Um dono de revistas de uma geração anterior à minha uma vez me disse um negócio que é óbvio, mas que muita gente não encara: a maior parte dos barões da mídia brasileira não está no negócio por dinheiro, mas sim pelo prestígio, e pelo poder que este prestígio confere. E pela vaidade, claro. É fácil de entender, mas vou ilustrar com um exemplo de um sujeito que não era barão de nada, tinha uma revista de tênis, o esporte, não o calçado. Na revista dele, tinha review de raquete de quem patrocinava. Quem não patrocinava, ou não entrava, ou levava pau.

Lembrei destas duas histórias nos últimos tempos quando me dei conta de que precisamos falar sobre um assunto sobre o qual falamos o dia inteiro todo dia, mas acabamos nunca debatendo. A verdade é que precisamos conversar sobre a Folha, mas não do jeito que temos conversado. Precisamos conversar sobre a Folha porque temos conversado demais sobre ela sem falar do que precisamos falar. Perdemos tempo debatendo a espuma quando o chopp está ficando sem gás embaixo dela. Precisamos conversar sobre a Folha porque não temos o que conversar sobre o Estadão ou o Globo, sinceramente, ainda que ambos também tenham suas ilhas de excelência.

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Vamos primeiro ao contexto, que você pode pular se não tiver interesse em saber qual é a minha relação com a Folha. 

Eu virei jornalista por causa da Folha, mesmo antes de ter virado jornalista na própria Folha. Foi por causa da Folha que eu me apaixonei por política, e por jornalismo. Não vou gastar linha aqui elogiando a Folha do começo dos anos 80 porque esses elogios você pode encontrar por aí a rodo. Aquela Folha mudou nosso jornalismo, e mudou também o Brasil. E me mudou. Eu acompanhava os números de assinantes dos jornais – a Folha na época era o terceiro maior jornal do Brasil –  como quem acompanha tabela de futebol. Eu torcia para a Folha.

Eu não estudei jornalismo, estudei Direito, trabalhei como administrador, gestor público e quando ia fazer 30 anos entrei no trainee da Folha, onde virei jornalista de fato. Fiquei só dois anos no jornal, mas meu vínculo com a empresa foi retomado anos depois, quando a Trivela, e depois o Gizmodo, viraram parceiros do UOL – este Gizmodo é até hoje. Algumas das melhores pessoas que conheci na vida, além de alguns dos melhores jornalistas, eu conheci na Folha, onde algumas delas ainda estão. De modo que criticar a Folha para mim envolve um certo “assassinar a mãe” filosófico.

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Conversemos então sobre a Folha. E para conversar sobre a Folha, temos que conversar sobre os irmãos Frias.

Em 1984, Otavio Frias Filho se tornou Diretor de Redação da Folha de S. Paulo. Formado em Ciências Sociais e amante das artes, Otavinho, como era conhecido, implantou o Projeto Folha, que mudou, como eu disse acima, o jornal e o jornalismo no Brasil. Não era só uma questão de posicionamento pró-democracia, que rompia com a tradição do próprio jornal e do próprio pai. O Projeto Folha pode ser grosseiramente resumido em um parágrafo da apresentação do próprio projeto: “Como empresa, o jornal se enraíza nas forças de mercado e adota uma atitude de independência em face a grupos de poder. Procura melhorar a qualidade dos serviços que oferece, pautando-se por uma política de competição comercial, modernização tecnológica e valorização da competência profissional.”

Vamos lá: 1- forças de mercado (leitor, mas também anunciante); 2- independência face ao poder; 3- qualidade de serviços, não só de texto e reportagem; 4- modernização tecnológica; 5- valorização da competência profissional.

É claro que, como tudo no Brasil, o Projeto Folha foi implantado no Brasil, portanto sujeito a brasilidades diversas. No meio de uma quantidade enorme de profissionais de primeira, a Folha tinha também uma porrada de amigos do patrão, sociólogos frustrados que jamais chegariam às chefias sem ter sido colegas de faculdade do cara certo – ou de ter se achegado a ele de alguma outra maneira. É claro que a independência com relação ao poder esbarrava nas preferências políticas dos donos. Mas é inegável, ou pelo menos eu acho que é, e foi até onde eu vi, que, se era mais difícil criticar José Serra do que José Dirceu no jornal, nenhum dos dois nunca esteve blindado.

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Otavio Frias Filho, porém, teve a péssima ideia de morrer – antes dessa ele teve a péssima ideia de promover o Sérgio Dávila, talvez imaginando que não morreria e poderia tomar conta do sujeito para sempre, mas não deu certo, pois morreu (mais sobre isso lá embaixo). E, talvez contando com o notório desapreço do irmão Luiz pelo jornal, não se preocupou em mantê-lo afastado da Folha. 

Luiz, dizem os que têm alguma proximidade, nunca gostou de jornalismo, nunca teve nenhum apreço especial pela Folha. Sete anos mais novo que o irmão Otavio, entrou no jornal seis anos depois, mas nunca esteve envolvido com o lado editorial. Não sei se foi dele a ideia de abrir o UOL, ideia que provavelmente salvou a Folha, mas vai acabar por matá-la, mas logo o negócio acabou ficando naturalmente assim: a Folha era do Otavio; o UOL era do Luiz (sim, é uma simplificação grosseira, mas para os nossos propósitos, funciona). 

A Folha atingiu picos nunca antes sonhados em 1994, quando chegou a vender em um domingo mais de 1,1 milhão de jornais – com base também em brindes e promoções diversas, verdade, mas ainda assim 1,1 milhão de jornais entregues. Dois anos depois, surgia o UOL – e, com ele, o processo que engoliria a circulação de todos os jornais do mundo.

Enquanto a Folha encolhia, o UOL crescia. Quando vender acesso à internet deixou de dar dinheiro, o UOL se reinventou, virou portal, conseguiu se manter importante como portal mesmo em um mundo em que não há mais portais, e serviu de plataforma para seu dono ingressar num mundo ainda mais lucrativo. Fundado em 2006, o Pag Seguro foi comprado pelo UOL em 2007. Em 2020, o PagSeguro foi avaliado em algo como R$ 20 bilhões.

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Pois vem: quando Otávio Filho teve a infeliz ideia de morrer, em agosto de 2018, quem assumiu a direção do jornal foi sua irmã, Maria Cristina Frias. Não tenho a menor condição de avaliar qualquer coisa sobre ela, o que sei é o que todos sabem: em março de 2019, menos de um ano depois, Luiz se aliou à viúva de Otavinho e botou a irmã pra fora. Em vez de assumir a direção da Folha, porém, e provavelmente para aplacar uma redação que poderia explodir com base em velhas lealdades, Luiz nomeou o antigo segundo do irmão, Sergio Dávila, para dirigir o jornal.

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A Folha é, hoje, um jornal cujo dono ganhou e ainda ganha uma quantidade de dinheiro que é difícil de quantificar, em coisas que não são a Folha – nem o UOL, pelo menos não o UOL que faz jornalismo/conteúdo. Esse dono, segundo relatos de quem conviveu de perto, não só nunca gostou de jornalismo como sempre odiou. Os relatos recentes de que Luiz Frias está gostando de ser dono de jornal nunca dizem que ele está gostando de fazer jornalismo, e aí voltamos ao começo deste texto. Os barões da mídia do século XX faziam jornalismo por vaidade. É mais legal dizer que é jornalista do que dizer que é empresário, como a avenida Jornalista Roberto Marinho bem comprova.

O dono da Folha não é jornalista, não gosta de jornalismo, não entende o jornalismo. Quer prestígio, quer dizer que conseguiu alguma coisa que o irmão mais velho não conseguiu, “salvar” o jornal. Como? Não faz nenhuma diferença. A Folha virou, basicamente, um grande festival de busca por atenção, com alguns princípios pra manter as aparências. Tem cada vez menos reportagem e cada vez mais “opinião”. Não tenho outra maneira de avaliar a competência do Diretor de Redação do jornal que não seja avaliar a maneira como comprou esta missão e a vem desempenhando. O resultado não deveria orgulhar ninguém. Não é que a Folha de Otávio Frias Filho não publicasse seus absurdos em nome da pluralidade. É que esta não era a razão de viver do jornal. Hoje, é.

Avaliar qualquer atitude da empresa Folha de S. Paulo com relação ao jornal que edita hoje em dia, precisa começar com esse entendimento do contexto. Publicar o Risério, o Safatle ou o Kim não é mais, como já foi, um incentivo ao debate de ideias – que ideias, por exemplo, tem um Narloch da vida? Pra que tipo de debate contribui? 

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Eu achei ruim a coluna do Risério, mas eu a teria publicado assim como teria publicado todas as do Demétrio e do Safatle, de quem discordo com frequência gigantesca – me incomodo muito mais com os duviviers da vida, mas entendo que tem público pra isso também. Mas da mesma maneira como cancelei minha assinatura do jornal há muitos anos, quando a Folha publicou um texto de um deputado supostamente religioso atacando os homossexuais, voltei a cancelar quando ela contratou Leandro Narloch. O problema nunca é o que o sujeito escreve, é o que o move. O que move um narloch da vida não é o debate de ideias, é a provocação, a agressão. É a destruição do debate.

O Projeto Folha de Otávio Frias Filho, além dos aspectos de mercado, tinha um aspecto civilizatório. Punha o jornal em uma posição de iluminar, de promover a discussão. O não-projeto de Luiz Frias não tem objetivo filosófico nenhum, consistência nenhuma, mas por um azar do destino encontrou seu caminho de sucesso na morte do debate, na destruição de qualquer aspecto civilizatório que o jornal pudesse ter. Aposta nas trevas, porque nas trevas qualquer idiota com uma lanterninha se estabelece. E é mais barato ter uma lanterninha do que iluminar um teatro inteiro.

Talvez eu esteja me preocupando demais em deixar isto claro, mas acho importante: o problema não é o Diretor de Redação do jornal. Não é que o Sérgio Dávila é um cara mau, que um dia acordou e resolveu que o jornal ia se tornar algo diferente. Não é uma decisão que ele tenha tomado, de virar o leme. O problema é exatamente a ausência de leme, de direção. Se você não sabe para onde está indo, afinal, qualquer caminho te levará lá, diz a frase atribuída a Lewis Carroll. Não é que o Diretor de Redação da Folha seja despreparado, o que ele claramente não é, ou que não tenha coragem de peitar as decisões de cima. É meramente uma questão de perfil. Poderia ter sido o mais adequado em outros momentos; quando o jornal está ameaçado por um dono que não gosta de jornal, provavelmente não é.

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Importa conversar sobre a Folha de S. Paulo não só porque é o maior jornal do país. Importa principalmente porque só a Folha está tentando achar um caminho para continuar a ser relevante. O Estadão continua morrendo em plena luz do dia, e embora continua sendo um bom jornal em todos os aspectos, parece ter desistido de conversar com as novas gerações. O Globo talvez seja hoje um jornal até melhor do que era no passado, mas pertence a um grupo em que seu tamanho e importância nunca foram relevantes quando comparados à TV. Se a Globo conseguir salvar a TV Globo e para isso tiver que sacrificar todo o resto, não parece haver quem tenha qualquer tipo de apego pelo jornal.

A Folha de S. Paulo, historicamente nunca foi o que foi entre os anos 80 e a morte de OFF. Não era influente, não era relevante, era pouco lida. De 1984 até o boom da internet, porém, a Folha marcou a história do Brasil em diversos aspectos. Quando o jornal abre mão de ter um projeto, uma linha clara, valores inegociáveis, embica firme no caminho da irrelevância intelectual. Pode demorar mais ou menos, mas é inevitável. O que poderia ser um problema apenas para a família proprietária, porém, como de certa forma é a lenta morte do Estadão, torna-se um problema maior porque no lugar da Folha não surge nada. O Brasil fica mais estúpido. Não há o que a substitua, e a mensagem que fica é a de que o único caminho para salvar o jornalismo é misturá-lo com um enorme armazém de secos e molhados, mas só depois que eles passarem da data de validade e estiverem bem fedidos.

O problema é que isto não faz qualquer diferença para o PagSeguro.

Caio Maia é empresário, mas prefere dizer que é jornalista. É Diretor de Redação da F451, que edita o Gizmodo, e escreve sobre Mídia.