Isso aconteceu quando a Terra ainda estava em preto e branco: Há 50 anos (e um dia agora), nós pisamos fora de nosso planeta natal pela primeira vez. Esta é a história do começo de uma aventura que ainda não acabou. A maior, mais perigosa, e mais recompensadora busca que a raça humana já embarcou – a fascinante história de dois homens que nos levaram a um novo nível.

Juntos, eles impulsionaram o mundo em um caminho que ninguém imaginou antes deles. Um era um cientista. O outro, um herói otimista amado por seu povo e por todos que leram sobre ele, incluindo eu mesmo. Depois de ler isso, você irá amá-lo também.

O cientista era Sergei Pavlovich Korolev, um gênio que sonhou com foguetes que nos levariam à lua. Ele quase foi morto no Grande Expurgo de Stalin no final de 1938. Depois de anos na prisão, ele se tornou o líder do programa espacial da União Soviética. Ele desenhou a nave que levou nosso herói onde nenhum outro humano havia ido antes.

Esse herói foi um homem muito jovem, o filho de uma família pobre, nascido na zona rural da Rússia: Yuri Alekseyevich Gagarin.

O lançamento

Era 12 de abril de 1961. Sputnik, a primeira espaçonave humana, tinha alcançado a órbita apenas quatro anos antes. Quatro anos. Não era nada. Os foguetes e aeronaves eram todos extremamente experimentais. Os homens e mulheres que pisaram dentro deles sabiam que tudo podia dar errado e, na verdade, deu errado até demais.

Mas 12 de abril não seria uma dessas ocasiões.Era uma manhã fria e clara no sítio 1 do Cosmódromo Baikonur, no Cazaquistão, uma das repúblicas socialistas controladas com o punho firme de Moscou. Naquela manhã, às 4h10 do Horário Universal,  Yuri Alekseyevich pisou na sua espaçonave Vostok-1 depois de desfrutar um café da manhã com seu piloto reserva, Gherman Stepanovich Titov.

Gagarin começou os procedimentos pré-decolagem. Quarenta minutos depois, a escotilha fechou e ele esperou que a contagem final começasse, amarrado a 150 toneladas de querosene e oxigênio líquido altamente explosivos.

Ele seria o primeiro homem no espaço – ou iria morrer tentando. E ainda assim, dentro de sua pequena e esférica capsula de metal, Gagarin estava calmo. Volstok-1, sua nave, e Vostok-K, seu foguete, começavam a fazer barulho. Eu posso imaginar seu sutil sorriso. Ele sabia que ele poderia ser reduzido a pequenas partículas em alguns minutos. Ainda assim, ele estava otimista, conversando com o controle de solo, seu pulso estava marcando apenas 64 batidas por minuto.

No outro lado da linha de seu rádio estava Korolev – o designer sênior de sua espaçonave. Ele estava tão nervodo que ele teve que tomar uma pílula depois de sentir dores no peito, temendo uma parada cadíaca. Eu consigo imaginá-lo acendendo o próximo cigarro com o anterior ainda aceso em sua boca.

Às 06:07 da manhã, Gagarin ouviu Korolev gritar no rádio: “Estágio preliminar…intermediário…principa…DECOLAR! Nós desejamos a você uma boa viagem. Está tudo bem.”

Gagarin exclamou uma única palavra, enquanto o mundo bradava ao seu redor: Poyekhali!

“E lá vamos nós!”

E lá foi ele. Alguns minutos depois, Gagarin estava em órbita. Completamente pasmo, ele murmurou uma das frases mais belas da história da civilização: “A Terra é azul. Que maravilhoso. É fantástico.”

E era maravilhoso. Talvez seja uma coisa óbvia para dizer, mas ela foi  dita por um coração honesto, tocado e modesto pela vista de tirar o fôlego de sua verdadeira casa. Nascido filho de uma pessoa pobre na vila de Klushino, perto de Gzhatsk, Rússia, Gagarin foi o primeiro homem a chegar no espaço e o primeiro a orbitar a terra. E para ele, a experiência ressonou no nível mais básico, em cada fibra de seu ser.

Quando ele disse aquela frase, ele estava orbitando de uma altitude de 300 quilômetros acima da superfície de Gaia, expressando exatamente o mesmo sentimento que cada astronauta tem experimentado desde então. Um sentimento de completo fascínio pela beleza de nossa pequena, porém magnífica casa. Sentir-se pequeno, um minúsculo ponto de material orgânico tentando alcançar as estrelas, Gagarin e o resto da humanidade perceberam quão única e preciosa era a Terra. E, nesse processo, nos levou a um nível completamente novo.

Em apenas alguns minutos, a perspectiva de uma espécie mudou. Existe um mundo antes e depois de Gagarin, tavez até mais do que Armstrong, Aldrin e Collins. Apesar de chegar à lua ter sido talvez a mais incrível façanha já realizada por humanos, o voo de Gagarin definitivamente começou o retorno dos humanos à sua verdadeira casa.

Um voo perfeito

Durante sua órbita, Yuri continuou enviando por rádio mensagens otimistas para a Terra, dizendo a todos que tudo estava bem mesmo quando ele mal conseguia ouvir o controle de solo, maravilhado pela experiência que nenhum humano teve antes:

O voo continua bem. Eu posso ver a Terra. A visibilidade é boa. … Eu posso ver quase tudo. Existem alguns espaços coberto por nuvens. Eu continuo o voo, tudo está bem.

Minutos depois:

Tudo está funcionando muito bem. Todos os sistemas estão funcionando. Vamos continuar! […] Zarya-1, Zarya-1, eu não consigo ouvir você muito bem! Eu me sinto ótimo. Eu estou de bom humor. Eu estou continuando o voo…

Às 06:31am, ele trasmitiu as seguintes palavras:

Eu me sinto esplêndido, muito bem, muito bem, muito bem. Passem-me alguns resultados do voo. Repetindo. Eu não consigo ouvir muito bem. Eu me sinto ótimo.

Às 07:55 da manhã, Vostok-1 tinha percorrido a órbita completa da terra. Era a hora da verdade de novo. A espaçonave se alinhou automaticamente para entrar de novo na atmosfera terrestre, se preparando para ligar seu retrofoguete. A nave tinha apenas um sistema de retrofoguete porque o foguete Vostok-K não tinha capacidade suficiente para carregar um módulo de backup. Se o módulo falhasse, Gagarin ficaria em órbita por dias. Na verdade, ele tinha suprimentos suficiente para dez dias no caso de ter que esperar para a espaçonave cair naturalmente de sua órbita.

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Felizmente, todos os sistemas funcionaram perfeitamente. Alguns minutos depois, uma grande bola de fogo explodiu no céu da Russia. Gagarin Ativou o paraquedas e aterrissou cerca de 10 minutos depois, caindo em um campo perto de Engels City, em Saratov Oblast, Rússia. Perto do rio Volta, um fazendeiro e sua filha viram-no chegando na sua roupa laranja de astronauta.

Quando eles me viram na roupa espacial, arrastando o paraquedas ao meu lado enquanto caminhava, eles começaram a recuar com medo. Eu disse a eles, não fiquem com medo, eu sou um Soviético como vocês, eu desci do espaço e agora preciso encontrar um telefone para falar com Moscou!

Sim. Ele definitivamente era o cara certo.

A triste morte de um herói

A aventura da Gagarin foi um sucesso total. Os Estados Unidos ficaram atônitos pela notícia a NASA correu para conseguir enviar um astronauta ao espaço. Em 5 de maio de 1961, Alan Shepard foi lançado no espaço e se tornou o primeiro astronauta dos Estados Unidos, mas apenas seguindo a trajetória de um míssil balístico. Foi apenas no ano seguinte que os Estados Unidos colocaram um astronauta em órbita, quando John Glenn contornou a Terra por 4 horas, 55 minutos e 23 segundos a bordo do Friendship 7, em 20 de fevereiro de 1962.

Depois de se tornar o herói da União Soviética, Gagarin teve que ficar em solo para sempre, precioso demais para correr o risco de ser perdido pelo arsenal de propaganda do regime comunista draconiano. Ele retornou para a Cidade das Estrelas  – onde a União Soviética desenvolveu se programa espacial – para trabalhar no desenvolvimento de espaçonaves reutilizáveis, mas ele nunca mais entrou em uma novamente. Na verdade, depois de Vladimir Komarov morrer no primeiro voo da Soyuz, Gagarin – que era seu piloto reserva – foi banido até de treinar para voos espaciais.

O que foi irônico porque apenas alguns anos depois Gagarin morreu enquanto voava em um caça durante um treinamento rotineiro, em 27 de março de 1968, aos 34 anos. E foi apenas dois anos após Korolev morrer de câncer – seu papel como pai do programa espacial ainda era completamente desconhecido por todos.

Gagarin saiu do estatus de herói para uma lenda. Para as pessoas da Rússia – triste e pessimista – e para o mundo todo para quem ele representava uma visão otimista do futuro. Yuri, o filho de um simples fazendeiro, voou pelo espaço. Ele fez isso  e ele acreditava em um futuro melhor e brilhante, no qual humanos iriam voar até as estrelas. E, durante sua curta vida, ele transmitiu esse otimismo para todos que encontraram com ele.

Eles não fazem mais pessoas assim.

Yuri Alekseyevich Gagarin. Você será lembrado para sempre.

Baseado em In Honor of Yuri Gagarin, the First Human in Space, publicado em 7 de maio de 2009