Em uma noite em novembro do ano passado, uma jovem chamada Neha estava alimentando seu filho dentro de sua casa em Runkata, uma pequena cidade dos arredores de Agra, na Índia. De repente, um macaco entrou na casa, pegou a criança dos braços dela e fugiu com o garoto.

Vizinhos perseguiram o sequestrador e começaram a atacar pedras, mas para o horror delas, a criança foi encontrada toda ensanguentada em um terreno na região. Apesar de terem corrido com ele para o hospital, Arush, que tinha 12 dias de idade, não sobreviveu.

Talvez isso pareça uma história esquisita e trágica, em que um animal salvagem atua fora dos seus padrões, mas não havia nada especialmente raro nesse incidente.

Menos de um mês antes, na cidade vizinha de Tikri, um homem de 72 anos foi apedrejado até a morte enquanto ele estava revirando madeira seca, quando uma tropa de macacos nas copas das árvores começou a atacar pedaços de bloco que foram recolhidos de uma construção próxima ao local.

No estado de Himachal Pradesh, 86 casos de ataques de macacos foram registrados pelo governo estadual entre 2017 e 2018. Em um incidente esquisito, um macaco foi visto brincando com dinheiro em uma copa de árvore em Shiimla, depois de pegar cerca de US$ 140 de uma casa da região. Outros incidentes com macacos hostis contra humanos foram relatados em Tahil Nadu e em Odisha.

Há algumas razões por trás desse aumento repentino de agressão de macacos na Índia, de acordo com Iqbal Malik,  uma especialista em macacos e ativista ambiental baseada em Nova Déli.

“Os macacos-rhesus, em geral, são uma espécie inofensiva e pacífica. Eles vivem em grupos, com cada um deles composta por bebês, sub-adultos, adultos sexualmente maduros e idosos. Os bebês ficam perto de suas mães até os seis meses de idade”, explicou Malik ao Gizmodo por telefone. “Os relatos de violência entre macacos Rhesus ocorrem principalmente de casos de fissão caótica, que é quebra de grupos com a separação de mães e bebês”.

“O desmatamento em grande escala destrói o habitat natural deles, resultando na fragmentação de grupos e fazendo com que os macacos se movam em direção a áreas rurais e urbanas em busca de comida”, disse ela.

Macaco bebendo água em torneira na ÍndiaMacaco bebendo água em Jammu, na Índia. Crédito: Channi Anand/AP

Além disso, o macaco-rhesus é ótimo em achar comida, disse Sindhu Radhkarhina em entrevista ao Hindustan Times. Radhakrishna é a diretora do Programa de Comportamento Animal e Cognição do Instituto Nacional de Estudos Avançados em Bangalore. Quando macacos se infiltram em locais com humanos, eles têm fácil acesso a alimentos ricos em energia, e é por isso que gostam de ficar próximo de humanos, disse ela.

Esterilização cirúrgica

Em 2006, Himachal Pradesh tornou-se o primeiro estado na Índia a introduzir a esterilização cirúrgica em macacos-rhesus, com o objetivo de conter sua população cada vez maior e encontrar uma possível solução para o aumento dos relatos de violência símia, levando a danos agrícolas por toda a região.

Já existem oito centros de esterilização espalhados pelo estado, onde macacos trazidos por caçadores são esterilizados por meio de vasectomias a laser em machos e tubectomia por termocauterização nas fêmeas, disse Satish K. Gupta, cientista especialista em biologia celular reprodutiva do instituo de imunologia de Nova Déli, em um e-mail ao Gizmodo.

Os resultados no programa, no entanto, foram inconclusivos, disse Gupta. Embora o número de macacos-rhesus no estado tenham reduzido de 3,2 milhões em 2004 para 2,1 milhões em 2015, incidentes de violência continuam mais ou menos no mesmo nível.

Malik acredita que a má execução do programa pode ter tido o efeito não intencional de tornar os macacos mais agressivos. “A esterilização em si é inócua, se bem feita. No entanto, a abordagem casual do departamento florestal para a captura e liberação de macacos e seu tratamento antes e depois da operação podem ser a verdadeira razão por trás do problema”.

Os macacos-rhesus são espécies fortemente tribais, disse ela. Quando macacos são aprisionados e separados de suas tribos, isso atrapalha um vínculo comum deles. Isto é especialmente pior no caso de jovens que são facilmente capturados, pois são separados de suas mães. Quando os macacos são libertados, eles acham difícil se adaptar, fazendo com que eles procurem por fontes alternativas de alimento perto de habitações humanas. Isso também os torna violentos e temperamentais, segundo Malik.

Após Himachal Pradesh, a Administração do Distrito de Agra fez uma parceria com a ONG local Wildlife SOS para fazer um programa parecido em Uttar Pradesh durante o ano de 2016. No entanto, apenas 500 macacos foram capturados até 2018, enquanto os gastos do governo excederam os US$ 260 mil.

Assim como em Himachal Pradesh, o número real de ataques envolvendo macacos não mostrou sinais de desaceleração, disse Javed Akhtar, chefe de conservação de florestas do governo de Uttar Pradesh.

Meios alternativos

Em respostas às repetidas falhas, o governo indiano agora está considerando meios alternativos de controle populacional de macacos.

A imunocontracepção — uma técnica que envolve a administração de uma vacina que cria uma resposta imune temporária contra uma proteína ou hormônio crucial para a reprodução, tornando os macacos inférteis — está recebendo atenção particular. No entanto, existem algumas ressalvas.

“O maior problema aqui é a aplicação da vacina”, afirmou Gupta, que observou que as vacinas atuais muitas vezes exigem múltiplas injeções ao longo do ano para ter o efeito desejado.

Uma solução proposta para este problema tem transformado a vacina em uma pílula comestível e colocando-a dentro de uma isca, mas mesmo isso apresenta múltiplos desafios, já que o líder de uma tropa consumirá a maior parte da isca oral e somente as sobras ficaram para os outros macacos.

A imunocontracepção é uma técnica mais viável para animais maiores, como elefantes, que podem ser atacados por meio de armas de dardos, explicou. O Ministério do Meio Ambiente atribuiu seu projeto de imunocontracepção ao Wildlife Institute of India.

Apesar dos esforços consideráveis feitos pelo governo para estudar diferentes métodos de controle populacional para o macaco-rhesus, nenhuma pesquisa real foi feita para entender os efeitos a longo prazo desses procedimentos de controle de natalidade sobre os macacos e sua biologia, disse Gupta.

Na falta de uma estratégia de controle de natalidade viável e do conhecimento necessário para executá-la adequadamente, a ideia mais útil pode ser encorajar as pessoas a evitarem alimentar macacos perdidos ou deixar alimentos ao ar livre, disse Malik.

Não mostrar os dentes ou fazer contato visual, fazer barulhos altos para espantar os macacos e manter latas de lixo e tanques de água cobertos são outras sugestões do departamento florestal de Nova Déli. Infelizmente, essas dicas fornecem pouca sensação de segurança para as pessoas que convivem com o medo diário do contato com estes primatas.