A Organização Mundial da Saúde realizou nesta terça-feira (9) uma coletiva de imprensa para esclarecer uma fala dita ontem, em que uma epidemiologista disse que a transmissão assintomática do coronavírus era “muito rara”.

Na segunda-feira, Maria Van Kerkhove, líder técnica da OMS para COVID-19, disse em uma coletiva de imprensa que, “Pelos dados que temos, parece ser raro que uma pessoa assintomática transmita de fato para um indivíduo secundário […] É muito raro.”

Diversos especialistas se mostraram céticos imediatamente. Para um deles, a OMS não forneceu dados disponíveis publicamente para apoiar essa afirmação, enquanto diferentes tipos de estudos sugeriram que a transmissão assintomática tem um papel importante na disseminação de surtos em todo o mundo.

A afirmação também pareceu vaga sobre a distinção entre transmissão assintomática e disseminação pré-sintomática. Outras pesquisas mostraram que uma pessoa pode ser mais contagiosa, a julgar pelo nível de disseminação de vírus de seu corpo, logo antes do aparecimento dos sintomas.

Hoje, Van Kerkhove e Mike Ryan, diretor executivo do programa de emergências de saúde da OMS, realizaram uma uma sessão de perguntas e respostas, que abordou, em grande parte, questões sobre essas declarações de segunda-feira.

Van Kerkhove voltou atrás, dizendo que tudo foi um “mal-entendido” e que sua fala não pretendia ser uma declaração de postura da OMS. Ela disse que sua declaração para uma questão específica foi baseada em pesquisas inéditas que tentaram traçar os surtos o mais meticulosamente possível, incluindo casos assintomáticos. Nessas pesquisas, disse ela, a ocorrência de casos adicionais de uma pessoa assintomática parece ser muito rara.

Mas nesta terça-feira, ela reconheceu que outras pesquisas sugerem que a taxa de pacientes assintomáticos e capazes de espalhar o vírus pode variar de 16% a 40%.

Van Kerkhove e Ryan também esclareceram que existe uma diferença entre pessoas que estão totalmente assintomáticas, ou seja, estão infectadas mas nunca se sentem doentes; pessoas com sintomas leves que podem passar despercebidos; e aquelas que estão pré-sintomáticas, ou seja, estão infectadas com o vírus mas ainda não começaram a se sentir doentes.

As pessoas que pertencem a esse último grupo podem estar com uma alta carga viral logo antes de ficarem doentes e serem bastante infecciosos. Ainda não sabemos muito sobre o risco de transmissão dos outros dois grupos.

A mensagem subjacente parece ser que, embora tenhamos aprendido muito sobre o vírus desde que ele surgiu no final do ano passado, há muitas perguntas sem resposta. Isso inclui o quanto é provável que as pessoas com o vírus que não têm sintomas o espalhem.

Ao mesmo tempo, Ryan disse que pessoas com sintomas como a tosse espalham o vírus regularmente e provavelmente contribuem mais para sua disseminação do que outras. Mas, além disso, trata-se de território desconhecido.

“Ainda não temos respostas para entender realmente quantas pessoas não têm sintomas”, disse Van Kerkhove.

Ryan acrescentou: “É claro que tanto indivíduos sintomáticos quanto assintomáticos fazem parte do ciclo de transmissão. A questão é a contribuição relativa de cada grupo para o número total de casos”.

O erro de comunicação da OMS deve reforçar uma importante lição sobre a pandemia: muitas das coisas que pensamos que sabemos sobre o vírus são suscetíveis de mudar conforme o tempo passa. Isso faz parte do processo de tentativa-e-erro que é a ciência.

Mas, por enquanto, o distanciamento social e as precauções como o uso de máscaras continuam sendo importantes, mesmo para pessoas que não se sentem doentes.