Há exatos 70 anos, uma bomba atômica destruía grande parte da cidade de Hiroshima, a segunda cidade mais populosa do país em 1945. Ministrado pelos EUA e sob comando do general Douglas McArthur, o ataque contra o Japão deixou mais de 70 mil mortos e outros 70 mil feridos só no primeiro dia do ataque.

Foram três anos e quase US$ 2 bilhões de dólares gastos na produção da bomba atômica que destruiria mais de 90% de Hiroshima. O objetivo dela era claro: acabar de uma vez por todas com a Segunda Guerra — os americanos foram vitoriosos contra os alemães em maio daquele ano, mas a guerra continuou contra o Japão.

A arma foi carregada pelo avião bombardeiro B-29, ou Enola Gay, que lançou a bomba a mais de 9.000 m de Hiroshima. Ela explodiu a pouco mais de meio metro do solo, atingindo uma área de mais de 230 metros de diâmetro e atingindo temperaturas aproximadas a 4.000 °C. Semanas depois, em 2 de setembro, o Japão se rendia ao poder americano e a Segunda Guerra finalmente chegava ao fim.

Com a vitória, o governo americano dominou o Japão, removendo todos os militares de posições de poder, além de abolir o xintoísmo, a religião oficial do país. O imperador Hirohito, entretanto, foi mantido como chefe de Estado, contradizendo “rendição incondicional” que o tratado entre os países mantinha e que ia contra as vontade de líderes da Aliança que queriam julgar Hirohito como um criminoso de guerra. McArthur preferiu mantê-lo no poder, pois a derrota do imperador poderia desestabilizar a ordem social e iniciar uma rebelião do povo que o via como um deus.

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O governo americano também implementou políticas opressivas que contradiziam os valores democráticos que eles diziam estar trazendo ao país, como a nova constituição apresentada aos japoneses no início do ano seguinte. O que era tratado como um documento feito pela vontade e desejo do povo japonês, foi na verdade traçado em uma única semana por membros do governo americano — a vontade do povo japonês não foi ouvida e líderes do Japão fizeram apenas revisões ao documento.

O novo documento garantia a liberdade de expressão aos habitantes do Japão, mas estima-se que, de 1945 a 1949, o governo americano monitorou mais de 15 milhões de páginas de jornais, periódicos e livros, além de fotografias, propagandas políticas, outros documentos, rádio, redes de televisão, filmes, cartas, telefone e telégrafos. Entre os tópicos banidos, estavam adoração ao imperador, militarismo e qualquer crítica aos EUA e seus aliados. Os japoneses também foram proibidos de viajar ou se comunicar com qualquer pessoa fora do país — tudo o que eles sabiam sobre o resto do mundo vinha de informações providenciadas pelos EUA.

Com o fim da guerra, os imigrantes japoneses que se instalaram em terras brasileiras anos também sofreram com a vitória americana. Como conta o autor Fernando Morais no livro Corações Sujos, japoneses e descendentes de japoneses tiveram as contas bancárias bloqueadas, ficaram proibidos de exercer o xintoísmo, de ensinar tradições aos mais novos e até mesmo de falar japonês no Brasil.

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Enquanto isso, nos EUA, a verdade sobre a bomba em Hiroshima ainda não era conhecida por cidadãos americanos. Líderes do governo e militares divulgavam na mídia campanhas que justificavam o uso da bomba, buscando com isso a aprovação pública para continuar  trabalhando no desenvolvimento de armamentos nucleares. O que o ativista A. J. Muste chamou de “uma demonstração da… lógica da atrocidade”, segundo informações da Lapham’s Quarterly.

O governo manteve a mídia longe de Hiroshima, com exceção de algumas poucas histórias, fora da área dizimada, que focavam na reconstrução da cidade, mas não nas vítimas. Como fala a Lapham’s Quarterly: “Fotos da explosão se tornaram imagens icônicas do bombardeio atômico — sem representação das milhares de vítimas que morreram e sofreram sob ela”.

Domingo, dia 9, completam-se 70 anos desde que os EUA lançaram uma segunda bomba atômica contra o Japão, desta vez na cidade de Nagasaki. Mais de 40 mil morreram neste ataque. [Lapham’s Quarterly, Folha]

Foto de capa: Terrazzo/Flickr