Se teve forças para acompanhar o evento de ontem, em suas últimas horas de vida, Steve Jobs pode ter ficado bastante triste depois do lançamento do mais recente iPhone da sua empresa. Não pelo iPhone 4S em si – ele é sensacional, é o aperfeiçoamento de sua visão sobre computadores de bolso, e será o smartphone mais vendido do mundo pelos próximos meses. Mas talvez pela discussão que se viu após o evento: pessoas falando de GHz, núcleos, polegadas, gramas, RAM, 4G.

Não, ele não viu isso. Quero crer que Laurene tenha o poupado de acompanhar essa repercussão. O “desapontamento geral” e brigas de torcedores fariam o visionário Steve acreditar que nós regredimos. Imagino ele dias antes, acamado, repassando as novidades do iPhone 4S com um nervoso Tim Cook. Parecia que ia dar tudo certo! O fundador da Apple deve ter achado que durante a apresentação as pessoas iriam sorrir com a ideia de mandar cartões de papel de verdade ali do celular (“coloque isso no início!”), que ficariam empolgadas agora que seus vídeos caseiros de celular não pareceriam mais vídeos caseiros, que os jornais e revistas estariam prontinhos, entregues automaticamente, de manhã no iPad, que queixos cairíam ao sabermos que finalmente poderíamos conversar com uma inteligência artificialcomo quando pedimos ajuda a uma secretária.

http://www.youtube.com/watch?v=L4D4kRbEdJw

Porque o sonho de Steve sempre foi que a tecnologia fosse poderosa a ponto de ser invisível. A era “pós-PC” que ele tanto fala significa algo mais intuitivo, mais fácil, com mais possibilidades. E a apresentação de ontem era mais um passo nessa direção. Mas lendo as reportagens e comentários aqui e alhures fica claro que boa parte das pessoas – inclusive as ditas “entendidas” – não compreenderam a sua visão. Não acham isso importante. E isso me entristece profundamente.

Porque Jobs era obcecado pela invisibilidade tecnológica. Para mim, é o coração da Apple. Pegue qualquer uma de suas últimas apresentações, preste atenção nas frases que ele evoca com mais paixão. “Este é o casamento da tecnologia com a arte”, “o computador é a bicicleta da nossa mente”, “tecnologia sozinha não é o suficiente”… Por mais que tenha feito uma fortuna de bilhões com gadgets em vidro e alumínio que amamos, Steve Jobs sempre viu a tecnologia como meio, e não fim. Um meio para que gastássemos mais tempo com o que realmente importa, com a nossa criatividade, com as pessoas queridas, com a cultura, com o conhecimento do resto do mundo. Esta preocupação, a busca pela tecnologia mais humana, e não a obsessão por detalhes e design incrível, é, para mim, o seu maior legado. Que, independentemente de credo, tem de ser protegido. Mais do que nunca, nós, pessoas que cobrimos tecnologia, você, leitor tech lover, executivos, engenheiros, precisamos ter isso em mente: a tecnologia foi feita para deixar a minha e a sua vida mais fácil, mais divertida, mais interessante. O gênio que moldou a maneira com que minha geração interage com o mundo se foi, mas não podemos perder isto de vista.

E é importante falar isso agora, porque às vezes tenho medo de que nós estejamos sim perdendo. Confesso que passo os dias lendo sobre tecnologia e tenho cada vez menos paciência sobre o assunto tecnologia. Por vezes demais vejo discussões de detalhes pouco relevantes, brigas de torcidas ocasionadas por coisas que não vão mudar a vida de ninguém. E a tecnologia não vai pra frente assim. Ou, pior, a gente não vai pra frente, de uma maneira mais ampla. Eu não quero isso. E mudei minha relação com bits, bytes e alumínio recentemente.

É o que você imagina: justamente por ter menos paciência com tecnologia, eu me cerquei de produtos da empresa que quer tornar a tecnologia invisível (ou mágica). E isso, acredite, é recente: meu primeiro produto da Apple chegou aqui há pouco mais de um ano. Hoje tenho vários na minha casa: um MacBook Pro, dois iPhones (o meu e da minha outra metade), um iPad 2, Apple TV, Time Capsule, Airport Express, iPod. E essa é a hora de você me chamar de fanboy. Ou em vez de pular direto para os comentários, tentar entender qual a relação entre este excesso de maçãs, a visão de Jobs e os melhores meses da minha vida.

escrevi no meu blog que meus eletrônicos favoritos são minha câmera, meu fone de ouvido e o meu iPad. Não pelas suas especificações (eu rodei o mundo com minha câmera mas não sei quantos megapixels ela tem, idem para a impedância dos fones), mas pelo que eles me possibilitaram. O iPad é o meu gadget favorito de todos os tempos. O 1 ou o 2. Não é exatamente por causa da bateria, ou do processador, ou qualquer coisa mensurável, que algum concorrente vai dizer que tem melhor. Eu gosto do meu iPad porque ele me faz uma pessoa melhor. Não é exagero.

http://www.youtube.com/watch?v=tyEpaPEbjzI

Porque no último ano, eu e minha namorada disputamos para ler Freedom logo que saiu no iBooks; porque eu descobri os textos do David Foster Wallace em recomendações do Instapaper; porque logo depois de ter visto que dois brasileiros ganharam o prêmio Eisner consegui ler Daytripper numa madrugada; porque brincando no Snapseed eu fiz o retrato definitivo da minha irmã e o cunhado e dali mesmo distribuí para a família; porque eu voltei a compor com o GarageBand e descobri novas bandas que hoje amo com o Aweditorium ou a Spin Play; porque assinei revistas que nunca tive o dinheiro como Wired e Economist; porque vi as primeiras imagens do meu sobrinho graças ao Facetime – minha mãe levou o recém-comprado iPad 2 dela e não teve que configurar coisa alguma; porque minhas viagens foram bem menos cansativas com um videogame genial no colo. Tudo isso graças a um brinquedo da Apple especificamente.

E graças a maneira com que eles funcionam lindamente em conjunto, eu preciso me preocupar cada vez menos com a tecnologia. Eu corro (comecei há poucos meses!) com um chip no tênis e quando volto Lance Armstrong me diz que eu bati um recorde. Eu não preciso configurar isso, como não tenho que instalar qualquer programa na Apple TV: tirei da caixa, coloquei a senha do Wi-Fi e de repente apareceu um novo ícone nos vídeos do Youtube que via no iPad: agora também podia mostrar para as outras pessoas na sala, numa tela grande, as fotos de viagem, controlando do sofá. Mesmo nos notebooks, a coisa é parecida. Desde que comprei meu MacBook em fevereiro, eu nunca criei uma pasta, apenas arrastei coisas (músicas, fotos e vídeos) para os apps. Com o spotlight ultra-rápido eu não sei onde ficam os arquivos – nem preciso, e estou mais produtivo do que nunca. Aliás, desde o Lion, também não me preocupo mais com o “Salvar Como”. O que os críticos acham que é “produto para quem é burro e não entende de tecnologia” é na verdade um produto que tem no DNA um gênio que sabe que não precisamos nos preocupar em entender de tecnologia para fazer as mesmas coisas. Mais rápido. E melhor.

Eu poderia me alongar indefinidamente nos exemplos. Tenho certeza que todos têm várias historinhas de como a maçã alegrou nossas vidas – o NY Times está coletando algumas bem emocionantes. Mas para mim especificamente, o impacto que Jobs teve foi fazer com que o editor de um site de tecnologia ligasse cada vez menos para tecnologia. Para viver melhor: experimentando a tecnologia invisível, o encontro das avançadas ciências exatas com as artes, como ele sonhou. Steve Jobs buscou isso enquanto pôde.

A minha mesa ontem, depois da apresentação do iPhone 4S

Então, em memória ao visionário, faça-me um favor. Ou dois. Da próxima vez que você pegar o seu computador ou smartphone, pense no que ele pode fazer por você. Passar antivírus, organizar pastas, mudar a ROM, qualquer coisa desse tipo é trabalhar para a tecnologia. Ela tem de servir a você. E ela pode te fazer alguém melhor. Baixe algum eBook que você se promete a ler há tanto tempo, tente editar suas fotos de maneira diferente, cace recomendações de um novo restaurante perto pelo smartphone, surpreenda alguém com um videozinho-colagem engraçado, componha, crie, busque conhecimento. Pense diferente.

E na hora de comprar seu próximo gadget, a pergunta fundamental que você deve se fazer é: “como isto pode melhorar a minha vida?”. Faça este exercício. É libertador. Para mim, este é o grande legado do gênio que morreu ontem, e é nisso que acreditamos demais aqui no Gizmodo. Tecnologia sozinha não é suficiente. Obrigado por nos lembrar disso, Steve.