"Lugar mal iluminado, cheio de moleques com a cara enfiada em telas coloridas, empenhados em matar inimigos a facadas." Quando eu era um guri de 10 anos, em 1986, isso se chamava "jogar Green Beret no fliperama". Nos últimos anos, porém, a frase acima casaria perfeitamente com "ir jogar Counter Strike na Monkey". Não mais: a mais famosa franquia de lan houses do Brasil, fechou este mês as portas de sua última loja, em uma área nobre de São Paulo. E marca o fim de uma era.

Tidas como "fliperamas modernos", as lan houses tiveram na Monkey Lan4Fun um modelo. A rede chegou a ter mais de 60 lojas pelo Brasil, com foco primário nos jogos em rede e máquinas pontentes – ao contrário dos cybercafés da época, voltados para serviços básicos de internet. A sua história, desta maneira, durou doze anos. Este mês, a Monkey colocou todos os seus equipamentos à venda. Segundo nota no site da empresa, eles continuarão a prestar serviços de consultoria e eventos. 

É uma pena. Na época do lançamento, em 1998, a franquia entrou agressivamente no mercado, virando praticamente sinônimo de lan house. Sua rápida e abrangente expansão atraiu muitos olhares para este novo tipo de empreendimento – e também uma enorme concorrência. Seu grande problema na disputa de mercado era a informalidade dos concorrentes. Muitos deles praticavam preços baixíssimos – afinal, a maioria sequer era legalizada (apenas 1% tem alvará), e softwares piratas eram apenas parte dos problemas. A debandada pra concorrência começou a crescer. E isso não foi de todo ruim. A facilidade, proximidade com áreas mais carentes e o baixo preço dessas concorrentes informais ajudou na rápida inclusão digital – 24 dos 38 milhões de usuários de lans são das classes C, D e E.

Outros fatores também colaboraram para a derrocada da Monkey – e das outras lan houses em geral: as conexões de internet domésticas ficaram mais rápidas e mais baratas, aumentando a base de usuários de banda larga no País. Exatamente duas semanas depois do fechamento da Monkey, uma pesquisa mostrou que, pela primeira vez, as conexões à internet residenciais superaram as feitas por lan-houses (48% a 45%).

Os preços de hardware também ficaram mais acessíveis para o consumidor doméstico, fazendo com que, aos poucos, a gurizada começasse a jogar em casa, e de graça. Os pais também preferiram "investir" no equipamento – do ponto de vista de segurança, era muito melhor do que deixar a molecada na rua. Para os usuários mais abastados, havia também a questão dos videogames de última geração. Gráficos excepcionais já não eram exclusividade do PC – afinal, os consoles eram muito mais baratos e mais fáceis do que um full upgrade no computador de casa. Microsoft e Sony criaram redes exclusivas para seus aparelhos (Live e PSN, respectivamente), fazendo com que a jogatina online fosse tão fácil quanto era no PC.  

Nesse meio tempo, tanto a Monkey quanto as demais redes tentaram se reinventar no quesito jogatina. Muitas viraram centros de moedas virtuais para RPGs online. Algumas lojas passaram a permitir  BYOC (Bring Your Own Computer) Parties, oferecendo infraestrutura completa de rede como cortesia. Não pegou; embora fosse comum nos EUA e Coréia, carregar PC pra lá e pra cá não dava certo no Brasil. Nada disso funcionou para manter o status de fliperama moderno. 

As sobreviventes procuraram dar maior ênfase aos serviços de internet, buscando clientes que trabalham direto na rua e precisam de um lugar pra checar emails, acessar sites, msn, orkut. Em regiões mais pobres, elas continuam cumprindo o papel, que pode ser oficializado pelo governo: há oito projetos de lei que pretendem dar benefícios para a legalização das casas na Câmara dos Deputados, e uma comissão específica para verificar a situação das casas.

O principal objetivo da comissão, segundo o relator, deputado Otávio Leite (PSDB-RJ), é propor uma legislação que transforme as lan houses em centros de inclusão digital e estabeleça mecanismos de proteção para crianças e adolescentes. "O nosso objetivo é construir uma regra nacional que classifique a lan house como centro de inclusão digital popular”.

Pode ser que essas lojinhas de bairro, meio mambembes, ilegais até, se salvem. Mas projetos como o Banda Larga Popular farão, cada vez mais, a internet migrar das lan houses para dentro das casas. Em tese, o modelo ortodoxo de negócios das lan houses, como o conhecemos, está em fase terminal.

E a vida é assim. Tecnologia é um troço muito bom, mas canibal. Ao ler a notícia sobre o fim da Monkey, senti uma pontinha de melancolia, como tive ao ver o fliper do bairro sendo fechado. Mas acho que passa depois de uma partidinha online de Call of Duty.  [Foto: Pedro Burgos]