Na última quinta, a Microsoft e o Yahoo! fecharam um acordo de 10 anos, no qual o Yahoo larga a mão dessa história de busca, de qual foi um dos pioneiros, e se compromete a só usar o Bing como buscador padrão de todo o portal. Em troca, a Microsoft pagará 88% da receita gerada pelas buscas vindas do portal. As duas empresas esperam se tornar uma só grande concorrente contra o Google. Mas ficou o consenso de que o Yahoo não sai ganhador dessa história — e provavelmente nem você.

Pelo acordo, Yahoo e Microsoft usarão um só motor de buscas e terão uma só tecnologia para captar e vender publicidade na web. Teoricamente, as duas empresas devem ganhar: o Yahoo deixa de gastar uma fortuna para manter um site de busca e ainda ganha dinheiro com propaganda online, enquanto a Microsoft obtém mais audiência para o Bing e pode aperfeiçoar a ferramenta de busca. Além disso, anunciantes ganham com o surgimento de um grande competidor para enfrentar o Google: o custo dos anúncios deve cair com a integração das plataformas de anúncios do Yahoo e da Microsoft.

E a Microsoft reconhece que comeu bola ficando fora do mercado de buscas online, e quer reparar o erro. Começou bem: a participação da Microsoft em buscas cresceu com o Bing desde junho, quando o novo serviço foi lançado. Agora a Microsoft está reformulando o serviço Live e o Office Online. E, no futuro, estará unida ao terceiro maior site de buscas do mundo: o Google tem 65% do mercado americano de buscas, o Yahoo tem 19,6% e o Bing, 8,4%, de acordo com a comScore. OK, 30% do Yahoo+Bing não devem assustar absurdamente o Google agora, mas certamente aparece no retrovisor: é a chance que a Microsoft tem de ganhar no jogo em que o Google está na dianteira. E finalmente a Microsoft está se arriscando.

Mas o acordo foi pouco vantajoso para o Yahoo, principalmente se lembrarmos a novela Yahoo-Microsoft-Google que se desenrola desde 2007.

Em maio de 2007, surgiram boatos de que a Microsoft desembolsaria 50 bilhões de dólares para comprar o Yahoo; mas nada aconteceu, supostamente por falta de interesse do Yahoo. Em fevereiro de 2008, a Microsoft fez uma oferta hostil de compra do Yahoo por 44,6 bilhões de dólares. As duas negociaram, mas Jerry Yang, presidente e fundador do Yahoo, queria mais dinheiro que isso — e a Microsoft desistiu.

No mesmo dia em que as negociações com a Microsoft acabaram, o Yahoo e o Google fecharam parceria de venda conjunta de anúncios: dessa forma, o Yahoo manteria seu sistema de busca. Só que, depois que a Microsoft fez lobby contra a parceria e de investigações de autoridades antitruste no mundo inteiro — temendo que Google e Yahoo se tornassem grandes demais—, o Google desistiu da parceria. Poucos dias depois, Jerry Yang saiu "sob tiroteio" do comando do Yahoo e hoje chora num cantinho.

Agora, o Yahoo não vai levar de cara nem um centavo (tem que esperar a grana vir dos anúncios), e seu sistema de busca — que já foi um dos maiores — será enterrado. (A tecnologia será utilizada exclusivamente pela Microsoft.) A questão é que o risco está maior para o Yahoo: se o negócio não der certo, a Microsoft tem outros negócios e não deve sumir do mapa. E o Yahoo?

Pior: este modelo de negócio, de terceirizar a busca e virar um portal de conteúdo, não deu certo para a AOL americana (que agora está sendo vendida) e — pasmem — nem para o próprio Yahoo. Em 2000, quando o Google ainda era neném, o Yahoo resolveu terceirizar a busca para ele — antes, a empresa já terceirizava buscas para outros sites. Em 2004, percebendo que o negócio de buscas online poderia render muita grana, o Yahoo cancelou o contrato com o Google e voltou a indexar a internet.

Além do mais, temos que reconhecer: a Microsoft, se quer entrar em um negócio, vê muito valor nele. Se eles investem bilhões em videogames, sistemas operacionais para celular e pesquisa na internet, é porque estes são bons negócios. A Microsoft não se tornou a gigante que é hoje tomando só decisões erradas. Mas qual foi a reação das concorrentes? Desistir? Pelo contrário: a Nintendo não desistiu quando o Xbox entrou no mercado — viram que não podiam competir tecnologicamente e resolveram inventar um novo mercado com o Wii, e agora vendem mais consoles que a Microsoft. Mas parece que o Yahoo não aprendeu a lição.

E por que você sairia perdendo na história? Segundo um porta-voz do Google, "nossa experiência é de que a concorrência traz vantagens para usuários". Isso é uma verdade universal no mundo dos negócios: com menos competição, há menos estímulo em inovar. Por outro lado, finalmente há um parceiro um pouco mais vitaminado para competir com o Google. O que forçaria os dois grandes – e agora únicos – players a investirem muito para tomarem a dianteira. Só o tempo dirá o quanto isso vai ser bom.

A transição da busca do Yahoo para o Bing vai começar nos EUA de três a seis meses depois da celebração do acordo. Minha transição do Google pro Bing, no entanto, não deve ocorrer tão cedo. [IDG, imagem via Info]