Acordei em um lugar estranho. A cama era confortável, e quando me virei, vi água, um oceano inteiro. Eu estava levemente enjoado. Havia passado minha primeira noite no cruzeiro mais moderno do mundo, mas nem mesmo as tecnologias bilionárias são páreo para o Oceano Atlântico.

Esse navio possuía 20 restaurantes, e eu sabia que algum deles servia café.

“A gente perdeu o café da manhã?” perguntei para minha namorada enquanto procurava uma camiseta na minha mala bagunçada. “Você sabe?”

“Eu não tenho a mínima ideia”, ela balançou a cabeça. “Não tem um aplicativo para isso?”

“O aplicativo acha que o cruzeiro já terminou”, reclamei. Em algum ponto da viagem, o aplicativo que deveria ser meu concierge particular durante todo o cruzeiro começou a exibir uma mensagem de “Tenha Um Bom Retorno”, me indicando o local onde eu deveria retirar minha bagagem. As funções de bordo haviam desaparecido, mesmo com o navio estando inegavelmente no meio do oceano.

Na minha mesa, escondido em uma pasta onde eu a havia enfiado distraidamente, estava uma versão impressa do itinerário do dia. Nós não havíamos perdido o café da manhã, mas teríamos que andar o que pareciam quilômetros até a outra extremidade do navio. O aplicativo bem que poderia ter nos guiado até lá. Ao invés disso, seguimos as placas nas paredes.

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Algumas semanas antes daquela manhã nublada, a Royal Caribbean havia me convidado para a viagem inaugural de seu mais novo navio, o Quantum of the Seas. Receber esse email foi emocionante; a reputação do Quantum é incontestável. Este é o navio com um barman robótico, um simulador de paraquedismo, sacadas virtuais, carrinhos bate-bate, uma internet absurdamente veloz e até mesmo um mini-Johnny Rocket que serve hambúrgueres na beira da piscina. Tudo isso é coordenado, obviamente, por dois aplicativos que te ajudam a planejar sua viagem e a se localizar em um navio com 400 metros de extensão.

A Royal Caribbean queria tanto que a gente desse uma olhada no Quantum of the Seas que a empresa me ofereceu uma viagem de dois dias e duas noites, para mim e um acompanhante — com tudo pago. O navio partia de Nova Iorque, onde eu moro, o que significa que a Royal Caribbean economizou um pouco nas nossas passagens de avião.

O Quantum of the Seas é também o navio que irá mudar, para o bem ou para o mal, a indústria de navios de cruzeiro, o que nos traz a uma pergunta interessante: será que toda essa tecnologia e conectividade resultam em férias mais relaxantes e agradáveis? A pergunta é válida, especialmente se considerarmos que muitas pessoas viajam especificamente para fugir da tecnologia. É o velho mantra “desconecte-se e recarregue-se“. Eu não tinha uma opinião formada quando embarquei no navio, mas esse cruzeiro revelaria uma realidade muito mais complexa.

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O Quantum of the Seas chegando ao Porto de Nova Iorque, pouco antes do início meu cruzeiro (Imagem: Royal Caribbean)

A tecnologia em si não é o diferencial do Quantum of the Seas. Essas tecnologias não são exatamente novas; elas são, na realidade, uma novidade no mercado de cruzeiros. O que realmente chama a atenção é como a Royal Caribbean reestruturou toda a experiência de um cruzeiro ao redor dessa tecnologia. Os concierges humanos foram substituídos por aplicativos. Os garçons foram substituídos por robôs que fazem coquetéis. As paredes brancas foram substituídas por telas touchscreen. Tudo isso com o objetivo de transformar essa experiência em algo mais condizente com nossa era digital.

Eu nasci nessa era, e viajar em um cruzeiro é um dos sonhos que trouxe para a vida adulta. Mas ninguém nunca se dispôs a me acompanhar! Ninguém estava interessado em viajar em um cruzeiro brega. Acho que nasci em uma geração pós-cruzeiros — pelo menos, é isso que muitas pessoas pensam.

Meus pais faziam muitos cruzeiros nos anos 70 e 80, e sempre gostaram muito da experiência. Nos anos 90, nós embarcamos em um pequeno cruzeiro de três dias, indo de Cape Canaveral até as Bahamas; a viagem foi um presente de aniversário para minha irmã, que fazia 13 anos. Eu tinha 11 anos na época, e não tenho muitas lembranças da viagem. Só me lembro do lançamento do foguete. Cape Canaveral fica pertinho do Centro Espacial Kennedy, e nosso timing foi perfeito. Na noite em que o navio foi ao mar, os passageiros correram para o convés depois do jantar, ansiosos para ver o lançamento do foguete. O fogo dos aceleradores iluminou o horizonte, e a nave cortou o céu. O deslumbramento que senti naquele instante me acompanhará pelo resto da minha vida.

Nenhum foguete seria lançado durante esse cruzeiro. Ao invés disso, eu teria que me contentar com tecnologias mais banais — mas ainda assim, muito impressionantes. É importante notar que a Royal Caribbean estará exibindo a jóia rara da sua mais nova linha de navios nos Estados Unidos por apenas seis meses. Após isso, a empresa irá retirar as atrações musicais, expandir o cassino e mandar o Quantum of the Seas para a China, que será a sua residência fixa.

Mas eu estou me adiantando. Por que eu não começo do início, antes dos enjoos, do estresse e do uísque? Por que eu não narro o meu primeiro encontro com o que alguns chamam de “navio inteligente“?

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Em Nova Jersey, esmagado entre um lindo country club e uma ferrovia abandonada, existe um pequeno porto conhecido como Cape Liberty, a alguns quilômetros da Estátua da Liberdade. Lá estava ele, flutuando no rio Hudson como um arranha-céu horizontal: o Quantum of the Seas. O navio de cruzeiro mais tecnológico do mundo. O barco que abriga um simulador de paraquedismo, um bonde suspenso para exploração marítima e uma máquina que faz drinks com um simples toque em um tablet.

Esse seria o meu resort flutuante pelos próximos dois dias. Eu mal podia esperar.

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Essa é a Estrela do Norte, um bonde suspenso que sobrevoa o oceano para que os passageiros possam apreciar a vista. (Imagem: Royal Caribbean)

Com um peso próximo as 170.000 toneladas e com quase 400 metros de extensão — quase meio quilômetro — o Quantum of the Seas é o terceiro maior navio do mundo. Todo esse exagero é o suficiente para abrigar 16 andares com 18 restaurantes, quatro piscinas e até mesmo um rinque de patinação. O navio tem capacidade para viajar com 4.180 clientes e 1.500 tripulantes. Tudo isso por uma quantia estimada em US$969 milhões.

Existem vários detalhes que confirmam que esse é, de fato, um navio inteligente — vou falar sobre eles mais para frente — mas o check-in inicial é o primeiro deles. Você é instruído a fazer a maior parte do check-in pela internet e a imprimir seus cartões de embarque antes da viagem. Dessa forma, quando você chega no porto, basta passar por um detector de metais, apresentar seu cartão de embarque e subir a bordo. Esse processo é comum em companhias aéreas, mas é, aparentemente, uma novidade para a Royal Caribbean.

No entanto, não foi exatamente isso que aconteceu. Eu não tenho uma impressora em casa; assim, depois de passarmos pelos seguranças, tivemos que ir até um balcão, onde uma atendente muito amigável imprimiu nossos cartões de embarque. Esse processo demorou dez minutos, durante os quais eu escutei uma atendente perguntar para outra qual era a senha do sistema de identificação. Eu não quero facilitar a vida dos criminosos, então me limito a dizer que a senha é uma pequena variação da palavra “senha”.

Quando finalmente ganhamos nossos cartões de embarque, fomos até a entrada do navio, onde outro funcionário os escaneou. Ocorreu um erro no sistema. Apesar dos cartões apresentarem todas as informações corretas, quando eles escaneavam nossa identificação, o computador pensava que eu era a minha namorada.

Enquanto finalmente subíamos a rampa de acesso ao navio, eu me perguntava se aqueles pequenos erros fariam alguma diferença. Eu poderia ter evitado um deles, caso tivesse uma impressora em casa. E um erro de identificação, apesar de frustrante, não parece ser um problema causado pela nova tecnologia; algo parecido poderia ter acontecido em qualquer cruzeiro.

O verdadeiro teste, que revelaria se a tecnologia melhorou a experiência de fazer um cruzeiro, só ocorreria quando embarcássemos no navio. Afinal, a Royal Caribbean criou um sistema completamente novo, com pulseiras com chips RFID e cartões de identificação padrão para auxiliar na satisfação dos desejos e necessidades de seus clientes.

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O design da pulseira traz a sensação de que a Royal Caribbean quer substituir seu relógio por um chip RFID. Eu usei a minha pulseira por cinco minutos, quando comecei a ter a sensação de que estava usando algum tipo de rastreador. Decidi usar o meu relógio, mesmo, já que teríamos que fazer reservas para o jantar.

Era possível usar tanto a pulseira como o cartão — ambos continham as mesmas informações sobre o passageiro (eu acabei usando o cartão durante toda a viagem; ele me lembrava a época de faculdade, e eu gostei disso. Também não gostei da ideia de usar um bracelete rastreador por três dias). No entanto, essa mudança certamente afetou o processo de check-in e exigiu um novo software. Novos softwares tem uma forte propensão ao erro, mesmo em cruzeiros de ponta.

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Antes de tudo, deixem-me esclarecer algo: o Quantum of the Seas é um espetáculo. Eu poderia até dizer que ele é a caricatura de um espetáculo, completamente estonteante e com cada característica elevada ao extremo. Entrar no restaurante Grand Concourse foi como entrar em uma formatura da terceira idade, exceto que, ao invés de smokings alugados e vestidos brilhantes, todos estão vestindo shorts e pulseirinhas da Royal Caribbean. Eu tenho certeza que existem muitos cruzeiros parecidos, mas, só tendo viajando em um na infância, eu não consegui compreender as implicações de tanto luxo.

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É importante acrescentar que o pub de lá servia a minha cerveja favorita, a Heavy Seas Loose Cannon, direto do barril. Também é bom acrescentar que o barril já estava vazio no momento em que paramos para beber um pouco, 24 horas após o início do cruzeiro.

A praça central do navio, apesar de bonita, não pareceu muito notável. Nós passamos por um pub que parecia um pub de verdade, atravessando as lojas do duty-free que você pode encontrar na maioria dos cruzeiros. A sensação é de estar passeando por um shopping de gente rica.

Quando finalmente chegamos aos elevadores, tudo mudou, e eu me senti como se estivesse de férias dentro de Blade Runner. Se a praça central já era uma overdose de estímulos, o elevador era inacreditável. Tudo lá era touch screen, e não havia nenhum botão físico. Nós adivinhamos em qual andar estávamos pelo número do nosso quarto — não havia nenhum funcionário para nos levar até nossa cabine — e tocamos na tela. Pensando bem, o design era ainda mais futurista do que Blade Runner. Era como se estivéssemos em Tron 2.

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Imagine seis colunas de vidro e aço escovado subindo e descendo enquanto você desliza pelo Oceano Atlântico. É claro que outros navios também têm elevadores, mas esses erma bem mais futuristas. (Imagem: Royal Caribbean)

O que realmente chamou minha atenção enquanto eu explorava o navio foi a quantidade absurda de telas. Havia uma tela em todo canto: um tablet para reservar um jantar no Grand Concourse, uma tela que exibia vídeos artísticos esquisitos, um painel touchscreen com um mapa do navio, e, obviamente, uma tela de TV em cada cabine. Falando como alguém que fica olhando para uma tela por aproximadamente 15 horas por dia, esse cenário cheio de LEDs não foi uma grande mudança.

No entanto, quando finalmente encontramos nossa cabine, eu fiquei alegremente surpreso. Eu sabia que a gente teria uma varanda, mas eu esperava que meu cruzeiro grátis viesse com menos espaço. Nas minhas lembranças do cruzeiro (bem barato) de Carnaval que eu fiz com meus pais há vários anos, nós quatro nos esprememos em um espaço do tamanho de um carro econômico.

Minha cabine no Quantum of the Seas era comparável a um quarto de hotel padrão, com uma cama de casal, uma mesa, dois armários, e um banheiro de tamanho considerável. A decoração era agradável — de bom gosto, até. A TV era uma Samsung da espessura de uma navalha, e podia ser girada para que a assistíssemos de qualquer ângulo. As cabines sem janela tinham uma vista digital, uma TV enorme posicionada na vertical que exibe imagens do oceano em tempo real (para ser específico, câmeras RED HD transmitem imagens para TVs de LED Sharp Aquos de 80 polegadas).

Mas eu não havia embarcado naquele navio para assistir Os Jetsons na minha cabine. Eu estava lá para fazer outra coisa — mesmo que eu não soubesse muito bem o quê. As opções eram tantas que eu nem sabia por onde começar. Por falta de uma ideia melhor, eu acabei indo até a proa do navio.

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O Quantum of the Seas foi projetado para ser uma cidade flutuante. Isso pode ser dito de qualquer navio de cruzeiro, mas a quantidade excepcional de opções de comida, bebida e entretenimento nesse navio em particular tornou a experiência estranhamente urbana. E, nessa cidade flutuante, toda hora é hora de festa.

Enquanto caminhávamos até o convés, demos de cara com alguns tripulantes carregando grandes garrafas de vinho branco. Em cerca de 90 segundos, nós tínhamos nossas próprias taças. Relembrando agora, percebi que o meu primeiro contato com algum funcionário em alto mar envolveu um pedido de bebida para um barman. Eu não estou dizendo isso para salientar minha paixão pela bebida. Esse é um exemplo perfeito do quão digital é essa experiência. Até aquele momento, todas minhas perguntas haviam sido respondidas pelo aplicativo.

Os dois aplicativos, lançados junto com os navios da linha Quantum, se chamam Cruise Planner e Royal iQ. Somos aconselhados a baixá-los antes mesmo de embarcar. Isso porque os dois apps atuam conjuntamente, virando uma espécie de concierge digital. Você pode fazer reservas nos restaurantes, marcar tratamentos no spa, comprar ingressos para as atrações e várias outras atividades — tudo pelos aplicativos. Os aplicativos também contêm mapas do convés e uma opção muito interessante, que te permite conversar ou ligar para pessoas que não estão no navio. A ideia de férias coordenadas por um aplicativo não me apetece, mas eu vejo como algumas pessoas podem achar a ideia conveniente.

Tudo isso é muito útil — até o momento em que deixa de ser. Mais uma vez, a Royal Caribbean acabou de desenvolver o software, o que significa que ele está propenso a falhas, o que realmente se concretizou. Por exemplo: em algum ponto das minhas primeiras 24 horas no navio, o aplicativo Royal iQ pensou que eu havia deixado o barco e parou de funcionar. Isso não fez muita diferença, porque o mesmo aplicativo está disponível em telas e tablets espalhados pelo navio. Mais uma vez, eu estou de certo de que algumas pessoas acham isso conveniente. Mas para ser honesto, eu não quero depender do meu celular ou ficar olhando para telas durante todas minhas férias. Eu já faço isso quando estou trabalhando.

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Eu me pergunto com qual frequência eles limpam isso.

Contudo, eu parecia ser a exceção. É óbvio que muitas pessoas gostam de se manter conectadas durante suas férias. Era impossível dar um passo sem ver alguém olhando para um tablet ou tirando uma foto com o celular. Como essa era uma viagem especial para a imprensa, a Royal Caribbean estava sempre nos encorajando a compartilhar nossas opiniões e fotos — selfies, especificamente — no Facebook, Twitter e Instagram.

Eles até criaram uma hashtag idiota: #SelfieAtSea (#SelfieABordo, em português). Os funcionários distribuíram “paus de selfie” para tornar essa atividade mais agradável. Estranhamente, essa manobra publicitária voltada para os jovens não funcionou muito bem com esse público-alvo. As únicas pessoas que eu vi usando os paus de selfie foram mulheres de meia idade, tirando fotos com seus tablets.

Enquanto passeávamos por aí com nossas bebidas, minha namorada reconheceu a Alexa PenaVega, uma ex-atriz mirim e celebridade do Instagram. Nós estávamos no mesmo recinto quando ela tirou as duas selfies do topo, à esquerda. Foi ela que ajudou a popularizar a já mencionada hashtag no outro navio da linha do Quantum of the Sea, o Allure of the Seas, há algumas semanas. Lá estava ela, pronta para causar mais estardalhaço no Quantum. Não há nada de errado em convidar uma celebridade de internet para um passeio no navio (a Alexa PenaVega tem quase 300,000 seguidores). A empresa está realmente se esforçando para se conectar com as novas gerações. Mas nem todos nós somos viciados em Instagram ou obcecados com selfies.

Nós finalmente encontramos o bonde suspenso, estacionado perto do bar da piscina, na parte da frente do navio. Eu tive sorte e dei uma volta nele logo de cara. O crachá da imprensa que eu estava usando deve ter ajudado. A Estrela do Norte se levantou lentamente, oferecendo uma visão panorâmica do convés abaixo.

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É quase melhor ver a Estrela do Norte de baixo do que andar no trambolho — especialmente se você tiver medo de altura. (Imagem: Royal Caribbean)

Esse é um bom exemplo de como o navio reaproveita tecnologias terrenas no meio oceânico. Se você já andou em um bonde suspenso em alguma estação de esqui, o bondinho do Quantum of the Seas é bem familiar (na verdade, a cabine que abriga os passageiros foi construída por uma empresa de bondes suspensos para estações de esqui). A grande diferença é que, em uma estação de esqui, o bonde nos leva até o topo de uma montanha, de onde esquiamos morro abaixo. No navio, o bonde sobe, dá uma volta, e desce mais uma vez. Eu não curti o passeio; pelo menos, não tanto quanto fiquei incomodado com o fato de estar em uma bolha a centenas de metros acima do convés. Mas eu sou meio medroso.

Minha experiência na Estrela do Norte durou dez minutos, e foi um pouco decepcionante. Eu não sei dizer se ela aumentou meu nível de curtição, já que meu medo de altura entrou em jogo. Apesar disso, a orbe de vidro fica muito maneira, parada lá no convés.

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O tempo passa de forma diferente em um cruzeiro. De certa forma, o tempo é a sua principal moeda de troca. Quando você está em um cruzeiro normal, você paga uma quantia considerável para passear em um barco enorme, normalmente com um destino interessante em mente. Nosso pequeno cruzeiro só deu uma volta no Atlântico. A chamada “Amostra de 3 Noites Quantum” custam US$500, mais US$100 em taxas. Vamos arredondar para US$200 por dia. Por esse preço, você pode ficar em um quarto com uma sacada virtual — que não é tão legal quanto parece, mas é, ainda assim, um pouco legal — e sem janela. Suas refeições e algumas atividades estão inclusas nesse preço. Todo o resto (leia-se: bebida) não está.

Então, mantendo minha afirmação de que o tempo é sua principal moeda, é importante enfatizar que tem. muita. coisa. para. fazer. nesse. navio. O Quantum of the Seas não é o maior navio do mundo, mas é, provavelmente, o navio com o maior número de atrações. É tanta coisa para fazer que você começa a enlouquecer. O MENA (o Medo de Não Aproveitar) virou rapidamente o tema do lugar.

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As obras de arte em exibição em uma das escadarias também eram de enlouquecer — especialmente quando lembramos do Costa Concordia ou do cruzeiro das fezes.

Nós logo aprendemos que o planejamento era a única forma de aproveitar esse grande barco de diversão sem nos sentirmos como gatinhos perdidos em uma convenção de leões. E, segundo a forma como a Royal Caribbean planejou a experiência Quantum , devemos usar um dos aplicativos para planejar tudo. O que significa que minha próxima parada, depois da Estrela do Norte, era meu próprio smartphone. Eu comecei a explorar o aplicativo para ver quais eram as opções.

Já tínhamos uma mesa reservada no The Grande, o único refeitório formal do navio; mas nós queríamos ter a experiência de usar black tie e tudo mais, então tentamos fazer uma reserva para a noite seguinte no Jamie’s Italian, um restaurante do Jamie Oliver. O lugar estava lotado. Em seguida nós tentamos o Wonderland, um restaurante temático de Alice no País das Maravilhas que parece ter saído de um dos piores pesadelos do Johnny Depp. Lotado. Nós chegamos a tentar um dos outros refeitórios principais. Lotado.

De acordo com o aplicativo, quase todos os restaurantes estavam lotados pelos próximos dias. Ficamos tão frustrados que andamos até o refeitório principal e falamos com um humano. Apesar do duro “NÃO” do aplicativo, a hostess insistiu que eles poderiam nos servir. Eu queria, sinceramente, que tivéssemos começado todo esse processo falando com um humano, mas a Royal Caribbean está claramente nos forçando a entrar nessa onda de aplicativos.

No final, nós acabamos indo apenas ao The Grande, na mesma noite. O jantar foi excelente. O serviço foi maravilhoso, e a comida era melhor ainda. O garçom manteve minha taça de vinho constantemente cheia, e eu comi lesmas, seguidas de lagosta e cordeiro. Essa era a experiência elegante, divertida e luxuosa com a qual eu sempre sonhei! Ironicamente, eu percebi mais tarde que essa foi uma das únicas experiências tradicionais de um cruzeiro que eu tive na viagem.

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Essa escultura tem o tamanho de uma caminhonete, e é muito mais bonita pessoalmente.

Na mesma noite, eu tive uma conversa incrível com Adam Goldstein, o Presidente e Líder de Operações da Royal Caribbean Cruises Ltd. Ele trabalha na empresa há 26 anos, o que significa que ele viu a indústria se transformando, e observou a evolução do interesse por viagens. Quando eu perguntei para ele do que ele tinha mais orgulho nessa nova linha de navios, ele mencionou o inovador sistema de Wi-Fi, e o que eles chamam de “refeições dinâmicas”.

O Wi-Fi não é apenas inovador; ele também é extremamente rápido. Goldstein me contou que a Royal Caribbean trabalhou com uma empresa chamada O3b Networks para conectar o navio a satélites que giram próximos à órbita terrestre, de forma que o sinal não tivesse que viajar tanto, e, assim, disponibilizando uma maior velocidade de upload e download. A O3b Networks é uma das empresas que está levando o Wi-Fi de alta velocidade para países em desenvolvimento (o nome “O3b” significa “Outros 3 bilhões”).

Nas áreas do navio com maior cobertura, eu conseguia uma velocidade de banda larga. Minha cabine, infelizmente, não era uma dessas áreas. Mas graças a Deus, eu não estava no navio para sentar no meu quarto e ficar mexendo na internet. O Wi-Fi funcionava bem no meu celular, mesmo enquanto caminhávamos pelos conveses. Isso era bom, mas, mais uma vez, eu gosto da sensação de não estar conectado o tempo todo quando estou de férias.

Talvez por eu ter crescido em um restaurante — eu literalmente dormia em cima do salão — eu fiquei muito intrigado com a ideia de “refeições dinâmicas” da Royal Caribbean. Tradicionalmente, as refeições sempre foram uma parte muito simples dos cruzeiros. Você é colocado em uma mesa espaçosa, e janta no mesmo lugar, todas as noites, e com os mesmos estranhos.

Para que tantas opções de restaurantes? Bom, como Goldstein me explicou, é exatamente isso que as pessoas querem. Assim, a empresa oferece mais opções por uma certa quantia. Apesar de cinco restaurantes estarem inclusos, a experiência personalizada custa um pouco mais. Levando em consideração que os millenials são o público alvo do Quantum of the Seas, estamos lidando com consumidores com um estilo de vida altamente individualista e interconectado. Tudo no navio foi criado não apenas para oferecer uma experiência única, mas sim, uma experiência única apenas para você.

Durante essa experiência, não temos que lidar com incômodos como Wi-Fi lento, a falta de lugar para jogar X-Box, ou a ausência de um simulador de paraquedismo. O Quantum of the Seas flutua sobre o excesso e a extravagância. Mais especificamente, o nosso excesso e extravagância.

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Na manhã seguinte eu acordei um pouco confuso e de ressaca. Eu também estava enjoado. O navio estava balançando muito suavemente, mas ele estava balançando. Felizmente, eu havia previsto essa possibilidade, e tomei algo para aplacar minha náusea. Esse era o grande dia — meu único dia completo no mar — e eu tinha um plano, um plano que seria posto em prática no momento em que eu bebesse um pouco de café. Eu só consegui tomar café graças ao panfleto que havia sido deixado no meu quarto na noite anterior. Como eu mencionei previamente, o aplicativo Royal iQ havia decidido que eu não estava mais no navio.

A partir desse ponto, minha viagem a bordo do Quantum of the Seas passou em um piscar de olhos. A primeira parada foi no simulador de paraquedismo, que a Royal Caribbean chama de RipCord by iFLY. O inglês levemente rabugento que estava coordenando a agenda do lugar me falou que eu poderia participar da próxima aula, mas que eu teria que correr até o meu quarto e trocar de sapato em cinco minutos. Isso não se encaixava na minha programação, então eu não pulei de paraquedas.

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A última coisa que um passageiro enjoado precisa é de um simulador que te faça flutuar, certo? (Imagem: Royal Caribbean)

Na realidade, a sessão dura uma hora, e me parece que 59 desses 60 minutos são gastos com treinamento. Você só tem um minuto, mais ou menos, de falso paraquedismo. Eu já havia visto esse tipo de simulador antes, em terra firme. Eles são apenas ventiladores gigantes, fortes o bastante para suspender um corpo no ar. É inegavelmente impressionante que a Royal Caribbean tenha construído um em um barco. Mas não é algo que você não possa encontrar em Las Vegas, por exemplo.

Logo abaixo do simulador de paraquedismo, temos o simulador de surfe. A estrutura tem o tamanho de uma casa e funciona assim: a máquina uma camada de água em cima de uma rampa, permitindo que você deslize pela superfície com uma prancha de bodyboarding, ou, em teoria, uma prancha de surf. Parecia extremamente divertido, mas estávamos em pleno novembro, no meio no Atlântico. Estava frio demais para nadar sem uma roupa térmica. E é claro que havia uma fila, o que me roubaria muito do meu precioso tempo. Assim, desisti do simulador de surfe. Eu tinha que continuar minha jornada.

Os carrinhos bate-bate eram a próxima atração. Eles faziam parte de um complexo de entretenimento chamado SeaPlex. Este é, basicamente, um campo de basquete multiuso. Uma hora eles colocam os carrinhos na superfície, e, no próximo instante, o lugar vira um rinque de patinação (esse é o primeiro navio a oferecer tanto carrinhos bate-bate quanto patinação, o que é impressionante). Também temos uma oficina de circo, mas eu não vi nenhum palhaço ou acrobata (você pode supostamente aprender a balançar em um trapézio a bordo do Quantum of the Seas, o que também é impressionante). No andar de cima, temos coisas divertidas como mesas de pebolim e de pingue pongue. Existe até uma área da Xbox, dedicada — e bem equipada— para fãs de videogame. Com tantas opções, eu não conseguia decidir o que fazer. Então segui em frente. Tempo é dinheiro, e eu imagino que, em um navio cheio, todas essas coisas exigem muito tempo de fila ou reservas prévias.

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Há um total de quatro estações de videogame, que parecem uma versão maior daqueles quiosques na seção de eletrônicos do Walmart.

Seguindo em frente, nós saímos em outro convés e nos vimos cercados de personagens de desenhos espalhados por uma rede complexa de piscinas. Tudo isso fazia parte da Experiência DreamWorks, que deve ser fantástica para crianças — mas não para mim. Nós voltamos para dentro do navio, onde encontramos outra piscina com jacuzzis enormes, na qual planejamos voltar para dar um mergulho mais tarde. Nós não voltamos.

Um pouco mais a frente havia um solário, que acabou se tornando minha parte favorita do navio. A imensa redoma de vidro ficava próxima ao spa e ao restaurante natural, de forma que ele estava cercado por muito sol e uma obsessão generalizada com uma vida saudável. Ele também estava cercado por plantas, que deixavam o ar mais rico em oxigênio. Uma série de piscinas em diferentes níveis faziam um som de cascata, e você não podia dar nenhum passo sem tropeçar em algum móvel próprio para o relaxamento. Nós acabamos deitados em algo que eu só posso descrever como um ovo do amor, e tiramos uma soneca. Foi o momento mais prazeroso de todo o cruzeiro.

Ele também foi o momento mais analógico da viagem.

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O Solário parece um biodomo flutuante, e é maravilhoso. (Imagem: Royal Caribbean)

No final das contas, todas as atividades tecnológicas do navio me lembraram a minha vida ocupada e tecnológica em Nova Iorque. Todas as atividades envolviam reservas, filas, longos períodos olhando para telas — mais uma vez, todas as coisas que eu estava tentando evitar.

 

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Tendo dito isso, eu faria tudo de novo, apesar de eu ter que economizar por meses para conseguir bancar a experiência completa do Quantum of the Seas. Apesar da Royal Caribbean ser muito discreta sobre o preço total das atrações, é correto afirmar que os US$600 do pacote mais barato não cobrem, na realidade, o custo total da viagem. Se você quiser jantar no restaurante do Jamie Oliver, por exemplo, terá que pagar mais US$25. Se você quiser beber um drink, terá que comprar um pacote de drinks — que custam até US$55 por dia — ou pagar cada bebida individualmente. Se você quiser uma massagem, terá que desembolsar mais de US$100. E se você viajar no navio por apenas duas noites e quiser ver tudo, como foi o meu caso, é melhor que você se planeje com antecedência.

Mas a Royal Caribbean não quer que você veja tudo. Um funcionário da empresa brincou que encher os navios com um número infinito de atrações era bom para o negócio, porque as pessoas teriam que fazer um segundo cruzeiro para ver o que elas não conseguiram da primeira vez! Eu não acho que ele estava brincando.

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Quem não iria querer checar o Twitter durante um mergulho?

Durante o jantar da nossa última noite, dividimos nossa mesa com Richard Fain, o diretor executivo da Royal Caribbean Cruises Ltd. Apesar dele estar nessa função desde 1988, Fain já trabalhou com navios cargueiros, o que eu achei engraçado, por algum motivo. Nós também dividimos a mesa com jornalistas de dois outros blogs de tecnologia, o que eu também achei engraçado.

Apesar de tudo, Fain queria nos mostrar como ele é moderno. Ele jogou várias informações aleatórias na mesa, como o fato de que ele dirige um Tesla ou que ele mora em uma casa com um certificado LEED. Esse estilo de vida altamente tecnológico e com um fundo de consciência ambiental está, é claro, de acordo com a ideia por trás dos navios da linha Quantum da Royal Caribbean (além do Quantum of the Seas e do Allure of the Seas, um terceiro navio chamado Ovation of the Seas está com o lançamento marcado para o próximo outono). Se o investimento bilionário da empresa render bons frutos, os navios futuristas podem ser apresentar a experiência absurda de um cruzeiro a toda uma nova geração.

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O resto do cruzeiro parece um borrão de milhares de LEDs. Depois de nos despedirmos de nossos companheiros de jantar, nós entramos no Two70, um bar de dia e uma viagem de ácido à noite. Nas palavras da Royal Caribbean, o teatro contêm “o fascinante Vistarama e Roboscreens® dançantes, que são tão essenciais à apresentação quanto os artistas”. Depois de assistir à apresentação, devo concordar com essa descrição. Imaginem uma versão de Moulin Rouge, mas ao vivo e com robôs. Se é espetáculo que você quer, é espetáculo que você receberá, em proporções absurdas e luxuriantes.

Quando me dei conta, estava no Bionic Bar, morada do barman robótico. Existem duas dessas máquinas velozes, trabalhando em conjunto abaixo de um teto repleto de garrafas de cabeça para baixo. Elas parecem estalactites alcoólicas.

De certa forma, isso era o que eu mais queria ver (eu também estava bem interessado nas varandas virtuais, mas, como eu já disse, elas não são nada além de uma TV grandona. O efeito geral é estranho, mas ver um pouco de luz artificial me parece melhor do que viver sem nenhum contato com o mundo externo).

Os barmans robóticos não são atrações exclusivas do Quantum of the Seas. Eles são, na realidade, um produto criado por uma empresa chamada Makr Shakr. A primeira vista, eles parecem os robôs utilizados em fábricas de carros. No entanto, a experiência que a Royal Caribbean criou eleva o design dessas máquinas a outro patamar. A empresa de cruzeiros criou um bar biônico para um navio biônico.

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É como responder seus emails!

A usabilidade do bar é muito mais simples do que eu imaginava. Várias mesas são equipadas com tablets e scanners RFID. Você escaneia sua pulseira ou cartão, e a máquina verifica sua idade e se conecta ao seu cartão de crédito. Em seguida, você escolhe um drink a partir de uma lista de bebidas recomendadas, ou cria a sua própria bebida. O drink sugerido era um Long Island Iced Tea, o que me pareceu uma má ideia. Como ele tem um grande número de ingredientes, um Long Island Iced Tea é um drink demorado, especialmente quando feito por um robô.

Independente da escolha, seu pedido vai para o final de uma lista, que é exibida em uma tela muito bonita dentro de um espelho. A tela também mostra em quanto tempo sua bebida será servida, o que, eu notei, levava cerca de 15 minutos. Nós havíamos passado pelo Bionic Bar várias vezes; é impossível evitá-lo, já que ele fica num dos cantos da praça principal do navio. Ele está sempre lotado. Mas naquela noite e naquele exato momento, nós éramos os únicos lá, e o tempo de espera era de 0 minutos.

Enquanto eu assistia a esses braços de metal sugando álcool das garrafas no teto, uma música eletrônica tocava ao fundo. O bar era escuro, como muitos outros bares, e tudo era brilhante e feito de plástico liso. O único humano trabalhando no Bionic Bar era a mulher que limpava as bancadas. No bar, copos abandonados encaravam os robôs. Antes que eu me desse conta, um dos robôs derramou a minha fraca tentativa de coquetel em um copo plástico. Me levantei e fui buscá-lo. Enquanto engolia o líquido verde-limão, eu questionava minha identidade.

O questionamento não foi tão existencial quanto parece. Assim como a apresentação no teatro cheio de robôs, o Bionic Bar é um espetáculo, e pouco mais que isso. Toda vez que passávamos perto de sua fachada, observávamos uma fila que era maior do que a de qualquer outro bar do navio (nós não esperamos por mais de dois minutos em nenhum dos bares humanos que frequentamos). A especialidade do Bionic Bar são os drinks mais simples. Quando testamos algo mais complexo, o gosto ficou um pouco estranho, meio artificial. Mas os robôs são muito legais! Mais uma vez, um espetáculo, e nada mais.

Isso sempre me pareceu um conceito muito americano – e eu sou, afinal, um americano. Nós somos o país de Hollywood, da Disneylândia, os criadores do Super Bowl. Se somos bons em algo, esse algo é o espetáculo. Se é isso que você quer, é só entrar na fila.

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O navio pareceu estranhamente familiar na manhã seguinte, como um sonho que eu já tivesse sonhado outras vezes. Faz bastante sentido, já que eu estava perambulando pelo lugar pelos últimos dois dias. O que senti ao ir embora foi esquisito, como se eu estivesse voltando para a vida normal e não soubesse o que fazer com ela. Havia tantas coisas a serem feitas, e tão poucas frivolidades. Mais relevante foi a realização de que o mundo era cheio de coisas que eu sabia, sim, fazer, usando meus hábitos antiquados.

Creio que no final, eu consegui o que queria. Eu me diverti. Eu ganhei novas lembranças. Eu fiz tudo o que devemos fazer em um cruzeiro. E mesmo que a lista infindável de atrações e experiências de última geração tenham parecido angustiantes enquanto eu tentava viver todas elas, essa lista também existe na vida real. A diferença é que eu estou mais acostumado a lidar com a última lista.

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Mas eu não consegui tirar a imagem da espaçonave de Wall-E da minha cabeça: milhares de pessoas sentadas, sugando suas bebidas e esperando entretenimento enquanto seus corpos apodrecem. Se a Royal Caribbean tivesse fornecido Segways, para evitar o desconforto de caminhar por aí… Um aplicativo tomaria conta de todo o resto!

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Eu estava ansioso para voltar para o Brooklyn, de volta a minha vida cheia de tecnologia em terra firme. Eu só compreendi como a situação era bizarra quando estava atravessando o Túnel Holland, centenas de metros abaixo de onde o cruzeiro começou. Temos aqui uma empresa de navios gigantesca e com mais de meio século de existência fazendo um esforço monumental para salvar uma indústria a partir da ressignificação de uma experiência. E a sua salvação é o Quantum of the Seas, uma monumental engenhoca flutuante. Seus esforços para chamar a atenção de uma nova geração de futuros tripulantes são parte de uma estratégia corajosa.

Eu faço parte dessa geração, e não tenho certeza se eu quero passar minhas férias em uma grande geringonça tecnológica. Isso não quer dizer que o cruzeiro não seja inovador, ou divertido. Na verdade, eu acho que até mesmo as atrações mais absurdas do navio — eu não consigo me decidir entre o simulador de paraquedismo ou o garçom biônico — são interessantes e divertidas. A experiência foi, sem dúvida, futurista.

Mas talvez eu queira fugir daquilo tudo de tempos em tempos. Eu quero ir para aquela praia deserta sem Wi-Fi e nenhuma tomada para carregar meu iPhone, e não usar meu celular para marcar o horário em que irei me divertir. Eu quero me lembrar da época em que eu não estava conectado a tudo; quando as férias sempre acabavam em revelações. Eu quero ser aquele garoto de 11 anos no convés do navio, olhando um foguete cortando o céu e me perguntando o aconteceria em seguida.

Imagem de topo via Tara Jacoby