Quando você sobe a escada rolante principal do Mobile World Congress, em Barcelona, dá de cara com duas faixas de três metros, propagandas pouco discretas da tecnologia NFC. Nem precisa virar o pescoço para ver a sigla nada menos que seis vezes em outros pontos estratégicos. Caminhando um pouco, pertinho de onde tomam café aqueles engravatados com cara de gente muito importante, surge um estande de 80 metros quadrados para experimentação das maravilhas do sistema que transfere informações do celular com um toque. A MWC quer que você saiba do que o NFC é capaz. Mas… e aí?

As filas que se formam à frente do tal lugar são para testar máquinas de refrigerante e uma lanchonete equipadas com terminais NFC. Cerca de mil pessoas bem selecionadas carregam os smartphones, que receberam no início da feira, com os aplicativos necessários já instalados e 15 euros de crédito para gastar em bebidas e chocolates. O estranhamento na hora de cada um pagar sua conta é evidente. Qual é a posição do celular? Precisa digitar senha? E se um trombadinha passar correndo na calçada com um leitor de NFC e esbarrar no meu bolso? Ok, não é para tanto. Mas aí vem a primeira pergunta inevitável: se caras especialistas do mercado precisam de um empurrãozinho desses para (aprender a) usar o sistema, ele tem mesmo toda essa moral para ser a bola da vez no mundo móvel?

O Gizmodo Brasil foi conversar com os papas do assunto para ver em que pé essa tecnologia realmente está. Nossa conclusão: ainda trata-se um embrião nascendo, mesmo após dois anos de vendas de aparelhos com o chamado elemento seguro de transmissão (nome pomposo, né?). Mas o que fica claro é que todo mundo está se mexendo para entender qual é a desse mercado, e o impacto não vai demorar a chegar em terras brasileiras.

Durante o MWC, a Samsung anunciou uma parceria com a Visa para oferecer, em seus aparelhos, uma integração com cartões de crédito. O que falta? Convencer os bancos de que isso não é uma roubada. Rodrigo Meirelles, cabeça da área de tecnologias móveis da Visa na América Latina, planeja ter tudo funcionando até o fim do ano. É até surpreendente, mas a infraestrutura (leia-se: as maquininhas nas quais você vai bater o celular) não parece um problema tão sério. Já existem mais de 230 mil terminais da Cielo prontos para o NFC – mais do que em toda a Europa, apesar de pouco para um país gigante como o nosso. “No começo, o sistema estará atrelado ao cartão de crédito, mas é um primeiro passo para a independência, daqui alguns anos.”

Certo, então não estamos falando de um serviço propriamente novo para os bancos, e sim de fazer o cartão conversar com o celular. E esse é mesmo o caminho mais inteligente e fácil, nas palavras de JC Raynon, diretor da VeriFone. “O NFC é uma tecnologia linda e estranha, pois apareceu sem nenhuma condição pré-existente para ser aplicada de verdade”, ele aponta. Mais curioso (ou bizarro) ainda: “Para ela começar a existir de fato, os aparelhos tinham de ser vendidos antes, mesmo sem vantagem imediata aparente para quem estava comprando”.

Convencidos que fomos pelos fabricantes de comprar algo meio inútil (você também está se sentido um bobalhão por ter ficado tão empolgado com isso?), agora é o momento de mostrar ao seu Manoel, da padaria, as imensas vantagens de a galera entrar em seu estabelecimento e pagar o café usando somente um smartphone. Adrian Cannon, diretor da instituição financeira Edgar, Dunn and Company, traz uma simulação dessa conversa:

– Ei, você não quer conhecer o NFC, uma ótima alternativa para pagamentos imediatos?

– Oras, mas eu já tenho um sistema super rápido e eletrônico. Chama-se cartão de crédito e, aliás, foi você quem me vendeu – e continua vendendo.

– Sim, mas o NFC é incrivelmente fácil de usar. Basta você comprar este terminal, encomendar o desenvolvimento de um aplicativo para integrá-lo aos smartphones dos clientes, fazer propaganda para as pessoas baixarem seu programa no celular e…

– Quer saber, digite a senha do cartão aí e pague logo seu café.

Essa complexidade toda ainda nem é o maior problema. Imagine você carregar, no smartphone, os aplicativos de cada lojinha e restaurante. E isso contando com o fato de que ainda não há um “killer app”, nas palavras de Donal McGuinness, diretor da Escher Group (seu trabalho é, basicamente, oferecer aplicações NFC para lojas). Segundo ele, nem precisa existir esse aplicativo. “O argumento de venda só vai colar para o consumidor quando existir uma plataforma padronizada que sirva para todas as lojas ao mesmo tempo.” Aí a história começa a ficar interessante.

Guy Douglas, fundador da Molo Rewards, ouve isso e fica até emocionado. Ele é um daqueles caras sonhadores que convencem você sobre qualquer coisa. Fala com tamanha veemência sobre seu sonho a ponto de ficar vermelho. E o tal sonho, nos últimos meses, tem sido justamente conseguir fazer um aplicativo para unir sistemas de pagamento de várias operadoras de cartão, permitir às lojas oferecer promoções por meio dele e incluir programas de fidelidade do tipo compre 10 e ganhe um.

Na última semana, ele considera ter dado um passo importante. Conseguiu convencer a ATCM (uma associação que gerencia cidades no Reino Unido – sim, lá rolam essas coisas absurdamente organizadas e tal) a fechar uma parceria nada modesta. Sua proposta é gerenciar o organismo de cidades conectadas. Se tudo o que estiver na cabeça de Guy Douglas der certo, um só programa móvel vai servir para, além das transações financeiras já explicadas aí em cima, passar na catraca do metrô ou ônibus e acessar informações online ao tocar com o celular em pontos específicos da cidade, como um monumento turístico. Cara, essa cidade vai ser aonde, mesmo?

Mas voltemos ao planeta Terra. Neste último dia do evento, fizemos uma rápida pesquisa. Perguntamos a 20 pessoas aleatórias se elas haviam usado o sistema NFC, junto com o aplicativo oficial da feira, para liberar as catracas do espaço que abriga o MWC. A alternativa era mostrar o passaporte e a velha credencial num cartão. Somente duas haviam se dado ao trabalho de instalar o programa e fazer o cadastro necessário. A organização do congresso não pode culpar as outras 18. Nem ela encara a tecnologia, em alguns momentos. Aqui em Barcelona, o metrô é equipado com leitores de NFC para dar acesso às estações e, mesmo assim, na mochila que ela mesma entregou a todos os participantes do congresso, o tíquete de passe livre por quatro dias no transporte público da cidade era de papel. Ou seja, por mais sonhadores e engravatados envolvidos na história, o NFC precisa dar um grande passo para se popularizar: visitar o mundo real, com pessoas comuns, e não só os estandes das enormes feiras de tecnologia. [Foto: hedrinbc/Flickr]