Mudanças na paisagem podem afetar dispersão e genética de formigas no Cerrado

Estudo destaca importância de conservar variedade de fisionomias vegetais características desse bioma para preservar a biologia desses animais
Mudanças na paisagem podem afetar dispersão e genética de formigas no Cerrado
Foto: Luisa Mota / Divulgação

Texto: Agência Bori

Variações na vegetação do Cerrado podem ter impactos no comportamento e na genética de grupos de formigas, sugere estudo publicado na revista “Conservation Genetics” no sábado (27). O trabalho é fruto de uma parceria entre a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a Universidade Estadual Paulista (UNESP) e o Instituto Tecnológico Vale (ITV). Os pesquisadores destacam a importância de conservar a variedade de fisionomias vegetais características desse bioma para preservar a biologia desses animais, conhecidos pela abundância e pelas interações ecológicas com a flora nativa.

O estudo foi conduzido com base em amostras coletadas entre 2014 e 2015 em uma área de Cerrado próxima à cidade de Mogi Guaçu, em São Paulo. O local foi separado em quatro grupos com perfis vegetais distintos, incluindo áreas abertas e fechadas de vegetação nativa, locais com alterações feitas pelo homem , como estradas, e regiões de plantação de pinus e eucalipto. Com o auxílio de programas de informática, os pesquisadores analisaram a composição genética de 50 ninhos de duas espécies aparentadas de formigas, conhecidas como carpinteiras: Camponotus renggeri e Camponotus rufipes. Os dados obtidos foram correlacionados com as características físicas do local onde o ninho foi encontrado, revelando que diferentes características ambientais podem afetar a genética e o comportamento dessas espécies de maneiras distintas.

Para C. rufipes, a configuração e a composição da paisagem se mostraram os principais determinantes para a dispersão e formação de grupos com composições genéticas semelhantes. Os machos, os principais responsáveis pelo fluxo de genes na espécie, mostraram maior capacidade de se locomover por espaços abertos,e as rainhas tiveram maior sucesso na dispersão por áreas de cerrado fechado. “O macho é mais leve, mais ágil, tem menos risco de predação”, explica Marianne Azevedo-Silva, uma das pesquisadoras que conduziu as análises na Unicamp. “A rainha é bem maior e, por isso, está mais suscetível à predação. Provavelmente dispersar por ambientes mais fechados é até um mecanismo de proteção”, completa a bióloga. Assim, alterações na paisagem e mudanças no uso do solo poderiam dificultar a dispersão da espécie e causar variações significativas na composição genética das colônias, destaca o artigo.

Por outro lado, no caso de C. renggeri, a distância geográfica entre os ninhos foi o fator de maior influência na formação de grupos genéticos. Isso mostra uma propensão dos machos e rainhas por acasalar com indivíduos próximos e evidencia que a fragmentação do habitat pode ser um obstáculo para a reprodução da espécie. “Eu acho que essa é uma das contribuições mais importantes do trabalho, porque a gente mostra que espécies muito próximas respondem de formas diferentes ao ambiente”, conta a pesquisadora.

A bióloga salienta que esses resultados podem trazer impactos positivos para a criação de programas de preservação para as espécies do Cerrado. “Mostrar que a gente tem espécies tão próximas que usam o ambiente de formas diferentes destaca a importância de manter a heterogeneidade ambiental deste bioma”, diz. Ela completa ainda que a pesquisa abre precedentes importantes para futuros estudos de conservação no bioma. “Acreditamos que o estudo pode servir de estímulo para que outros pesquisadores que trabalham com outros grupos de animais passem a avaliar a importância desse mosaico fisionômico do Cerrado nas preferências de dispersão das diferentes espécies”, explica Marianne Azevedo-Silva.

Apesar de o trabalho ter sido finalizado, o grupo continua estudando o comportamento e a genética das formigas do Cerrado e desvendando outras características importantes para a conservação desses invertebrados. “Em alguns ninhos dessas espécies, vimos que há mais de uma rainha. Agora, estamos tentando entender o porquê disso e o que faz uma rainha ter mais filhos do que as outras”, conta a bióloga. O artigo publicado deixa ainda uma mensagem para os próximos estudos, uma vez que reforça que é essencial considerar diferenças não só entre as espécies, mas também entre os gêneros da mesma espécie. “Machos e fêmeas têm características biológicas e morfologias corporais diferentes que devem ser levadas em conta”, finaliza a pesquisadora.

DOI: https://doi.org/10.1007/s10592-023-01537-y

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