Ano passado, uma equipe de pesquisadores europeus se surpreendeu ao descobrir que geleiras estavam cobertas por uma neve de cor rosa – que, infelizmente, não ficou assim por causa da colisão de caminhão carregando Ki-Suco, mas, sim, graças à algas vermelhas presentes na neve – que derretia de maneira mais rápida que a neve branca.  Agora, um outro grupo de pesquisadores observou o mesmo fenômeno no Alasca. Neve rosa geralmente é um problema das geleiras, e isso pode piorar ainda mais no futuro.

O problema pode ser entendido graças à física simples. Neve de alga vermelha, que foi descoberta em pontos polares e alpinos de todo o mundo e recebem a distinta cor vermelha de uma classe de pigmentos conhecidos como tetraterpenóides, são mais escuras que o branco brilhante normal. Coloque o suficiente delas juntas, e elas fazem paisagens de neve absorverem mais da energia do sol, derretendo mais rapidamente. Para a alga, isso é bom: embora os micróbios se desenvolvem no gelo, eles precisarem de água líquida, e dos nutrientes dela, para se desenvolverem.



“Essa hipótese de feedback, em que o número de micróbios aumenta porque precisam de água líquida, é uma área de pesquisa ativa, mas seu campo de teste de experimentos é inexistente”, dizem os autores do novo estudo publicado esta semana na Nature Geoscience.

Pesquisadores da Universidade Alaska Pacific decidiram suprir essa falta de experimentos da maneira mais óbvia possível: produzindo muita neve rosa, também chamada de neve melancia, ou, caso esteja se sentindo sinistro, neve de sangue. Eles adicionaram água, ou água com uma mistura de nitrogênio, fósforo e potássio, para experimentar em lotes nos campos de gelo Harding, no Alasca, e compararam a resposta de crescimento da neve vermelha com lotes controlados, onde nada foi adicionado. Eles também usaram um alvejante que destrói algas em alguns lotes, para um medição ainda melhor.

Os experimentos revelaram que as algas vermelhas são limitadas em água e nutrientes, com a abundância de algas crescendo quatro vezes mais quando ambos os ingredientes são adicionados. Além disso, uma maior quantidade de alga significou mais neve derretida – lotes enriquecidos foram quase três vezes mais propensos a derreter por completo do que os com alvejante.

Armados com os dados da relação entre neve coberta de alga e neve derretida, os autores usaram imagens do satélite Landsat-8 para estimar a abundância da neve de alga vermelha pelos 1.900 quilômetros do campo de gelo Harding. Eles descobriram que os micróbios pintavam cerca de 700 quilômetros do gelo, contribuindo para aproximadamente 20% do total do derretimento de neve da região.

“Este estudo destaca o considerável impacto de como as comunidades de neve vermelha em geleiras derretem em maiores altitudes e latitudes”, escrevem os autores. “Porque as algas ficam na superfície sobre a maior parte da temporada de derretimento e perenemente ressurgem por várias temporadas de derretimento, elas recompõem seus efeitos com o tempo”.

Os autores alertam que a combinação do derretimento de placas polares devido as mudanças climáticas e a crescente deposição de partículas do ar, incluindo poeira agrícola carregada de nutrientes, podem gerar ambientes mias favoráveis a proliferação de algas vermelhas no futuro, desencadeando ainda mais derretimento em um ciclo vicioso. “O clima e modelos de derretimento que ignoram a ecologia radioativa microbiana”, por exemplo, derretimento por micróbios, “arriscam subestimar os índices de alertas e consequentemente aumentar o nível do mar”.

Mas é claro, este é apenas um único estudo que envolve um experimento em uma única camada de gelo, então é impossível saber quão grande o problema da neve vermelha será para geleiras em uma escala global quando colocada em comparação com todos os outros processos de derretimento acelerado. É preciso efetuar muitas outras pesquisas para saber disso.

Mas, da próxima vez que você ler uma reportagem sobre o aumento do nível do mar em Miami, saiba que pequenos micróbios vermelhos podem estar conspirando para fazer tudo isso piorar.

[Nature Geoscience]