Nesta semana, em Londres, um “raio mortal” parabólico de luz solar — refletido pelo mais novo arranha-céu londrino — está destruindo carros de luxo, começando incêndios e fritando ovos (num típico gesto de humor britânico). É uma história sensacional, claro, mas esta não é a primeira vez que um laser arquitetônico literalmente queimou o cabelo dos pedestres.

A torre responsável pelo ataque — mais conhecida como 20 Fenchurch Street, ou “o Walkie-Talkie” — foi desenhada por Rafael Vinoly, um arquiteto Uruguaio radicado em Nova Iorque. O que alguns canais (mas não alguns editores da Wikipédia) se esqueceram de dizer? De que esta não é a primeira vez que Vinoly bota fogo em coisas usando seus prédios. Em 2010, hóspedes do recém-construído Vdara Hotel, em Las Vegas, reclamaram que os reflexos da fachada espelhada estavam “incendiando os cabelos” dos nadadores na piscina adjacente.

Mesmo fora da obra de Vinoly, construções que agem como lasers não são tão novas assim. Na verdade, há praticamente toda uma indústria legal dedicada ao tema. Coloque seus óculos escuros e vamos dar uma olhada.


Disney Concert Hall, 2003

O hall de espetáculos de US$ 274 milhões, projetado por Frank Gehry — encravado no coração do centro de LA — foi o grito profético ouvido por todo o mundo sobre os raios mortais arquitetônicos. Em 2004, um grupo de proprietários de um condomínio vizinho à fachada reluzente reportou que o brilho estava aumentando a temperatura de suas casas em 8°C (um ponto de 60°C também foi encontrado).

Finalmente, o espelho acabou com os 883 painéis da fachada sendo lixados até ficarem foscos — apagando o brilho pelo custo de cerca de US$ 90.000. “Você nem via direito e os móveis ficavam muito quentes,” disse um morador. “Você teria que literalmente fechar as cortinas e ainda assim sentia o calor na casa.”

Leonardo DiCaprio Court Appearance

Imagem: Frederick M. Brown/Getty


Vdara Hotel, 2010

“Eu estava sentado aqui nesta cadeira e, de repente, meu cabelo e o topo da minha cabeça estavam queimando”, contou um advogado que estava visitando o hotel de Las Vegas, também desenhado por Vinoly, em 2010. “Estava passando a mão na cabeça e parecia uma queimadura química. Eu não podia imaginar o que era.”

Ironicamente, a equipe de designers de Vinoly antecipou o problema — e, durante a construção, as janelas foram cobertas por uma solução que absorve a luz, o que, teoricamente, iria suavizar os potenciais reflexos. Mas não foi o suficiente — o reflexo, de acordo com relatos, aumentava a temperatura em em mais de 11°C em dias intensos. No fim das contas, o hotel foi forçado a colocar um abrigo parecido com um veleiro sobre os restos chamuscados da piscina.

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Museum Tower, 2013

Este é o que causou mais transtornos entre todos — porque ele estava destruíndo coisas realmente importantes (além de carrões caros, quero dizer). Este prédio de 42 andares e US$ 200 milhões de dólares foi terminado em Janeiro e é diretamente adjacente a um dos prédios mais adoráveis de Dallas: o fantástico Nasher Museum, de Renzo Piano. Em semanas, o reflexo da torre tinha matado a folhagem do bambu do Nasher, aumentando a temperatura em 22°C. Depois, ele estava alterando as restritas condições solares dentro das galerias. O último suspiro foi quando James Turrel, o artista da luz, declarou que sua instalação permanente no Nasher estava “destruída” e requisitou que a removessem.

Este foi apenas o começo. Depois de se recusarem a fazer alterações na fachada da torre, os construtores partiram para o tudo ou nada e bancaram uma guerra de relações públicas contra o Nasher. Isto incluiu lançar um website alegando que não eram necessárias mudanças, assim como criar contas fake de Twitter para apoiar os construtores. O conselho da cidade, desde então, chegou a fazer emendas no código de construção, mas o problema persiste. Geralmente, raios mortais são até engraçados. Desta vez, não foram tanto assim.

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20 Fenchurch Street, 2013

Finalmente, estamos de volta ao notável estrago parabólico desta semana, que aumentou em até 88°C a temperatura em certos pontos. De acordo com o The Independent, o brilho não era exatamente uma falha no design — ele é devido ao fato de que os planos originais de Vinoly foram “alterados pela engenharia de custos” durante a construção.

Originalmente, uma série de finas sacadas estavam planejadas para agirem como telas para barrar o reflexo, mas essas sacadas nunca viram a luz do dia, com o perdão do trocadilho. Para tentar resolver, guardas londrinos bloquearam as vagas de estacionamento e ergueram um andaime temporário no nível da rua, que deverá ficar lá pelas próximas semanas. De acordo com eles, o brilho provavelmente permanecerá até o mês que vem e, então desaparecerá. Até o ano que vem!

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Imagem do topo: Leon Neal/AFP via Getty Images.