Testes em animais ainda são uma prática muito comum na indústria cosmética, mas uma pele humana sintética desenvolvida por uma pesquisadora brasileira pode revolucionar este ramo.

A pele humana sintética é desenvolvida in vitro e serve para testar a toxicidade presente nela. Ela é fruto da pesquisa de doutorado de Carolina Motter Catarino, pesquisadora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP (Universidade de São Paulo) que desenvolve o projeto na Instituto Politécnico Rensselaer, na cidade de Troy, New York.

Ele foi, inclusive, um dos projetos premiados em Londres este mês no The 2017 Lush Prize, destinado a pesquisas que eliminem a necessidade de testes em animais.

Carolina Motter Catarino, pesquisadora que desenvolveu a pele humana sintética (Créditos: Divulgação/Lush Prize 2017)

Desenvolvimento

A pele humana sintética desenvolvida por Catarino é formada a partir de amostras celulares extraídas de peles de cirurgias plásticas ou postectomia — a cirurgia de remoção de prepúcio, popularmente conhecido como fimose.

Inclusive, as amostras do prepúcio, que são adquiridas de cirurgias efetuadas em recém-nascidos, “apresentam um melhor potencial para expansão e diferenciação em comparação com células isoladas de amostras de pele de adultos”, explica o Jornal da USP.

Comparativo entre pele humana e pele humana sintética (Crédito: Arquivo / Carolina Motter Catarino)

Após receber as amostras, elas são multiplicadas in vitro até que exista uma quantidade de células o bastante para produzir a pele. Ela é produzida em uma impressora que utiliza tintas biológicas (bio inks) que são compostas por conjuntos de proteínas presentes na pele e as células isoladas e multiplicadas.

“Depois de impressas, as amostras de pele são mantidas numa incubadora de 12 a 21 dias para a diferenciação das camadas da pele”, diz a pesquisadora. Depois deste período de incubação, a pele sintética começa a apresentar semelhanças estruturais a da pele humana e pode então ser usada para testes.

Diferenças animais

Carolina explica que os modelos de pele humana sintética desenvolvidos até então são fisiologicamente semelhantes a pele humana — algo que a pesquisadora afirma ser uma das inconveniências dos testes em animais, uma vez que a fisiologia da pele animal é muito diferente da nossa, explica.

“Primeiramente, os animais são fisiologicamente muito diferente dos seres humanos, como por exemplo, a composição e estrutura das camadas da pele e concentração de folículos capilares”, diz.

A pesquisadora explica também que tais diferenças podem gerar resultados que não se aplicam à pele humana. “Essas e outras diferenças podem gerar resultados que não são reproduzidos em humanos posteriormente ou até mesmo não antecipar possíveis efeitos adversos”.

As peles humanas sintéticas são validadas para parâmetros específicos, como irritação e corrosão à pele. Os modelos, no entanto, fazem uso de apenas um ou dois tipos de células — são 15 os tipos presentes na pele humana. Além disso, eles também não apresentam vasculaturas e apêndices, como folículo capilar, glândulas sudorípara e sebácea. Por isso, explica Catarino, ainda há a necessidade de desenvolver modelos mais completos e fisiologicamente mais relevantes.

Apesar de muitas empresas ainda testarem seus produtos em animais, alguns países já aderiram ao banimento dos testes animais em cosméticos.

Em 2013, a União Europeia se tornou o primeiro conjunto de países a banir cosméticos testados em animais. Ainda no mesmo ano, a Noruega também aplicou o banimento no país — mas a indústria farmacêutica não fazia parte da regra. Israel e Índia foram a terceira e quarta nação a banir cosméticos que utilizaram testes em animais. Atualmente, Austrália, EUA e Nova Zelândia estudam o banimento e, no Brasil, um projeto de mesmo tratamento tramita no Senado.