Já é claro que a Grande Barreira de Corais está sofrendo há tempo. Agora, a Organização das Nações Unidas (ONU) quer tornar o dano oficial, adicionando o lugar a uma lista de Patrimônios Mundiais que estão “em perigo”. Mas a Austrália não concorda com a mudança.

A crise climática afetou dramaticamente a Grande Barreira de Corais nos últimos anos, com eventos de branqueamento de corais causados ​​por ondas de calor marinhas, transformando partes antes vibrantes do recife em cemitérios. Contudo, em um relatório divulgado na segunda-feira, a UNESCO, que supervisiona os locais do Patrimônio Mundial, incluindo o recife, disse que a perspectiva do recife agora “se deteriorou de pobre para muito pobre”. Os autores escreveram que agora “não há dúvida de que a propriedade está enfrentando perigo comprovado” e aconselharam as autoridades australianas a tomarem “ações aceleradas em todos os níveis possíveis” para proteger o recife dos impactos climáticos.

O relatório vem seis meses depois que a União Internacional para a Conservação da Natureza, a maior autoridade mundial em habitats naturais, listou a condição da Grande Barreira de Corais como “crítica” — a designação mais severa em uma escala de quatro pontos.

Apesar disso, membros do governo do primeiro-ministro da Austrália, Scott Morrison, estão na defensiva sobre tudo , alegando que o relatório da UNESCO foi injusto e citando o investimento de $2,3 bilhões de dólares na conservação dos recifes.

“A Grande Barreira de Corais é o recife mais bem administrado do mundo e esta recomendação preliminar foi feita sem examiná-lo em primeira mão e sem as informações mais recentes”, disse Sussan Ley, ministra do meio ambiente da Austrália, em um comunicado na terça-feira (22).

Ela conta que ligou para o diretor-geral da UNESCO para reclamar – sim, ela literalmente falou com o gerente – e que a nação vai “se opor fortemente” à convocação da UNESCO para a ação. Funcionários do governo de Morrison afirmam que o relatório foi um “retrocesso em relação às garantias anteriores” da UNESCO de que não faria esse tipo de recomendação antes da reunião do comitê do órgão em julho. Esse comitê é atualmente presidido pela China.“Essa decisão foi falha”, disse Ley. “É evidente que havia política por trás disso”, apontou.

Um funcionário anônimo do governo expôs esses comentários à Reuters, observando que a China atualmente preside o comitê da UNESCO e alegando que, portanto, está “no controle” da tomada de decisões do órgão. As relações da Austrália com a China estão extremamente tensas, então a fonte acredita que há algum tipo de disputa diplomática acontecendo aqui. Apesar disso, os cientistas disseram que o pedido de uma nova designação não deveria ter sido uma surpresa.

“O Comitê tem levantado preocupações sobre o recife há uma década”, disse Jon Day, pesquisador sênior do Centro de Excelência para Estudos de Recifes de Coral da Universidade James Cook na Austrália, em um comunicado por e-mail. Em 2012, a UNESCO deixou claro que, sem “progresso substancial” para proteger a Grande Barreira de Corais, colocá-la na lista de perigos era uma possibilidade real. Embora “algumas decisões do Comitê possam ser consideradas políticas”, disse Day, esta não era uma delas.

Embora alguns meios de comunicação afirmem que a mudança na designação pode representar um perigo para a economia da Austrália, ao diminuir o interesse dos turistas em conferir o recife, essa preocupação não nasceu dos dados.

“Nossos dados e análises de turismo em países que têm Patrimônio Mundial, como o Everglades, Belize e Galápagos, mostram que os visitantes não se intimidaram quando esses lugares foram listados como “em perigo”, disse Day.

Esta não é a primeira vez que a Austrália se opõe à reclassificação da Grande Barreira de Corais. Em 2015, a UNESCO recomendou rebaixar o ecossistema à lista de “em perigo”, mas o governo conservador gastou centenas de milhares de dólares para lutar contra a decisão – e eles venceram. O país também é conhecido por falsificar relatórios de conservação da Grande Barreira de Corais para fazer com que pareça que está em melhores condições do que está e aumentar sua reputação ambiental.

Parece que o governo australiano está tentando se proteger aqui, porque apesar da destruição da Grande Barreira de Corais – sem mencionar os incêndios florestais catastróficos e sem precedentes que viu em 2019 e 2020 que foram alimentados pelo aquecimento global – a nação em grande parte falhou em entregar qualquer política climática séria.

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Certa vez, o primeiro-ministro Morrison brandiu de forma infame um pedaço de carvão no parlamento para mostrar seu amor pelo produto. Sob seu mandato, a Austrália continuou a aprovar usinas de carvão e a exportar bilhões de dólares do combustível fóssil mais prejudicial ao clima da Terra. Foi nesta semana que sua administração derrubou uma proposta para criar um centro de energia sustentável.

“Não tenha medo, não vai te machucar”, disse Morrison quando trouxe o carvão para o parlamento. “É só carvão.”

Vale a pena destacar que o compromisso contínuo da Austrália com a exportação de carvão está prejudicando o mundo, incluindo a Grande Barreira de Corais. É claro que o governo de Morrison está tentando calar a UNESCO. A nova classificação do recife pode expor o governo ao mundo, mostrando como suas políticas têm sido terríveis.