“Quer ver os nossos sensores?” Pierre Forcioli-Conti aponta para uma janela que chega até o telhado. “Você vai ter que subir na mesa do Matt e passar por aquela janela”. Sem problema. Me contorço pela janela e subo ao topo de um cinema da década de 1940 reformado, na Rua Mission, em São Francisco. É um pedaço do escritório dele.

Pierre se junta a mim ao lado do ainda intacto toldo do cinema, que há décadas era iluminado por luzes neon que expunham a palavra GRAND. Passamos por baixo das estruturas que seguram o toldo, então passamos sobre papel de alcatrão e décadas de cocô de pássaro até chegarmos ao balaústre que cerca o topo do prédio. Estamos nas proximidades dos novos espaços da Gray Area, uma organização sem fins lucrativos voltada para a arte e tecnologia. Um dos muitos projetos nos quais eles estão investindo no momento envolve a instalação de sensores em prédios.

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Pierre, diretor de programas e iniciativas da Gray Area, caminha até a beirada do telhado e recolhe uma caixa de plástico branca, mais ou menos do tamanho de uma caixa de lápis. Ele a abre para mim, mostrando um microcontrolador e alguns sensores que detectam poluição, poeira, luz, som, temperatura e umidade. O dispositivo foi feito pela Seeed Studio para o projeto de guerrilha de coleta de dados chamado Sense Your City, ou Sinta a sua Cidade. Trabalhando juntamente da Data Canvas, outra organização sem fins lucrativos de mídia urbana, mais de 100 sensores foram posicionados do lado de fora de prédios de toda São Francisco — e em outras sete cidades pelo mundo, incluindo Bangalore, Singapura e Genebra.

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Sensores como este já são usados por agências de vigilância por todo o mundo para checar informações de qualidade do ar, tráfego e para  prevenir crimes. Mas o que artistas fariam com este tipo de informação?

Pierre, que começou sua carreira como cineasta, descreve os sensores da maneira que um diretor descreveria as câmeras. Eles “permitem que você veja as coisas de um ângulo diferente”. Ele afirma que eles ajudam as pessoas a contar histórias. E é claro, estes sensores coletam informações que câmeras e microfones jamais capturariam: eles cheiram o ar, sentem a umidade e percebem as dores da poluição. Apesar de uma câmera passar a sensação visual de um lugar, estes sensores analisam como todas as redes complexas — desde o clima até grupos sociais — que fazem um lugar ser o que ele é.

O problema é que quando se coleta quantidades exorbitantes de dados, é difícil transformá-los numa narrativa como um filme, por exemplo. Parece impossível para uma série de números em uma base de dados descrever lugares como os quarteirões cheios da Rua Mission, cheios de feirantes, carrinhos de cachorro quente, famílias fazendo compras e hipsters ao telefone fazendo fila na frente de um café. É por isso que o maior objetivo do Sense Your City é tornar todos estes dados públicos, para que artistas da informação transformem isso em visões que poderemos fazer a nossa própria interpretação.

“Quanto mais estas cidades se tornam redes complexas, mais faz sentido acreditar que estes dados servem para contar histórias, da mesma forma que imagens e sons fizeram no passado”. Pierre talvez esteja descrevendo a forma como a visualização de dados poderia substituir a forma atual de se fazer cinema, mas ele não é ingênuo. Ele é cuidadoso o suficiente para dizer que dados estão ligados à interpretação. Não importa quão precisas ou factuais as informações dadas pelos sensores sejam, elas ainda podem ser apresentadas de forma ilusória. “É por isso que as pessoas precisam entender estes dados para poderem manipulá-los por conta própria”, conclui.

O grupo postou os vencedores do primeiro concurso de visualização de dados que fez uso de informações coletadas entre dezembro de 2014 e janeiro de 2015. Muitos dos participantes usavam dados que criavam relações entre as cidades, além de expor cada cidade. Algumas dessas intervenções são artísticas — um projeto chamado Sonic Particles designa tons musicais diferentes para cada pedaço de dado coletado, que tem por resultado assombrosas músicas eletrônicas — você pode ouvi-las aqui.

Outras são mais práticas como o projeto Seeing the Air, que oferece visualizações da qualidade do ar de todas as cidades.

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No vídeo abaixo, na visualização criada por Jonas Lauener e Matthias Berger do Future Cities Lab, em Singapura, é possível ver como estes sensores ajudam cientistas a entender como a temperatura e a umidade destas cidades criam nuvens. Lauener e Berger mostram dados dos sensores em um vídeo em timelapse sobre o clima de Singapura. O resultado é uma gravação visual das nuvens (em fotos) e a exata temperatura e umidade (dos sensores).

E existem ainda visualizações que são apenas bestas e engraçadinhas, como este de Michael Fluckiger, que converte a qualidade do ar – mensurada em poluição e níveis de poeira — em emoticons. O que significa que todas as cidades recebem uma avaliação diária em emoticon, que pode até soar fofinha, até você perceber que elas dizem se as pessoas podem respirar bem nestes ambientes.

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Mas a Sense Your City não faz apenas visualizações de dados interessantes. Pierre espera que ela ajude as pessoas a entender melhor as próprias cidades, especialmente nesta era em que tanta informação sobre as cidades é acumulada pelo governo e entidades privadas que não compartilham nada. Os participantes do Sense Your City tentam “quebrar o monopólio da vigilância”, ele diz, ao gerarem os próprios dados que são livres e abertos ao público. “Soa como produzir sua própria mídia para contar histórias diferentes das da mídia tradiocional.” Apesar disso, ele admite, tornar os dados públicos não quer dizer que todo mundo terá acesso a eles. E existe um motivo simples para isso — “é difícil de ler e é chato”.

Mas com o tempo, Pierre e outros participantes da Sense Your City se esforçam para criar um manancial de dados da cidade que os criadores podem transformar em histórias interessantes e fáceis de compreender. “Assim que estivermos a todo vapor, com as pessoas usando [os dados] para contar histórias, você poderá encontrar interpretações políticas da cidade. De repente você terá dados públicos que serão acessíveis a muito mais gente”. Ele recolhe os ombros e dá um sorriso amarelo. “Ainda não chegamos lá, mas estamos trabalhando para isso”.

Se você quer fazer parte dos experimentos do Sense Your City, eles entregarão mais sensores e tornarão todos os dados disponíveis para concursos e projetos futuros. Aliste-se e descubra todas as histórias que os milhões de dados da sua cidade podem contar.

Imagem de capa: It Feels Like, parte do projeto Sense Your City project