Quando a casa de Ross Compton em Ohio pegou fogo em setembro do ano passado, ele disse à polícia que pegou algumas coisas e saiu correndo, jogando o essencial por uma janela do quarto que quebrou com sua bengala, antes de sair por ali.

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A polícia, no entanto, estava desconfiada. As poucas coisas de Compton que foram salvas incluía um computador, uma mala com roupas e um carregador para uma bomba externa para o coração, que ele precisa para sobreviver. Parecia improvável que o homem de 59 anos de idade com um marcapasso e uma bomba para o coração teria conseguido reunir todas as coisas e sair vivo de uma casa pegando fogo. Mas a polícia não sabia como provar as acusações de crime de incêndio.

No final das contas, foi o seu marcapasso que provou tudo.

Depois de conseguir um mandado de busca para todos os dados eletrônicos armazenados no marcapasso de Compton, a polícia determinou que o seu dispositivo não corroborava a sua versão. A frequência cardíaca e a demanda do marcapasso sugeriram que Compton não se apressou para reunir seus objetos mais valiosos e sair correndo da casa quando ela começou a pegar fogo. No mês passado, com a ajuda dos dados do marcapasso, ele foi indiciado pelos crimes de incêndio agravado e fraude nos contratos do seguro.

Problemas de privacidade estão surgindo debaixo da nossa pele – agora, os dispositivos que nos mantém vivos e saudáveis podem ser usados contra nós no tribunal de justiça.

Em 2014, um escritório de advocacia canadense usou o histórico da pulseira fitness Fitbit de uma cliente para ajudar a provar a acusação de lesão corporal. Foi a primeira estratégia desse tipo. Em 2015, os dados de uma Fitbit foram usados para enfraquecer a acusação de estupro feita por uma mulher. Agora, os casos judiciais incluem regularmente provas colhidas de pulseiras fitness.

Faz sentido. A tecnologia que usamos é programada para servir a dois mestres: aqueles que a usam e aqueles que a desenvolvem. Algumas vezes, os interesses dessas duas partes são conflitantes. Pense no Facebook excluindo usuários gays de determinados parâmetros para oferecer publicidade melhor contextualizada ou o Yahoo escaneando emails de usuários em benefício do governo.

Mas o caso de Compton quebra uma nova barreira – o teu corpo. Enquanto você pode deletar a sua conta do Facebook ou deixar a Fitbit em casa se estiver indo para algum lugar que não queira ser rastreado, você não pode simplesmente desligar seu marcapasso. Além de ser necessário um médico para desativar um marcapasso, muitos deles se recusam a realizar o procedimento. O que acontece quando a violação da privacidade está ligada a dispositivo dentro de nós, dispositivos que não podem ser desligados por meio de configurações?

“A EFF está preocupada que, à medida que a tecnologia avança, a erosão da privacidade individual nas informações pessoais de saúde aumenta” disse Stephanie Lacambra, advogada de defesa criminal da Fundação Fronteira Eletrônica (EFF, na sigla em inglês), ao Gizmodo. “Americanos não deveriam fazer uma escolha entre saúde e privacidade. Nós, como sociedade, valorizamos o direito de manter a privacidade em relação a informações pessoais e médicas, e obrigar os cidadãos a entregarem dados médicos protegidos por imposição da lei mina esses direitos”.

Nos Estados Unidos, existem mais de 200 mil pessoas andando por aí com marcapasso, e não são os únicos com pequenos computadores dentro de si. As bombas de insulina utilizada por diabéticos possuem chips. Milhares de pessoas com doença de Parkinson dependem de um chip incorporado em seus cérebros para controlar tremores mais violentos. Próteses avançadas cada vez mais utilizam microprocessadores que permitem movimentos mais naturais.

Gigantes como Apple e Google estão investindo pesado em tecnologia medicinal não apenas para permitir que possamos coletar com mais facilidade dados sobre os nossos próprios corpos, mas para compartilhar esses dados com mais facilidade com pessoas como médicos. Pessoas preocupadas com privacidade classificaram essas iniciativas como “vigilância médica“.

Ryan Calo, professor de direito da Universidade de Washington que foca em tecnologias emergentes, disse que evidências de dispositivos como um marcapasso não deveria ser admissível no tribunal. Como aconteceu com a evidência de DNA, Calo disse que o risco de usá-las para envolver erroneamente alguém em um crime é muito alto.

“Existe uma tendência de acreditar que pelo fato de alguma coisa ser registrada por uma máquina ela é verdade”, disse Calo.

No caso de Compton, existe outra evidência que sugere que ele cometeu o crime: além de ter feito a mala e diversas bolsas cheias de coisas antes dele sair da casa, ele tinha gasolina em seus roupas. Ainda assim, os dados médicos, que foram analisados por um cardiologista, representou “peças chave de evidências” no caso, de acordo com a polícia.

“A ideia de que um cardiologista aleatório será capaz de ler os dados de um marcapasso bem o suficiente para dizer se alguém cometeu um crime é muito implausível”, disse Calo. “Existe o perigo de não entender direito o que aqueles dados estão te contando”.

Calo disse que, pelo menos por enquanto, quando se trata de dispositivos médicos e implantes, ele está mais preocupado com invasões. Software é algo que pode ser autoral, o que significa que fabricantes pode impedir usuários de alterar ou até mesmo fazer uma pesquisa básica de segurança no código. Isso significa há muitas vezes em implantes bits de código que mesmo aqueles que os fazem não podem enxergar. Pessoas já realizaram ataques a dispositivos conectados à internet como chaleiras e babás eletrônicas. E se um código escondido contiver uma brecha que permita que um hacker desabilite a função de desligar sua bomba de insulina? Em outubro do ano passado, a Johnson & Johnson alertou pacientes diabéticos sobre um defeito em uma de suas bombas de insulina que teoricamente poderia permitir um ataque desse tipo. Há alguns anos, o ex-vice-presidente dos Estados Unidos Dick Cheney, optou por remover a funcionalidade wireless do seu implante de coração, temendo um ataque similar.

“Existe realmente a possibilidade de sensores onipresentes”, disse Calo. E quando mais sensores existirem, mais vulnerabilidades existirão para se explorar.

“Se temos computadores em nossos corpos feitos para nos tratar como adversários, isso amplifica todos os poderes da desigualdade”, disse recentemente Cory Doctorow, escritor de ficção científica e ativista de privacidade, ao Gizmodo.

Doctorow disse que ele começou a se preocupar com tecnologias implantáveis depois de ir numa demonstração do professor de biomecatrônica do MIT Hugh Herr. Herr, que tem as duas pernas amputadas, estava pulando no palco para mostrar uma nova perna biônica que era capaz de correr, pular e dançar.

Era um grande feito de engenharia – algo que poderia oferecer para as pessoas que perderam suas pernas a oportunidade de fazer coisas que antes eram inimagináveis, como subir numa montanha. Mas Doctorow pensou nas histórias catastróficas que aconteceram quando financiadoras de carros começaram a simplesmente desligar os carros das pessoas quando elas não conseguiam realizar os pagamentos. Um dispositivo instalado nos veículos permitia que os credores não apenas desativassem o carro depois de um atraso, mas também monitorassem a localização. Uma mulher não conseguiu ligar seu carro para levar sua filha ao hospital durante um ataque de asma. Outros tiveram os veículos desabilitados no trânsito e até mesmo dirigindo na estrada. Essas catástrofes envolvendo carros financiados, é claro, afetou principalmente compradores considerados de alto risco que só conseguiam obter os chamados empréstimos subprime.

“E se você não consegue realizar um pagamento e sua perna simplesmente desliga”, disse Doctorow. “Ou se o governo desliga e diz ‘Nós imobilizados você, estamos indo te pegar'”.

Isso pode parecer um pouco exagerado, mas dinheiro muitas vezes é uma barreira para o acesso a serviços essenciais. Nos Estados Unidos e em outros lugares do mundo, os hospitais às vezes avaliam se um paciente pode continuar pagando pelos cuidados médicos para decidir se irão manter o atendimento.

A tecnologia é, ao mesmo tempo, progresso e perigo. Toda a oportunidade que traz precisa ser balanceada com as consequências de novas vulnerabilidades que são criadas com ela. Pode nos dar mais consciência sobre nossos próprios corpos. Ou pode nos levar para a prisão.

Na semana passada, Ross Compton alegou ser inocente. Ele disse para uma emissora local de TV que a investigação ficou “fora de controle” e que ele não tinha “nenhum motivo para queimar sua casa”. Sua audiência está marcada para o final deste mês.

Numa entrevista ao Washington Post, o policial de Middleton, Ohio, que atendeu à cena do suposto crime de Compton ficou maravilhado com a utilidade dos dados do marcapasso.

“Foi muito mais informativa do que pensamos”, disse ele.

Foi a primeira vez que autoridades de Middleton se valeu de dados de marcapasso para ajudar a resolver um caso. Desde então, eles usaram dados de marcapasso de novo. Duas vezes.

Ilustração: Jim Cooke/Gizmodo