Os restos fossilizados de um pequeno pássaro que viveu 62 milhões de anos atrás sugerem que os pássaros tiveram uma ampla explosão evolutiva, assim que seus primos dinossauros desapareceram, diversificando-se rapidamente até a maioria das linhagens que vemos hoje em dia.

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Em um período de quatro milhões de anos depois do evento de extinção em massa do Cretáceo-Paleogeno (K-Pg), um mero piscar de olhos em termos evolutivos, já havia dez grandes linhagens de pássaros, de acordo com uma nova pesquisa publicada nesta terça-feira (11) no Proceedings of the National Academy of Sciences. Com a saída dos dinossauros e com os habitats que ressurgiam, muitas dessas espécies pioneiras se diversificariam ainda mais, evoluindo para as dez mil espécies de pássaros que vivem atualmente.

As aves evoluíram a partir dos dinossauros, mas os dinossauros não apenas se tornaram pássaros durante o evento de extinção K-Pg. Os parentes dos pássaros modernos surgiram há cerca de 125 milhões de anos, durante o Cretáceo Antigo. Isso é cerca de 60 milhões de anos antes do terrível asteroide atingir a Península de Iucatã, eliminando cerca de 75% de todas as espécies na Terra e praticamente todas as criaturas acima de 25 kg. O evento K-Pg pode não ter criado pássaros, mas produziu um filtro através do qual apenas um grupo seleto de espécies de aves puderam passar. Um processo semelhante aconteceu com os mamíferos e, como um estudo recente apontou, os anfíbios.

Bem aventurados os mansos, porque herdarão a Terra, e é isso que os cientistas acham que aconteceu com os pássaros no limiar do K-Pg. Infelizmente, essas criaturas emplumadas, com seus ossos frágeis e quebradiços, não fossilizam bem, e há uma ausência de fósseis frustrante em torno dessa época. É por isso que a descoberta de um pássaro de 62 milhões de anos na Formação Nacimiento, na Bacia de San Juan, é tão importante. Os restos fósseis do pássaro estão reafirmando o que os paleontólogos suspeitavam, mas não conseguiam provar: aquelas pequenas aves se recuperaram após o ataque do asteroide e começaram seu caminho para o domínio global na ausência dos dinossauros e de outros competidores.

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Imitação artística do Tsidiiyazhi abini. (Imagem: Sean Murtha)

Esse pássaro do tamanho de um pardal, chamado Tsidiiyazhi abini (Navajo para “pequeno pássaro da manhã”), morava em árvores e gostava de comer frutas e sementes de plantas com flores. Ele tinha um quarto dedo no pé que ajudava a escalar as árvores. Ele conseguia até girar o pescoço para trás como uma coruja moderna. Essas características físicas, coletadas pelos pesquisadores do Museu Bruce, do Museu de História Natural do Novo México e da Academia Chinesa de Ciências, colocam firmemente o T. abini dentro de uma ordem de pássaros conhecidos como Coliiformes.

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Ossos do fóssil do Tsidiiyazhi abini. (Imagem: D T. Ksepka et al., 2017)

Isso é significativo, porque a presença dessa ordem em um período tão antigo força os cientistas a empurrarem nove linhagens relacionadas, ou clados, para mais longe no tempo até o Paleoceno Antigo. Isso sugere que os antepassados de praticamente todos os pássaros vistos hoje, de beija-flores e pica-paus até abutres e avestruzes, surgiram cerca de quatro milhões de anos da partir do impacto do asteroide.

“O fóssil fornece evidências de que muitos grupos de pássaros surgiram apenas alguns milhões de anos após a extinção em massa e já começaram a desenvolver especializações das patas para diferentes funções no ambiente”, observaram os autores em seu estudo.

Como esse estudo mostra, não são apenas os mansos que vão herdar a Terra, mas também os mais rápidos. Os pássaros, com sua capacidade de voar, certamente estavam em uma boa posição para tomar como seus os muitos ecossistemas emergentes.

[Proceedings of the National Academy of Sciences]

Imagem do topo: Sean Murtha