras”.

Embora essa demanda específica não tenha se concretizado, a noção de exigir um salário para o trabalho doméstico permanece. Em seu manifesto de 1975, Wages Against Housework, a pensadora marxista feminista autônoma Silvia Federici falou sobre o trabalho doméstico de gênero –em si uma extensão do papel de cuidadora que se esperava, e muitas vezes ainda se espera de tantas mulheres– como “a violência mais sutil e escondida que o capitalismo já perpetrou contra qualquer setor da classe trabalhadora”. Ela observa que “quando lutamos por salários, lutamos de forma inequívoca e direta contra nosso papel social”, que foi precisamente o argumento contra as trabalhadoras de ciência e medicina nos tempos de guerra que protestaram contra os sistemas que as forçaram a aceitar salários baixo (ou nenhum salário) para fazer o mesmo trabalho que um homem realizava antes da guerra.

Apesar da recepção não tão calorosa que receberam dos compatriotas que retornaram, as mulheres do livro de Fara foram capazes de galgar conquistas significativas em casa e no exterior. No entanto, as questões éticas sobre suas próprias contribuições para a devastadora destruição de vidas humanas da Grande Guerra continuam a ser uma pílula mais difícil de engolir.

Fara (que tem um diploma de física) me contou o quanto ela admira Stoney em particular, mas também chamou a atenção para alguns outros fantasmas favoritos, como Ethel Brilliana Tweedie –e uma das minhas preferidas, Helen, a botânica. “Eu me identifiquei fortemente com Helen Gwynne Vaughan, uma professora de botânica que dirigiu o Corpo de Exército Feminino na França”, disse ela. “Onde quer que ela fosse, ela não se encaixava. As mulheres se ressentiam de seu sucesso e de sua beleza, enquanto os homens pensavam que ela era incapaz de estar no comando do departamento. Ela nunca soube como se comportar: não queria ser feminina, mas se administrasse o laboratório com autoridade, seria acusada de ser autoritária. Ela me fez perceber o quanto é difícil ser pioneira.”.

Imagem do topo: Martha Whiteley no Imperial College. Foto: Arquivo, Imperial College London