Uma equipe de pesquisadores em Pompeia encontrou evidências de que os romanos reciclavam, como mostra essa reportagem do Guardian. A mesma sociedade que nos trouxe o planejamento urbano, o aquecimento interno e o concreto também estava à frente de seu tempo com a ecologia.

Pilhas de lixo conservadas, algumas de vários metros de altura, foram encontradas fora das muralhas da cidade. Acredita-se que esses locais tenham sido “bases de ciclos de uso e reutilização”, de acordo com a professora Allison Emmerson, acadêmica do time de escavação da Universidade de Cincinnati.

Embora pesquisadores já tenham descoberto pilhas de lixo similares ao redor de Pompeia, a teoria predominante era que elas foram criadas por um terremoto que atingiu a cidade quase duas décadas antes da infame erupção do Monte Vesúvio, em 79 d.C., que a enterrou em cinzas vulcânicas.

De fato, muito desse lixo já havia sido limpado em meados do século 20, como aponta o Guardian. Mas ao examinar algumas pilhas de lixo recentemente descobertas, Emmerson e seus colegas arqueólogos Steven Ellis e Kevin Dicus foram capazes de rastrear a jornada desses pedaços de gesso, cerâmica e outros resíduos.

“Descobrimos que parte da cidade foi construída a partir do lixo”, disse ela ao jornal. “As pilhas fora das paredes não eram material que tenha sido jogado fora para se livrar dele. Elas estavam fora dos limites da cidade sendo coletadas e classificadas para serem revendidas dentro dos muros”.

Ao analisar amostras de solo, a equipe determinou que o lixo da cidade seria transportado para “depósitos suburbanos equivalentes a modernos aterros sanitários”, segundo o Guardian, onde seria então separado e incorporado aos materiais de construção dos prédios, estradas e muros da cidade.

“O lixo jogado em locais como latrinas ou fossas deixa para trás um solo rico e orgânico. Em contraste, o lixo que se acumulou ao longo do tempo nas ruas ou em montes fora da cidade resulta em um solo muito mais arenoso”, disse Emmerson. “A diferença no solo nos permite ver se o lixo foi gerado no local onde foi encontrado, ou coletado de outro lugar para ser reutilizado e reciclado.”

E como ninguém quer viver em um lugar que se parece lixo, por mais ecológico que seja, essas paredes “receberam uma camada final de gesso, escondendo a bagunça de materiais de dentro”, de acordo com Emmerson.

Fica evidente que a humanidade do século 21 poderia aprender uma ou duas coisas com seus antepassados. Para termos uma ideia, o americano médio gera 2 quilos de lixo por dia, de acordo com a Agência de Proteção Ambiental dos EUA. Só em termos de plástico, foram gerados 6,3 bilhões de toneladas de lixo desde 1950, e mais de três quartos foram parar em aterros sanitários ou lixões.

“Esse ponto tem relevância para a crise do lixo moderno”, disse Emmerson ao Guardian. “Os países que mais efetivamente gerenciam seus resíduos têm aplicado uma versão do modelo antigo, priorizando a mercantilização em vez da simples remoção.”

Por isso, da próxima vez que você reclamar sobre o trabalho que dá fazer reciclagem – e eu entendo, pode ser algo inconveniente e tedioso dependendo de onde você vive – lembre-se que se as civilizações antigas faziam isso enquanto lutavam contra pragas e tinham inúmeras outras inconveniências.

[The Guardian]