Um raro fóssil de ovo não eclodido contendo um dinossauro sugere que os saurópodes bebês não eram versões miniaturizadas dos gigantes de quatro patas e pescoço longo que todos conhecemos e amamos. Ao contrário: ele tinha um conjunto único de características físicas, que incluía um pequeno chifre parecido com o de um rinoceronte.

Os bebês titanossauros — o maior grupo de saurópodes — apresentavam um chifre facial proeminente e um par de olhos voltados para a frente, que permitiam uma visão estereoscópica, de acordo com uma nova pesquisa publicada na Current Biology.

Essas características faciais eventualmente desapareciam conforme os bebês amadureciam e se tornavam adultos, mas não antes de servir a um propósito valioso, especulam os autores, liderados por Martin Kundrat, da Universidade Pavol Jozef Šafárik, na Eslováquia.

Saurópode Ampelosaurus atacis. Crédito: WikimediaReconstrução do saurópode Ampelosaurus atacis, caso você não saiba o que é um. Crédito: Wikimedia

“Os bebês titanossauros ficavam por conta própria após a eclosão”, explicou Kundrat por e-mail. “Eles tinham que procurar seu alimento e se defender — duas das atividades mais importantes para a sobrevivência.”

Na verdade, a vida durante o Cretáceo Superior pode não ter sido fácil para esses filhotes. Consequentemente, teria sido prudente para eles se esconderem em um ambiente semelhante a uma floresta até que fossem grandes o suficiente para se mudarem para áreas descampadas, disse Kundrat.

Os bebês titanossauros, com sua visão estereoscópica, eram mais capazes de encontrar comida e reconhecer o perigo. Mas sua característica mais marcante — seu chifre pré-maxilar em forma de bico — pode ter sido usada para procurar comida e possivelmente até mesmo para defesa, “pelo menos durante o período em que eram mais vulneráveis”, afirmou Kundrat.

O crânio fossilizado com a reconstrução do artista mostrada ao lado esquerdo superior. Crédito: Kundrat et al. /Current BiologyO crânio fossilizado com a reconstrução do artista mostrada ao lado esquerdo superior. Crédito: Kundrat et al./Current Biology

Essas descobertas foram possíveis através da análise de um raro fóssil de ovo encontrado na Patagônia, Argentina. Ou, pelo menos, é daí que Kundrat e seus colegas acreditam que o fóssil veio. Eles não sabem dizer ao certo porque o fóssil foi exportado ilegalmente para o país.

Em 2001, um traficante argentino trouxe o ovo para Terry Manning, paleontólogo freelancer e coautor do novo estudo. Durante uma reunião de acompanhamento em 2015 com John Nudds, pesquisador da Universidade de Manchester e coautor do estudo, o traficante disse que o fóssil foi obtido na Formação Allen, de Bajo de Santa Rosa, na província de Rio Negro, Patagônia (Argentina).

O fóssil de 80 milhões de anos já foi repatriado para um museu na Argentina, mas ainda há incertezas sobre sua origem geográfica.

Os primeiros ovos fossilizados de saurópodes foram encontrados 25 anos atrás em Auca Mahuevo na Patagônia, conhecido por ser um antigo local de nidificação de titanossauros. Ovos fossilizados contendo restos embrionários são excepcionalmente raros, e há muita coisa que não sabemos sobre os estágios de desenvolvimento desse animais.

O fóssil recém-analisado é único por ser o melhor crânio embrionário tridimensionalmente preservado pertencente a um dinossauro saurópode, de acordo com o estudo. Infelizmente, outras partes do dinossauro não foram recuperadas, e a espécie exata a que pertencia não pôde ser determinada.

Para estudar o fóssil, os pesquisadores o levaram para o Centro Europeu de Radiação Síncrotron na França.

“O síncrotron é um acelerador de partículas que gera poderosos raios-X chamados luz síncrotron”, explicou Kundrat. “Essa luz síncrotron pode penetrar em objetos altamente densos, como rochas ou ovos de dinossauros. A microtomografia síncrotron é atualmente a melhor tecnologia para trabalhar com fósseis que estão além da capacidade de varredura dos sistemas industriais de tomografia computadorizada.”

Essa varreduras revelaram características anteriormente ocultas, como a estrutura interna dos ossos, dentes e até mesmo tecidos moles do embrião. Esses dados foram posteriormente usados para reconstruir o crânio, que media 3 centímetros de comprimento, revelando características faciais inesperadas.

“Parte do crânio desses saurópodes embrionários era estendida em um focinho ou chifre alongado, de modo que eles possuíam um rosto de formato peculiar”, explicou Nudds em comunicado da Universidade de Manchester.

Curiosamente, este chifre, que lembra o de um rinoceronte, pode ter sido uma espécie de “dente de ovo”, que ajudava o bebê a romper a casca do ovo durante a incubação.

Um estudo fascinante, sem dúvida, mas existem algumas limitações importantes a serem destacadas. Como já mencionado, os pesquisadores não estão perfeitamente confiantes sobre a origem do fóssil. Isso é mais um aborrecimento do que um problema, mas torna a datação do fóssil um pouco precária.

Limitações mais sérias incluem a ausência completa do corpo do animal e de fósseis de suporte, incluindo titanossauros bebês nascidos. Na verdade, dado o “fato de que não sabemos por quanto tempo esses embriões de saurópodes se desenvolviam dentro de seus ovos, é difícil avaliar o quanto essas [características] pré-natais permaneciam expressas na morfologia craniana na eclosão”, escreveram os autores do estudo.

É possível que este embrião ainda estivesse sujeito a grandes mudanças de desenvolvimento antes da eclosão, portanto, pode não ser representativo dos titanossauros bebês em geral.

Kundrat disse que mais evidências serão necessárias para descobrir se a face incomum desse espécime também se aplica a outros embriões e filhotes de titanossauros. Felizmente, mais ovos fósseis de saurópodes foram encontrados na Argentina, que podem conter vestígios de embriões.

Kundrat e seus colegas fizeram uma descoberta muito interessante, que levou a algumas conclusões muito interessantes, embora especulativas. A boa notícia é que tudo isso pode muito bem ser testado — só precisamos de mais alguns fósseis.