Mercúrio, o planeta mais próximo do Sol, é um dos últimos lugares em que pensamos quando consideramos o potencial de vida no sistema solar. Novas pesquisas sugerem que o interior do planeta já continha os ingredientes básicos da vida, uma descoberta que pode mudar a maneira como vemos esse planeta tortuoso e quente.

Apesar de não ter atmosfera e de uma superfície que atinge 430°C durante o dia, Mercúrio pode ter hospedado uma camada subterrânea habitável preenchida com os blocos de construção básicos da vida, de acordo com uma nova pesquisa publicada no Scientific Reports.

Essa alegação extraordinária encontra base no “terreno caótico” de Mercúrio, uma região com vales profundos, longas rachaduras e montanhas afiadas. Observado pela primeira vez pela sonda Mariner 10 da NASA, em 1974, os cientistas levantaram a hipótese de que o terreno caótico foi o resultado de um gigantesco impacto celeste no outro lado do planeta e da enxurrada de terremotos que se seguiu.

A nova pesquisa, liderada por Alexis Rodriguez, do Planetary Science Institute, expõe as muitas falhas dessa teoria predominante. O trabalho propõe uma hipótese inteiramente nova, que sugere que essas características geológicas ímpares foram formadas por grandes quantidades de materiais voláteis que escaparam da subsuperfície de Mercúrio há muito tempo atrás.

Voláteis são compostos como água, nitrogênio e metano, que alternam facilmente entre estados da matéria, como líquidos que passam para gases ou sólidos que se transformam diretamente em gases ou vapores, um processo químico conhecido como sublimação.

Para os astrobiólogos, a simples menção de que existam materiais voláteis em um objeto celestial já é um alerta. Voláteis são pré-requisitos para a vida, então a insinuação de que Mercúrio já possuía um suprimento abundante de voláteis e sob condições potencialmente dinâmicas está levantando algumas questões intrigantes sobre o passado longínquo do planeta.

De fato, é difícil acreditar que Mercúrio possa ter sido habitável e ainda mais difícil acreditar que pequenos micro-organismos possam ter se contorcido profundamente abaixo da superfície, mas o novo artigo está desafiando nossos conceitos sobre quais objetos no sistema solar já foram capazes de promover a vida. Ao mesmo tempo, está oferecendo novos alvos de exploração para astrobiólogos.

A possibilidade de um impacto celestial do outro lado de Mercúrio ter criado o terreno caótico não é uma ideia impossível. O planície Sputnik de Plutão provavelmente se formou a partir de um evento desse tipo. Há muito tempo, uma colisão com um objeto grande enviou ondas de choque através do lado oposto de Plutão, criando o agora icônico relevo em forma de coração.

Para o novo estudo, Rodriguez e seus colegas fizeram referência a dados coletados pela sonda MESSENGER da NASA, que realizou varreduras detalhadas da superfície de Mercúrio de 2011 a 2015.

A análise desses dados mostrou que o terreno caótico se formou cerca de 1,8 bilhão de anos atrás, ou seja, 2 bilhões de anos após o evento de impacto acima mencionado, cuja evidência ainda é vista hoje na forma da bacia de impacto de Caloris.

É uma descoberta importante, pois altera toda a linha do tempo. Além disso, os cientistas dizem que a atividade sísmica gerada pelo impacto teria perturbado uma região muito menor que o terreno caótico. Os pesquisadores também descobriram muitas outras paisagens caóticas em todo o planeta, inclusive nas regiões equatorial e polar de Mercúrio, o que sugere que este não era um fenômeno geológico regional.

Por conseguinte, Rodriguez e seus colegas dizem que a teoria do impacto Caloris não pode explicar suficientemente o terreno caótico — então eles estão fornecendo uma nova teoria.

“Aqui, apresentamos a primeira investigação morfológica detalhada desses terrenos caóticos usando conjuntos de dados MESSENGER”, escreveram os autores no estudo. “Nossos resultados sustentam uma origem devido a um colapso na superfície generalizado, ainda que não catastrófico, de uma camada crustal superior rica em voláteis com vários quilômetros de espessura.”

O contorno branco mostra o terreno caótico, enquanto o quadrado amarelo mostra a área menor que seria afetada por um impacto celeste no outro lado de Mercúrio. Imagem: PSI

Então, bilhões de anos atrás, essa região começou a entrar em colapso, em um processo que levou muito tempo. Isso levanta a possibilidade de que “enormes volumes de voláteis da crosta se transformaram em gás e escaparam da crosta superior do planeta sobre uma superfície com área levemente maior que a da Califórnia, aproximadamente 500.000 quilômetros quadrados [193.000 milhas quadradas]”, explicou Gregory Leonard, cientista da Universidade do Arizona e coautor do novo estudo, em um comunicado de imprensa. À medida que esses materiais subiam à superfície, eles causavam rachaduras e outras deformações na paisagem.

O magma localizado mais abaixo provavelmente forneceu o calor necessário para o processo, ou talvez tenha sido alimentado por “aumentos na luminosidade solar ao longo do tempo”, segundo a pesquisa.

Como observado, essa descoberta aponta para um suprimento abundante e diversificado de voláteis no passado de Mercúrio. Curiosamente, esses compostos (incluindo gelo e orgânicos) teriam sido expostos a mudanças nas condições ambientais, incluindo variações de temperatura, que podem ter promovido condições habitáveis ​​estáveis, de acordo com a pesquisa. Alojada dentro desse nicho confortável, a vida microbiana simples poderia ter emergido no subsolo, longe da superfície dura de Mercúrio.

Dito isto, essa possibilidade requer a presença de água entre os outros compostos voláteis, o que permanece um desconhecido flagrante.

“Embora nem todos os voláteis contribuam para a habitabilidade, o gelo pode [contribuir] se as temperaturas estiverem adequadas”, disse Jeff Kargel, cientista da PSI e coautor do estudo, no comunicado à imprensa. “Alguns dos outros materiais voláteis de Mercúrio podem ter sido adicionados às características de um antigo [habitat aquático]. Mesmo que as condições habitáveis ​​existissem apenas brevemente, relíquias da química prebiótica ou da vida rudimentar ainda podem existir nos terrenos caóticos.”

Sobre isso, Mark Sykes, também da PSI e outro coautor do estudo, disse: “Se esses resultados forem confirmados, essa e outras áreas semelhantes de colapso em Mercúrio podem ser considerações importantes para futuros locais de pouso para investigar a origem da crosta volátil rica do planeta e, talvez, até seu potencial astrobiológico.”

De repente, Mercúrio — de todos os lugares — é um alvo que vale a pena explorar em busca de traços de habitabilidade anterior e vida alienígena. Essa é uma revelação grande e inesperada, e emocionante.