Sempre me disseram que eu não veria o início da jornada final da humanidade e o mais triste é constatar que em 1972 nós abandonamos um caminho que, possivelmente, a essa altura teria nos levado a Marte e outros planetas. Hoje abrimos as portas desse caminho novamente. Devemos comemorar: estamos voltando às estrelas.

Na década de 1960 colocamos a pontinha do dedão no oceano espacial. Era empolgante. Aquilo nos levou a incontáveis descobertas e tecnologias que tornaram possível o mundo em que vivemos hoje. Foi apenas um dedão nas águas do cosmos, mas logo em seguida voltamos correndo às areias seguras da Terra, quase assustados.

O ano de 1972 marcou a última missão da Terra à Lua e, com o fim dela, acabou também todo o otimismo da era espacial. Mas com a iminência da aniquilação nuclear, com a guerra no Vietnã em seu auge, nossa jornada rumo à Lua salvou o consciente coletivo do mundo. Como o repórter David Brinkley relatou na TV durante o especial de TV de véspera de Natal da Apollo 8, transmitido da órbita da Lua:

A raça humana, sem muitas vitórias recentes, teve uma naquele dia. Obrigado, Apollo 8. Você salvou 1968.

A Apollo 8 também nos trouxe esta foto. Ela teve uma repercussão enorme na psique humana, deu início ao movimento ambiental e à ideia de que deveríamos trabalhar juntos para estabelecer a paz na Terra. Depois dessa foto (e da Blue Marble) os seres humanos notaram, enfim, que precisamos nos unir. Devagar, as coisas começaram a mudar.

Mármore Azul

Elas não mudaram rápido o bastante. Ainda estamos trabalhando nisso. E graças a políticas miseráveis e à nossa incapacidade de lidar com planos a longo prazo, abandonamos o caminho que o programa espacial dos anos 1960 abriu.

Talvez fosse muito cedo, como disse Carl Sagan em seu livro The Pale Blue Dot, de 1994, em palavras magnificamente ilustradas neste curta de Erik Wernquist:

Por todas as suas vantagens materiais, a vida sedentária nos deixou inquietos, insatisfeitos. Apesar de passadas 400 gerações em vilas e cidades, nós não esquecemos. A estrada aberta continua chamando baixinho, como uma canção da infância quase esquecida. Atribuímos aos lugares remotos um certo… romance. Este apelo, eu suspeito, tem sido meticulosamente elaborado pela seleção natural, como um elemento essencial da nossa seleção natural. Longos verões, invernos amenos, ricas colheitas, caça abundante… nada disso dura pra sempre. Sua vida, a de seu bando ou, até mesmo, a da sua espécie podem se dever a uns poucos inquietos, levados por um desejo que mal podem expressas ou compreender a terras desconhecidas e a novos mundos.

Herman Melville, em Moby Dick, falou pelos errantes de todas as épocas e meridianos: “Sou atormentado por um desejo constante pelo que é remoto. Eu amo navegar em mares proibidos.”

Talvez seja um pouco cedo, talvez ainda não tenha chegado a hora, mas esses outros mundos (promissoras oportunidades ilimitadas) acenam.

Silenciosamente, eles orbitam o Sol, esperando.

20 anos depois dessas palavras, parece que a hora chegou.

Enviamos um veículo fantástico a Marte em uma missão aparentemente impossível que o mundo inteiro assistiu prendendo a respiração. Algumas semanas atrás, pousamos em um cometa. Nesta, enviamos outra nave para trazer material de um asteroide. Hoje nós lançamos uma nave que levará humanos de volta à Lua, asteroides, Fobos e Marte.

Então sim, eu olho para a Orion rasgando o céu azul, ouço minha celebração junto às de inúmeras outras pessoas, vejo milhões assistindo a esse evento que à primeira vista parece insignificante – apenas uma nave vazia que subirá e depois cairá no Oceano Atlântico – e sinto como se fossem os anos 1960 de novo.

O caminho está reaberto, um raio de Sol ilumina os portões, agora livre das videiras que cresceram em todos esses anos de abandono.

Hoje é um dia histórico, amigos. Hoje nós começamos a voltar às estrelas. E desta vez não haverá volta.