O Photoshop real para iPad existe. A Adobe o mostrou semana passada, e ele parece ótimo. Mas, mais importante, ele marca mais um passo na constante evolução que está alterando a forma como humanos interagem com máquinas. Uma evolução que, de fato, está aplicando a nossa natureza humana à computação.

O novo app da Adobe só confirma a mudança de paradigmas que já está acontecendo. É outro degrau na escada que leva a algo que eu previ antes mesmo do iPad ser anunciado: nós estamos presenciando o início de uma nova era da computação. Depois dos cartões, do mainframe, do PC com linha de comando e do mouse com a sua interface gráfica.



E não há como impedir essa evolução. Ainda bem.

Outro mito cai por terra

Quando ele saiu, muitos disseram que o “iPhonão” tinha nascido para morrer. Outros minimizaram o seu potencial, dizendo que era apenas uma maneira legal e moderna de “consumir” conteúdo, como sites, livros e filmes. Muitos disseram inclusive que ele não seria bom para jogar. E quase todos declararam que ele nunca seria um bom aparelho para criação de conteúdo. “Nunca vai existir um Photoshop para o iPad!”

Aparentemente, estavam errados.

A Adobe demonstrou há alguns dias o Photoshop para iPad. Não é um subproduto, como o Photoshop Express. É o Photoshop de verdade, com uma nova cara. Ele não tem alguns dos recursos avançados orientados à impressão ou publicação web presentes na enorme versão desktop, mas tem tudo o que você precisa, de composição com camadas a níveis, controle de cores e todos os recursos que eu uso diariamente no Photoshop do meu desktop. Pelo pouco que vimos, o aplicativo é rápido e roda macio.

Mas o Photoshop para iPad significa mais do que uma ferramenta de edição de imagens incrível rodando em um tablet. Ele é uma prova da direção para onde as coisas estão indo. Não é nem necessário olhar para as longas filas no lançamento do iPad 2 ou para o crescimento exponencial do mercado. Há poucos dias os analistas da Gartner disseram que as vendas de tablets atingirão US$ 29,4 bilhões este ano, em comparação com US$ 9.6 bilhões em 2010. E isso falando apenas de hardware. Já era sabido que o iPad é um sucesso enorme que fez com que todas as outras empresas corressem atrás de fazer tablets também. Agora só precisamos observar como estes milhões de usuários estão utilizando os seus tablets.

Na verdade, criar é mais fácil no iPad

A parte surpreendente é que o iPad não foi um sucesso só porque as pessoas adoram consumir conteúdo ou jogar games incríveis como Sword and Sorcery. As pessoas viram que criar coisas nele é às vezes mais legal do que nos seus computadores.

Eu prefiro escrever no iPad com o iA Writer — o melhor aplicativo de redação atualmente — com um teclado Bluetooth e salvar meus textos na nuvem. (Alguns colegas meus, como o Joel Johnson, também pensam assim.) Eu também prefiro desenhar usando o Autodesk Sketchbook do que com o meu Wacom Intuos e com Sketchbook para desktop, mesmo com o fato do Intuos ter controles de ângulo e pressão. (Mas eu ainda prefiro usar um tablet-display Wacom Cintiq por causa da precisão.)

Em ambos os casos, eu me sinto bem mais produtivo usando o iPad do que um computador. Sinto que é uma forma mais natural e que os resultados ficam consistentemente melhores pelo próprio processo — o modo como eu me foco no trabalho, o modo como eu lido com a mídia em si.

Conheço pessoalmente várias outras pessoas que têm usado outros apps para criar coisas ótimas. Músicos profissionais e amadores, usando iPads todos os dias para criar seus sons e ganhar o pão de cada dia. Há um número enorme de softwares bons para produção musical, arranjo, gravação e para tocar ao vivo. O mesmo acontece nas áreas da medicina, finanças e várias outras profissões. A computação por toque está rapidamente se tornando uma parte integral destes mundos. Muitas empresas estão inclusive desenvolvendo ferramentas próprias, internas. Não porque são mais modernas e chiques, mas por serem mais efetivas para os usuários e mais fáceis e baratas para a equipe de TI. Pessoas normais (não os nerds de tecnologia como nós) amam estas ferramentas na mesma medida que se frustram com computadores.

http://www.youtube.com/watch?v=tf03YBxCyGI

Evolução natural

Manipulação digital de imagens e vídeos, porém, é um campo de criação que ficou de fora do ambiente de toque até agora. Principalmente por causa de limitações de  hardware. Com o iMovies algumas semanas atrás, e com o Photoshop agora, isso vai mudar.

Não, eu não estou dizendo que o negócio de edição de imagens e vídeo em desktops poderosos com monitores de 30 polegadas vai morrer em favor dos tablets menores do que uma folha de papel ofício. Estes desktops permanecerão por mais alguns anos antes de serem substituídos por novos formatos projetados com a computação por toque em mente. O Mac OS X Lion e o Magic Trackpad são dois indicadores dessa mudança, que lentamente já está acontecendo.

Muitos de vocês não presenciaram este momento — eu presenciei, tentando trabalhar com os Apple dos anos 90 pré-revolução da imprensa, as workstations de animação Silicon Graphics 3D rodando PowerAnimator e os sistemas de edição de vídeo Truevision baseados em PC –, mas tente imaginar o Photoshop para iPad como o primeiro Photoshop do primeiro Macintosh colorido, só que centenas de vezes mais poderoso. Nos anos 90, nós começamos a produzir revistas inteiras usando um hardware que, hoje em dia, não teria poder suficiente para rodar o mero sistema operacional do seu iPhone.

Assim como aconteceu com o primeiro Photoshop para o primeiro Macintosh colorido, com a primeira interface MIDI e softwares de sequenciamento musical, as coisas vão evoluir rápido no mundo do toque também. As pessoas vão começar a reconhecer os limites e ultrapassá-los, assim como os médicos e músicos já estão fazendo, e aí tanto o software quanto o hardware vão crescer de acordo. O Photoshop para iPad, no seu estado atual, não será suficiente para os designers e suas imagens de 2GB com 300 camadas. Mas eventualmente o hardware e o software chegarão lá.

Em poucos anos, conseguiremos lidar facilmente com imagens e vídeos gigantes no iOS e no Android, não apenas no iPad, mas em diversos aparelhos.

Por que isso está acontecendo?

Há pessoas que não conseguem entender esta evolução. Por que alguém preferiria um tablet em vez de um computador completo e poderoso? Por que precisamos mudar quando o que temos agora funciona tão bem?

O problema é que não funciona “tão bem” assim. Pergunte para qualquer um que não seja um nerd ou entusiasta da computação, e eles te dirão que odeiam computadores com a mesma paixão que adoram seus iPhones e iPads. A resposta tem a ver com a complexidade de um computador contra a simplicidade da interface de toque. É uma diferença sutil, mas extremamente poderosa. E o resultado é que a produtividade tem um custo menor no segundo do que no primeiro.

Para entender isso, vamos voltar ao exemplo do Photoshop. O pessoal da velha guarda vai lembrar de como era manipular imagens no laboratório, usando as próprias mãos em vez de um “cursor” ou um “mouse”. Quando o computador chegou, os tradicionalistas choraram. Por que eu usaria um computador quando posso fazer a mesma coisa no laboratório? “É pouco poderoso! A qualidade não é a mesma! É lerdo!” (Eu sei que eles choravam assim porque eu estava lá na época, usando computadores e aguentando o chororô.)

Então, à medida que as ferramentas evoluíram, eles descobriram que poderiam ser mais rápidos com o computador — viva o DESFAZER! –, e a revolução da imprensa feita digitalmente decolou, seguida pela da música e do vídeo. E é aqui que estamos agora: a camada de complexidade dos computadores se tornou natural para muitas pessoas. O Photoshop, assim como o Final Cut Pro ou o After Effects, não são mais programas de computador. Eles são tão complexos que são verdadeiras profissões.

Hoje, os profissionais estão usando ferramentas incrivelmente complexas para criar coisas, enquanto os consumidores estão usando ferramentas simplificadas, mas ainda assim bem mais complexas do que deveriam ser, para criar outras coisas.

O fato é que os computadores e a fotografia digital nos permitem criar coisas incríveis que não eram possíveis no mundo analógico. Mas ao fazer isso, elas encerraram a conexão natural com o meio. Foi adicionada uma camada de complexidade necessária, mas completamente alienígena, ao processo criativo. O acesso foi democratizado, mas ao mesmo tempo novas elites foram criadas.

E essa é a chave para entender o sucesso da computação de toque. Ela está devolvendo as ferramentas às massas, porque as massas não se sentem mais alienadas pelas ferramentas. A interface de toque torna as coisas naturais e está forçando os desenvolvedores a simplificar o acesso às suas ferramentas. Por causa disso, todos terão mais poder do que nunca.

O fim, o começo

A Adobe já se deu conta de tudo isso, por isso o Photoshop está no caminho para ser a primeira sala escura realmente boa no iPad. Eles têm os recursos para fazer isso acontecer. Me preocupo com algumas funções que parecem não muito úteis com o tempo e com a quantidade de menus que podem ser vistos na demonstração, mas ainda está cedo para tais preocupações.

Em qualquer caso, se o Photoshop ainda não é a sala escura digital que eu sempre sonhei, eu tenho certeza que alguém vai bolar uma. Por enquanto, estou feliz de ver que as coisas estão caminhando nessa direção, que eu considero certa. Pela primeira vez em muitos anos, desde os primeiros passos do Mac, eu estou realmente empolgado com computadores.

Computadores que parecem ter sido roubados da mesa do Capitão Jean-Luc Picard.

 

* O artigo não reflete necessariamente a opinião de todos do Gizmodo.