A capacidade de se enxergar em um espelho e se reconhecer é uma habilidade cognitiva que nós não costumamos dar valor, mas muito poucos animais, tirando os humanos, são capazes disso. Uma nova pesquisa mostra que macacos podem ser treinados para passar pelo chamado “teste do espelho”, sugerindo que mais espécies podem ser conscientes de si mesmas do que imaginávamos antes. É um resultado fascinante, mas que também mostra o quanto estamos longe de calcular precisamente a consciência em outro animal.

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Um novo estudo publicado no Proceedings of the National Academy of Sciences, um grupo de pesquisadores do Instituto de Neurociência da Academia Chinesa de Ciências diz que, com o treinamento correto, é possível fazer macacos rhesus se reconhecerem em um espelho, uma habilidade que geralmente não está presente na espécie.

Isso sugere que macacos possuem um certo grau de autoconsciência corporal, mesmo que lhes falte a habilidade inata de espontaneamente se reconhecer em um reflexo. A nova pesquisa também aponta a imperfeição do clássico teste do espelho como medida de autoconsciência em certas espécies, e que a autoconsciência pode ser mais comum em animais do que se supunha anteriormente.

Quando os cientistas falam de autoconsciência, eles se referem à capacidade de introspecção, junto com a habilidade de um ser se reconhecer enquanto indivíduo (“Eu”) separado dos outros indivíduos. Os humanos acreditam que os outros humanos são autoconscientes, mesmo não tendo como prová-lo. Dado que praticamente todos os humanos dizem ser autoconscientes, nós temos que dar um salto de fé e aceitar isso como fato (se não seríamos acusados de solipsismo).

Infelizmente, nós não podemos ter certeza com animais não-humanos. Não é como se eles fossem capazes de nos contar sobre seus estados mentais internos. No começo dos anos 1970, em um esforço para superar essa limitação, o psicólogo Gordon Gallup Jr. desenvolveu o teste do espelho, também conhecido como o teste de autorreconhecimento do espelho (MSR na sigla em inglês), para testar a autoconsciência em animais não-humanos. Desde que foi introduzido, apenas uma pequena lista de animais passou pelo MSR, incluindo grandes primatas, elefantes, golfinhos e pegas. Animais que falharam no teste incluíram gatos, cachorros e até macacos.

Mas o novo estudo do PNAS mostra que a falta de habilidade de um animal passar no MSR não significa necessariamente que ele não possui autoconsciência. No caso do macaco rhesus, significa simplesmente que esses primatas não possuem a habilidade de se identificar em outro meio, pelo menos até serem treinados para isso.

Sozinhos, os macacos não conseguem passar no teste do espelho. Estranhamente, foi observado que eles usam os espelhos para investigar os arredores, mas eles não conseguem entender quem está olhando de volta do reflexo. Utilizando sua capacidade inata de entender o conceito da reflexão, um time de pesquisadores comandado pelos neurocientistas Mu-ming Poo e Neng Gong colocou os macacos em frente a um espelho e os treinou para tocar um ponto de laser vermelho em uma tábua que só podia ser vista através de um espelho.

Eventualmente, depois de várias semanas de treinamento, os pesquisadores começaram a mudar a posição do laser da tábua até o rosto dos macacos. Nesse ponto, os macacos conseguiram tocar o ponto em seus rostos marcados pela posição no espelho, algo que eles não eram capazes de fazer antes dos exercícios de treinamento. Foi uma espécie de momento “eureca” para os macacos.

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Nos testes, foi ensinado aos macacos localizar o ponto de laser em seus rostos ao olhar por um espelho, um possível sinal de autoconsciência. (Imagem: Liangtang Chang et al., 2017)

Em outras palavras, os macacos aprenderam, simplesmente ao olhar no espelho, que o ponto vermelho no rosto olhando para eles correspondia ao seu. Agora, essa observação sozinha não é o suficiente para provar que os macacos são autoconscientes (eles podem estar apenas respondendo ao treinamento e não entender completamente o que estavam fazendo), mas a segunda parte do experimento é mais reveladora.

Depois que os exercícios de treinamento terminaram, os macacos conseguiram manter suas habilidades recém-obtidas. Diferentemente de seus irmãos não treinados, os macacos treinados mostraram comportamentos auto-dirigidos quando se observavam em espelhos, como observar partes de seus corpos fora de seu campo de visão (golfinhos que passaram pelo teste do espelho fizeram a mesma coisa: explorar seus corpos).

Essas observações sugerem que os macaco rhesus são autoconscientes e cognitivamente capazes de passar pelo teste do espelho, mas que algo os previne de aprender essa habilidade sozinhos. Com o treinamento visual somatossensorial (o treinamento que eles receberam com os lasers), parece que foi feita uma conexão cerebral existente em outros animais que passaram pelo teste do espelho. No futuro, os pesquisadores gostariam de estudar mais os macacos para determinar que circuitos cerebrais são responsáveis por fazer essa conexão. Como ponto de partida, os pesquisadores estão planejando dar uma olhada nos neurônios espelho, que são um componente importante da imitação.

Outra conclusão possível desse estudo é que o teste do espelho é fundamentalmente falho, que é um método ruim para medir a autoconsciência. De fato, dado que poucos animais passaram pelo MSR, esse teste certamente parece ter certas limitações. Posto isso, a neurocientista Lori Marino, diretora-executiva do Kimmela Center for Animal Advocacy e ex-membro de neurociência e biologia behaviorista na Emory University, diz que não devemos jogar o bebê fora junto com a água do banho.

“Esse estudo de forma alguma desacredita a validade do teste do espelho para autoconsciência”, disse ao Gizmodo. “Os pesquisadores descobriram alguns fatores que são responsáveis pela diferença entre algumas espécies ‘passarem’ no teste e algumas espécies ‘falharem’ no teste. O que eles não fizeram, no entanto, foi desafiar a validade do teste MSR original”.

Marino, que desenvolveu o teste MSR para golfinhos, diz que o teste do espelho fornece uma avaliação forte e válida para autoconsciência em algum nível. “Passar no teste significa que existe um nível de autoconsciência similar ao de outras espécies que passaram no teste”, ela diz. “Mas ‘falhar’ no teste não indica absolutamente a falta de autoconsciência.”

Marino diz que até esse ponto podemos apenas ser descritivos (ou seja, podemos apenas inferir habilidades cognitivas baseado em ações comportamentais), porque nós não entendemos completamente a autoconsciência. Ela compara isso a pessoas vendadas tateando diferentes partes de um elefante. “Nós precisamos enxergar a totalidade do que sabemos sobre cada espécie para dar um palpite sobre seu nível de autoconsciência”, contou ao Gizmodo. “Então, por exemplo, os golfinhos parecem passar em todos os testes aos quais os submetemos. Então, no todo da literatura científica sobre os golfinhos, é consistente a ideia de que eles têm uma noção de si bem robusta.”

Marino diz que os cientistas colocam tanta ênfase no teste do espelho por ele ser um dos poucos modos pelos quais nós conseguimos enxergar certos aspectos da autoconsciência de maneira experimental objetiva. Ela diz que também somos enviesados, que tendemos a usar testes que são específicos para medidas humanas de inteligência. Marino também encoraja enxergarmos que podem existir outras formas de testar a autoconsciência.

“Por exemplo, os estudos de metacognição ou ‘monitor de incerteza’ mostraram que os golfinhos e os macacos rhesus têm desempenho tão bom em tarefas de distinção quanto estudantes de graduação e mostram o mesmo padrão de respostas indicativas de ser capaz de pensar em sua habilidade de responder uma pergunta”, ela diz. “Humanos fazendo uma prova sabem como ser estratégicos com seu tempo ao serem sensíveis a quais perguntas eles acham ‘difíceis’ e quais são ‘fáceis’. Golfinhos e macacos conseguem fazer a mesma coisa”.

Além do mais, Marino diz que alguns estudos que requerem que indivíduos repitam um comportamento anterior ou desenvolvam um comportamento novo (que eles nunca tenham feito) também são possivelmente testes de autoconsciência. Estudos que mostram que golfinhos podem espontaneamente imitar outros golfinhos ou humanos são especialmente interessantes, ela diz. Marino afirma que tem trabalho sendo desenvolvido nesse sentido, “mas comparados à complexidade de outros testes de autoconsciência são relativamente raros”.

Por enquanto, vamos ter que nos satisfazer com o teste do espelho, mas com a compreensão de que existe mais na autoconsciência do que um mero reflexo, e que alguns animais podem possuir tipos de autoconsciência nunca antes imaginados.

[PNAS]

Imagem: Jim Cooke, Foto: Shutterstock