Dezenas de indivíduos assassinados de forma brutal foram encontrados enterrados em uma vala comum da Idade do Cobre. A descoberta está lançando uma nova luz sobre esses que seriam os primeiros agricultores europeus, além de toda a violência indescritível que eles tiveram que suportar.

Isso é o que revela um novo estudo publicado na quarta-feira (10) no PLOS One, que está sendo considerado o maior já realizado no que diz respeito à área de genética sobre um massacre pré-histórico. A morte de pelo menos 41 pessoas aconteceu há cerca de 6.200 anos no que hoje é a região de Potočani, na Croácia. A pesquisa, liderada por Mario Novak, do Instituto de Pesquisa Antropológica da Croácia, mostra que a violência em grande escala estava presente durante esse período inicial e conforme as comunidades agrícolas estavam se tornando cada vez mais estabelecidas em toda a Europa.

Os massacres são, infelizmente, uma parte do registro arqueológico humano e, aparentemente, uma parte inevitável de nossa condição. Em 2019, os cientistas detalharam uma vala comum maciça de 5.000 anos encontrada no sul da Polônia que continha os restos mortais de 15 indivíduos assassinados. Situações semelhantes foram documentadas em outros lugares na Alemanha e na Áustria, contendo cenas parecidas com o documentado em Potočani, em que “membros de ambos os sexos e todas as faixas etárias foram encontrados indiscriminadamente mortos e seus restos descartados sem cerimônia em uma vala ou trincheira”, afirmou Novak em um e-mail ao Gizmodo. Nestes casos, “diferentes tipos de armas e ferramentas foram utilizadas para matar um maior número de pessoas, não num combate face a face, mas numa execução clássica”, acrescentou.

Este estudo, de coautoria de Ron Pinhasi, da Universidade de Viena, e David Reich, da Universidade de Harvard, se torna único por ser o primeiro estudo genético de um massacre em grande escala não focado em um alvo específico, como uma certa família ou comunidade, ou um assassinato em massa com base na idade ou sexo. Além de, como já mencionado inicialmente, ser o maior estudo genético feito sobre um massacre pré-histórico, independentemente das circunstâncias.

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Para o estudo, os cientistas conseguiram averiguar os restos físicos de 41 indivíduos, 38 dos quais produziram DNA. Não foi fácil, pois os esqueletos ficaram “completamente misturados” e “altamente fragmentados” depois de ficarem enterrados por cerca de 6.200 anos, disse Novak. “Então, demoramos muito para superar esse obstáculo.” Outro problema tinha a ver com a ausência total de armas e ferramentas na sepultura, obrigando os arqueólogos a inferir possíveis armas utilizadas com base na posição e aparência física dos ferimentos.

A análise dos restos mortais mostrou que a vala comum pode estar ligada a um único evento, e não ao acúmulo de corpos a longo prazo. Além do mais, o “enterro em massa de Potočani é o resultado da morte indiscriminada de um subconjunto não relacionado de uma população sem viés de sexo nem de idade, em vez de uma batalha entre duas forças armadas”, escreveram os autores do estudo.

Uma morte indiscriminada é o que realmente parece ser. Dos 41 esqueletos estudados, 21 eram do sexo masculino e 20 do feminino. Praticamente todas as faixas etárias estavam representadas, com 21 pessoas entre as idades de 2 e 17 anos e 19 pessoas com 18 anos ou mais (somente a idade de um indivíduo não pôde ser determinada com certeza). Alguns indivíduos eram biologicamente relacionados, como um jovem enterrado com suas duas filhas e sobrinho. Mas a maioria dos casos — mais de 70% desses indivíduos — não tinha qualquer ligação biológica.

Feridas penetrantes encontradas no crânio de uma jovem adulta. Imagem: Mario Novak, Instituto de Pesquisa Antropológica.

Também ficou claro que se tratava de um massacre. Os corpos, e especialmente os crânios, mostravam sinais de trauma contundente, facadas, perfurações e cortes. Nenhum padrão relacionado à idade ou sexo dos indivíduos conseguiu ser determinado. As pessoas mortas em Potočani faziam parte da cultura Lasinja do Eneolítico Médio, ou também conhecido como Idade do Cobre. Eles viveram na atual Croácia, Hungria, Áustria, Bósnia e Eslovênia, e as poucas informações que temos sobre eles sugerem que foram os primeiros europeus a usar metal e criar alguns animais como gado.

Como demonstrado pelo estudo, a maioria desses indivíduos não eram biologicamente relacionados uns aos outros, apesar deles serem etnicamente homogêneos, principalmente do Neolítico e da Anatólia (atual Turquia), com uma pitada de ancestralidade caçadora-coletora da Europa Ocidental. As evidências também mostram que eles eram membros de uma comunidade pastoral surpreendentemente grande. Quando os agricultores da Anatólia migraram para a Europa, eles “basicamente exterminaram o legado genético dos habitantes originais da Europa”, ou seja, os caçadores-coletores do Mesolítico. Hoje, todo europeu nativo tem “grande parte de sua ancestralidade genética ligada a esses imigrantes da Anatólia”, disse Novak.

Os cientistas não sabem as razões exatas do assassinato em massa em Potočani, apesar de terem algumas teorias. “Algumas supostas mudanças climáticas podem ter levado a secas acompanhadas de um aumento populacional substancial na época, que causaram uma luta pelos recursos, resultando nesses massacres”, disse Novak. “Mas, no momento, não podemos afirmar com toda certeza.”

Além de revelar um tamanho populacional maior do que o esperado, junto com novos dados genéticos que mostram uma ancestralidade predominantemente neolítica da Anatólia, o artigo nos mostra que “a violência em escala massiva também estava presente durante este tempo”, disse Novak. Na verdade, seja hoje ou há 6.200 anos, ou ainda antes disso, os humanos têm sido terríveis uns com os outros. E isso é algo bem triste para se pensar.