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Notificação incompleta de acidentes com serpentes pode prejudicar ações em saúde, aponta estudo

Levantamento feito no Maranhão, Estado com a segunda maior ocorrência de acidentes ofídicos no país, chama a atenção para a necessidade de treinar melhor os profissionais de saúde responsáveis por esses registros. Além de subsidiar pesquisas, dados mais confiáveis poderão orientar a distribuição de soro antiveneno

Notificação incompleta de acidentes com serpentes pode prejudicar ações em saúde, aponta estudo

Imagem: Wikimedia Commons/Reprodução

Texto: André Julião | Agência FAPESP

Os acidentes ofídicos, como são tecnicamente chamadas as picadas de serpentes peçonhentas, ainda são um problema estrutural no Brasil e em outros países, sobretudo para populações rurais. Como parte da estratégia de enfrentamento ao problema, desde 1986 é obrigatória a notificação detalhada dessas ocorrências no Sistema Único de Saúde (SUS). A ideia é que os dados possam subsidiar ações de saúde, como a distribuição de soro antiofídico.

No entanto, um estudo publicado hoje (06/10) na Revista da Sociedade Brasileira de Medicinal Tropical mostra que esses formulários nem sempre são totalmente preenchidos, além de conterem informações provavelmente incorretas, dada a incoerência entre sintomas mencionados e a espécie que provocou o acidente.

O trabalho identificou 17.658 casos entre 2009 e 2019 e chama a atenção para a necessidade de treinamento dos profissionais de saúde na notificação dessas ocorrências.

“Os profissionais da saúde não são treinados para o preenchimento adequado das fichas compulsórias de notificação, o que dificulta o planejamento de saúde pública para esse tipo de acidente. Além disso, falta conhecimento sobre as espécies mais comuns e os sintomas provocados”, afirma Sâmia Caroline Melo Araújo, primeira autora do estudo, realizado durante seu mestrado na Universidade Estadual do Maranhão (Uema).

Por isso, as autoras defendem ações de curto prazo para treinar os profissionais de saúde no reconhecimento dos acidentes ofídicos de espécies clinicamente importantes, além da promoção de um atendimento adequado ao paciente e preenchimento correto dos formulários de notificação obrigatória de acidentes ofídicos. Com isso, as pesquisas sobre o assunto poderão avançar.

“Existem dados nacionais e mundiais sobre essa questão, mas são de pelo menos cinco anos atrás. O maior problema é que os trabalhos são feitos com dados incompletos, uma vez que esse tipo de acidente não é notificado ou é subnotificado. Notamos que no Maranhão, segundo Estado com maior número de ocorrências desse tipo no Brasil, o problema se repete”, conta à Agência FAPESP Thaís Guedes, pesquisadora do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-Unicamp).

Atualmente, Guedes coordena o projeto “Evolução e biogeografia da herpetofauna: padrões, processos e implicações para a conservação em cenário de mudanças ambientais e climáticas”, apoiado pela FAPESP. Um dos objetivos do projeto é justamente o mapeamento de áreas de risco de acidentes ofídicos no Brasil (leia mais em: agencia.fapesp.br/40749/).

Zona rural

O levantamento revelou que a maior parte (66%) das vítimas de picadas de serpentes vivia na zona rural, onde também aconteceu a maioria dos acidentes (82%). Do total de ocorrências, 535 (3% das fichas) não dispunham de informação sobre o local de residência das vítimas e 425 (2%) da região onde ocorreu o acidente.

A profissão da vítima era, na maior parte das vezes (45%), trabalhador rural, embora em 31% dos casos não houvesse informação da ocupação. A imensa maioria era de homens (77%).

As serpentes que mais causaram acidentes foram as jararacas (gênero Bothrops, em 67% dos casos), seguidas de cascavéis (gênero Crotalus, 24%) e uma pequena parte de corais (Micrurus) e surucucus (Lachesis), cada uma respondendo por 1% dos casos.

As picadas foram majoritariamente (53%) nos pés e 10% nas mãos. A maioria (58%) das vítimas recebeu atendimento em até três horas após o acidente, tempo limite para diminuir as chances de agravamento do quadro e de morte. Provavelmente por isso a maioria dos envenenamentos foi leve (52%), com 81% das vítimas tendo se recuperado. O desfecho foi a morte em apenas 1% das ocorrências (139 casos).

As principais associações ocorreram entre severidade do envenenamento, idade da vítima, gênero da serpente e tempo entre a picada e o cuidado médico. Pessoas entre 51 e 60 anos tiveram mais chance de desenvolver casos graves, seguidas por vítimas acima de 60 anos.

As pesquisadoras ressaltam, porém, que o número de casos é provavelmente subestimado, algo comum nesse tipo de acidente não apenas no Brasil. Segundo a Organização Mundial da Saúde, entre 4,5 milhões e 5,4 milhões de pessoas são picadas por serpentes anualmente. Desse montante, até 2,7 milhões desenvolvem sintomas, enquanto entre 81 mil e 138 mil morrem de complicações decorrentes do acidente.

Segundo documento da agência da Organização das Nações Unidas (ONU), grupos de alto risco incluem, além de trabalhadores rurais, pescadores, caçadores e crianças que trabalham. No estudo brasileiro, a segunda profissão mais declarada pelas vítimas era “estudante” (16%).

“Observamos que grande parte dos acidentes no Maranhão aconteceu durante os meses de janeiro e março, quando ocorre um período de grande atividade rural, possibilitando o encontro dos seres humanos com as serpentes. Estima-se que o uso de botas, perneiras e luvas pelos trabalhadores rurais reduza até 90% dos acidentes com serpentes de importância médica. O atendimento e a notificação feitos de forma adequada podem reduzir o número de vítimas com sequelas e mortes”, encerra Guedes.

O artigo Snakebites in Northeastern Brazil: accessing clinical epidemiological profile as a strategy to deal with Neglected Tropical Diseases pode ser lido em: www.scielo.br/j/rsbmt/a/KpJpFxDdHMkc3H4D5WWf9Cr/?lang=en#.

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