A falha recém-descoberta de dois cabos de suporte no Observatório de Arecibo, em Porto Rico, desestabilizou a estrutura de tal forma que ela não pode ser reparada sem colocar os trabalhadores da construção em risco significativo. Por conta disso, o telescópio de 304 metros terá que ser desativado.

Além do fim das operações no local, o prato gigante que se tornou marca registrada de Arecibo será demolido. A National Science Foundation tomou a decisão após uma revisão das avaliações de engenharia, que concluíram que o observatório está em muito mau estado e que não pode ser estabilizado sem colocar os trabalhadores em perigo. A NSF agora planeja a desativação controlada do prato, encerrando uma vida útil histórica de 57 anos.

“Quero dizer isso da forma mais enérgica possível. Não vamos fechar o Observatório de Arecibo”, disse Ralph Gaume, diretor da Divisão de Ciências Astronômicas da NSF.

Apesar de a antena ter que ser demolida, isso precisará ser feito de forma a proteger os outros ativos da instalação, incluindo muitos edifícios importantes sob a Torre 12. Assim que o observatório for considerado seguro, as atividades científicas serão retomadas no local, incluindo trabalhos com LIDAR para estudar a atmosfera da Terra. A University of Central Florida administra o Arecibo para a NSF, em um acordo cooperativo que envolve a Universidad Ana G. Méndez e a Yang Enterprises.

O problema começou no dia 10 de agosto, quando um cabo auxiliar escorregou do soquete, caindo na antena de baixo e causando danos consideráveis. Depois, em 6 de novembro, um cabo principal se partiu e também caiu na estrutura. Sem esses dois cabos de suporte, surgiram preocupações sobre a estabilidade geral da instalação.

Avaliações de engenharia independentes concluíram que o observatório está em risco iminente de falha catastrófica, já que os cabos restantes não são mais capazes de carregar as cargas para as quais foram inicialmente projetados. Esses cabos estão atualmente segurando uma plataforma de 900 toneladas que está pendurada a 137 metros acima do prato. Três torres mantêm esses cabos no lugar e também correm o risco de desabar e cair na antena. Além disso, os reparos nesses cabos colocariam os trabalhadores da construção civil em sério perigo.

Observatório de Arecibo danificado em agosto de 2020. Imagem: UCF TodayO dano causado ao prato após o incidente de agosto. Imagem: UCF Today

“Embora nos entristeça fazer essa recomendação, acreditamos que a estrutura deve ser demolida de forma controlada o mais rápido possível. Portanto, é nossa recomendação planejar rapidamente o descomissionamento do observatório”, diz a carta de recomendação da Thornton Tomasetti, empresa de engenharia contratada para avaliar a situação em Arecibo.

Em agosto, quando o cabo auxiliar falhou, a instalação ainda parecia recuperável. As autoridades seguiram em frente com planos para estabilizar temporariamente a estrutura, e quatro novos cabos (dois auxiliares e dois temporários) foram encomendados, enquanto uma análise forense foi realizada para determinar o motivo do escorregamento inesperado. Mas a quebra no cabo principal de 3 polegadas em novembro alterou drasticamente a situação, mostrando que eles estavam mais fracos do que o previsto.

As inspeções visuais dos cabos restantes validaram essas preocupações, já que alguns deles exibiram novas rupturas de fios e alguns cabos auxiliares pareciam estar saindo de seus soquetes. Isso levou a uma reavaliação da situação, resultando na decisão de aposentar o prato.

Gaume disse que é até muito arriscado estudar os cabos restantes, já que a estrutura está “atualmente em risco de um colapso inesperado e descontrolado”. É uma estrutura para a qual “não entendemos as margens de segurança”, mas uma demolição controlada “nos dá a oportunidade de preservar os ativos remanescentes neste observatório”.

Arecibo. Imagem: UCF TodayNesta foto, em 6 de novembro, um dos cabos principais se rompeu e caiu sobre o prato do Observatório. Imagem: UCF Today

Respondendo a uma pergunta do Gizmodo, Jones disse que a NSF está focada na preservação da infraestrutura restante em Arecibo, e que a agência “permanece dedicada ao povo de Porto Rico”. Jones está ansioso pelas pesquisas científicas que serão feitas no futuro, mas “vai levar algum tempo”, em um processo que envolverá a comunidade local.

Um plano formal para desativar o prato gigante está em desenvolvimento, e poucos detalhes foram dados sobre como essa “desmontagem controlada” acontecerá, além da ênfase da equipe em fazê-lo de forma a proteger a infraestrutura circundante. Esse plano provavelmente levará semanas para ser desenvolvido, pois precisará atender aos requisitos legais, ambientais, de segurança e culturais. O maior problema é que a estrutura pode desabar antes disso.

“A quebra de mais um cabo na Torre 4 provavelmente resultará em um colapso descontrolado, no qual a plataforma irá colidir com o prato principal. Também é possível que as três torres principais — todas com 300 metros de altura — venham a tombar”, disse Gaume. A circulação de pessoas na área ao redor do prato foi proibida.

Inspetores foram trazidos ao longo dos anos para avaliar a estrutura e fizeram “tudo que estava ao nosso alcance para inspecionar os cabos conforme necessário”, incluindo o monitoramento dos cabos após furacões ou terremotos, disse Gaume. Esses inspetores “não deram qualquer indício de que havia um problema”.

Ecoando os comentários de Gaume, Zauderer disse que as inspeções regulares do observatório foram concluídas de acordo com o cronograma. Ainda há muitas incógnitas, e as investigações forenses ainda estão em andamento. O deslizamento do cabo auxiliar em agosto “não deveria ter acontecido”, afirmou Zauderer, e o evento precipitou a carga extra no cabo principal.

As obras em Arecibo, se tudo correr bem com o descomissionamento, vão continuar. A instalação LIDAR em particular continuará a auxiliar na pesquisa da alta atmosfera e da ionosfera, assim como uma instalação irmã na ilha de Culebra. Quanto às contribuições do prato principal nesta área, isso é feito, assim como sua capacidade de fazer radioastronomia.

É uma notícia devastadora para a comunidade científica, mas devemos comemorar as várias conquistas possibilitadas pelo Observatório de Arecibo, incluindo a primeira detecção de um pulsar binário, a primeira descoberta de um planeta extrassolar e muitos asteroides próximos, incluindo alguns potencialmente perigosos. O rádio-observatório também foi usado na busca por inteligência extraterrestre.