Nós vivemos em um mundo com base 10. O sistema decimal governa quase todos os países – exceto os teimosos que ainda usam milhas, galões e outras unidades do sistema imperial. Ele é usado até mesmo no código de programas, apesar de computadores usarem o sistema binário. Então por que o dia não é dividido em blocos de 10 horas? É por causa dos egípcios.

À medida que a civilização humana passava de sociedades de caça e colheita para comunidades de agricultura, percebeu-se que era necessário contar os objetos e bens que pertenciam a cada um. (Se você leva cinco cabras para pastar e volta com três – sem perceber a diferença – você está fazendo isto errado.)  O conceito da linguagem escrita estava começando nessa época, então as pessoas aprenderam a contar da mesma forma que crianças aprendem hoje em dia: usando os dez dedos.

Hieróglifos egípcios de 3.000 a.C. mostram o uso de um sistema decimal, com base 10. Então por que os egípcios usaram base-12 nos relógios? Muitos acreditam que isto surgiu a partir de um sistema herdado da antiga cultura suméria: em vez de contar usando um dedo inteiro, eles usavam os nós dos dedos. Funciona assim: você abre sua mão e usa a ponta do polegar para tocar as três dobras nos quatro dedos – o total é 12. Para medir o tempo usando este método, os egípcios dividiram o dia em duas metades de 12 horas; ou, mais precisamente, em um dia de 10h, mais 2h de amanhecer e anoitecer, mais 12h de escuridão.

Os egípcios basearam as horas no movimento dos céus. Eles acompanharam uma série de 36 pequenas constelações, conhecidas como “decanos”, que surgiam no horizonte aproximadamente a cada 40 minutos, um após o outro. O surgimento de cada decano marcava o início de uma nova hora. E, a cada dez dias, a noite acabava com um decano diferente: 36 decanos se alternavam, de 10 em 10 dias, logo antes do amanhecer.

Na IX Dinastia (cerca de 2.100 a.C.), os egípcios usaram o aparecimento regular dessas estrelas para criar um calendário anual unificado. Seus 36 períodos de 10 dias constituíam o ano egípcio de 360 dias. O novo sistema mostrou ser preciso o bastante para antever com precisão a cheia anual do rio Nilo quando surgia a estrela Sirius, mesmo que a duração real de cada hora variasse de acordo com a estação. “Foram produzidas tabelas para ajudar as pessoas a determinar o tempo à noite observando os decanos. Incrivelmente, estas tabelas foram encontradas dentro do tampo de caixões, provavelmente para que os mortos também pudessem contar o tempo”, diz o Dr. Nick Lomb, consultor de curadoria em astronomia do Observatório de Sydney, à ABC News.

O novo calendário simplificou bastante a contagem dos dias, mas a duração flexível das horas o tornava inútil para os gregos: eles precisavam de um dia com aumentos fixos de tempo. Hiparco, considerado por muitos o maior astrônomo da Antiguidade, recebe o crédito por transformar o relógio estelar dos egípcios no relógio equinocial padronizado que usamos hoje, onde cada período de luz e escuridão nos equinócios são divididos em segmentos iguais de 12 partes.

Tudo isso antes da humanidade aceitar que a Terra gira em torno do Sol.

[ABC NewsCornellWikipediaAndrew Tobias – Imagem por maigi / Shutterstock]