Usando dados do satélite Odyssey, cientistas previram que eu pousaria em uma superfície subterrânea do gelo, completamente escondida, sob alguns centímetros de solo vermelho marciano. Meu braço robótico teria muito trabalho pela frente para achar o gelo. Dias, talvez semanas. Felizmente, demorou bem menos do que todo mundo esperava.  O gelo marciano é a razão pela qual estou vivo – e também por que vou morrer.

Antes de começar a cavar, primeiro teria que checar algumas áreas cegas ao redor da minha base, que estavam escondidas da minha câmera principal. Engenheiros queriam que a câmera menor no meu braço robótico ‘olhasse’ ao redor dos meus pés para ter certeza que não teria nenhuma pedra maior que poderia ser um obstáculo para o movimento do meu braço.

Em um dessas coincidências incríveis da missão, uma dessas olhadas mostrou áreas sólidas que aparentemente seriam de gelo exposto. Uma rajada dos meus retro-foguetes, durante o pouso, espalhou a terra da superfície, revelando exatamente o que eu tinha vindo procurar – gelo.


Na sala de download da missão, onde os times se reúnem para assistir as imagens que mando, cientistas e engenheiros fizeram a confirmação pelas telas de computadores. O pessoal comemorou. Alguns gritaram "Holy Cow!" (algo parecido com "Puxa vida!") que acabou pegando. E essa área ganhou o nome de "Holy Cow" (literalmente, Santa Vaca). Ou seja, o nome da primeira área com gelo fora da Terra chama-se "Santa Vaca".

Era apenas o quinto dia de missão. Mas estávamos em um excelente começo.

Algumas semanas depois, com a escavação rolando, os cientistas colaram nas telas novamente. Vendo várias fotos seguidas das mesmas áreas, foi possível ver que alguns ‘pedaços’ de matéria iam desaparecendo, conforme o tempo passava. Isso era outro sinal que eles esperavam. Esse ‘desaparecimento’ só poderia ser explicado como sublimação, a transformação do estado sólido para vapor, e uma prova adicional que eu realmente tinha descoberto gelo em Marte.

Ao final dos primeiros 90 dias de missão, encontrei água de gelo sob o solo, geada sazonal na superfície, nuvens de gelo de água no céu e até a queda de queda de cristais de gelo. Sim, neve caindo. De nuvens de gelo exatamente como essas aqui:

O fim do verão foi chegando, e eu vi o pôr-do-sol marciano pela primeira vez. Era um visual incrível, mas também assustador. O fim do sol da meia-noite significava menos energia para meus painéis solares. Também significava temperaturas menores, e eventualmente eu teria que ligar meus aquecedores para ficar quente o suficiente para sobreviver e funcionar. Gerar menos e gastar mais energia era uma combinação esperada – mas mortal.

No último dia em que fiz experimentos científicos, sol 151 (Out. 27), rolou um tempestade. A combinação de nuvens de gelo e tempestade de poeira escureceu o céu, causando uma dramática queda na luz do sol que chegava aos painéis solares. Enquanto trabalhava para finalizar a minha experiência do dia, os níveis de energia chegaram a um ponto crítico. Para piorar a situação, a temperatura baixou para o menor ponto durante toda a missão, e os aquecedores ligaram-se pela primeira vez. Com isso, meu último resquício de energia acabou sendo consumido.


Esta é uma amostra dos ventos fortes da tempestade.

Por sorte, meus sistemas foram criados para automaticamente reiniciar o meu coração caso a minha bateria começasse a receber novamente energia. Este é o meu modo Lázaro (já usei praticamente todas as metáforas de vida após a morte!). Nos dias logo após a tempestade, esse modo Lázaro trouxe-me à de volta à vida quando a luz solar chegou aos meus painéis, dando energia suficiente para mandar um sinal para o satélite, antes que perdesse a energia de novo. O ciclo se repete e eu posso continuar por mais algum tempo. Mas sei que terei que parar um dia. E temo que este dia seja mais breve que eu gostaria.

Meus instrumentos, incluindo o laboratório de química em miniatura, um forno para assar amostras e analisar seus vapores, um microscópio, um laser (que descobriu a neve), e a estação meteorológica trabalharam valentemente durante a missão e enviaram dados suficientes para manter os cientistas ocupados por meses, talvez anos. Meu trabalho científico aqui pode ter acabado, mas eu continuo vivo. E a minha história em Marte ainda está longe de terminar.

Esta é a parte 3 de uma série escrita  pelo nosso mais novo editor-convidado, Phoenix Mars Lander, da NASA, encarando seus dias finais.