Pesquisadores descobriram um fato incrível sobre a água líquida em Marte. Ela não está apenas fluindo, como também fervendo. E essa descoberta pode ajudar a solucionar um dos maiores mistérios sobre a superfície do planeta vermelho.

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Os resultados de um novo experimento publicado na Nature Geoscience detalha como cientistas fizeram a descoberta e o que ela significa. Os pesquisadores criaram uma câmara simulando as condições e atmosfera de Marte, e então colocaram gelo lá dentro para derreter. O gelo derreteu e a água dele fluiu – mas eles também ficaram surpresos com uma coisa. A superfície de água fervia enquanto fluía, e a ebulição era forte o suficiente para mover não apenas água mas também sujeira e detritos ao redor dos fluxos. O importante aqui é que a temperatura não era o principal fator que fazia a água ferver, e sim a pressão da atmosfera de Marte.

“A pressão atmosférica em Marte é bem baixa em comparação com a Terra, o que significa que a água ferve a temperaturas muito mais baixas do que aqui,” explicou a co-autora do estudo, Susan Conway, ao Gizmodo. “Na superfície marciana, a pressão é entre 5 e 10 milibares, o que significa que a água entra em ebulição não importa qual seja a temperatura.”

Mas se a superfície de Marte tem água fervendo, isso poderia ser visto em outras condições além das do experimento, certo? É aí que entra a parte mais impressionante da pesquisa. Nós já vimos isso acontecer – só não sabíamos o que estávamos observando.

Mesmo antes de cientistas confirmarem a existência de água corrente em Marte, eles suspeitavam disso, particularmente por causa de algumas imagens que mostraram cenários do planeta que mudavam conforme a estação do ano. Nessas imagens, dá até para observar a água conforme ela flui (beeem lentamente) dependendo de cada estação do ano, como mostra este gif de Marte indo da primavera ao verão.

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Quanto mais quente fica, mais a água flui, mesmo que, tecnicamente, as temperaturas do verão sejam baixas. Isso acontece porque, em vez da água que estamos acostumados a ver correndo pelos nossos rios na Terra, a de Marte é bem salgada e isso faz o ponto de congelamento dela diminuir, meio como um anticongelante. Mesmo essa explicação, no entanto, ainda deixa uma questão bem importante sem resposta – e uma que, até agora, os cientistas não sabiam como solucionar.

Sabemos que a água corre por Marte hoje, e que a explicação da solução salina nos dá um método pelo qual isso pode acontecer. Mas as mudanças que observamos são grandes, o suficiente para podermos observá-las em imagens capturadas bem longe do planeta. Enquanto isso, a quantidade de água que flui é bem pequena e, pelo que parece, a velocidade dela é bem baixa. Então como a água consegue esculpir a paisagem tão rapidamente e visivelmente?

A teoria da água fervente soluciona esse problema. Como a água atinge um estágio de fervura pela superfície, ela move a areia e sujeira ao seu redor. No experimento, a equipe de pesquisadores viu a água fervente carregar detritos, mas também viu colapsos ao longo dos fluxos. Não é apenas o fluxo da água. A ebulição e a perturbação criam essas linhas em Marte com uma clareza que até nossos satélites conseguem observar.

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Imagem: M. Massé

Novas descobertas sobre a água em Marte nunca são sobre água. A pesquisa também nos dá algumas dicas sobre a presença de vida. No entanto, a notícia não é nem um pouco boa para a existência de vida por lá, segundo Conway.

“Nossos resultados mostram que muito menos água é necessária e que a água que é produzida tem uma vida muito curta – assim, não é um ambiente fabuloso para micro-organismos,” disse ao Gizmodo.

Ainda assim, mesmo que isso diminua a possibilidade de encontrarmos vida em Marte, é algo que devemos manter em mente para o futuro, principalmente para nossos planos de colonização do planeta.

“Se uma futura colônia em Marte quiser construir canais no planeta,” diz Conway, “então eles precisam ser cuidadosos ao criá-los para evitar o efeito de ebulição, que poderia resultar em erosão das margens dos canais.

Isso é algo bem para o futuro. Enquanto isso, podemos observar a água fluindo em Marte entendendo muito melhor o processo do que antes.

Foto de topo: Coprates Chasma, 2014 / NASA/JPL/Universidade do Arizona