Há algumas semanas, El Salvador se tornou o primeiro país do mundo a elevar o Bitcoin ao status de moeda oficial, gastando US$ 225 milhões e aumentando seu estoque governamental para 550 Bitcoins como parte de um lançamento projetado para consolidar o país como líder mundial em criptomoedas. Na sexta-feira, o presidente e populista de direita Nayib Bukele tuitou que a operação de mineração de Bitcoin administrada pela empresa estatal de energia LaGeo SA de CV gerou um total de US$ 269 em Bitcoins a partir da energia geotérmica (gerada a partir de vulcões).

Bukele tuitou na manhã de sexta-feira que o governo ainda estava “testando e instalando” a tecnologia. Mas, aquilo que ele chamou de “#volcanode” estava oficialmente operando.

Como mencionou a CNBC, o uso de energia geotérmica para alimentar a criação de criptomoedas não é novidade. Mas o anúncio vem no momento em que a atenção internacional se volta para as enormes quantidades de eletricidade que o Bitcoin e outras criptomoedas consomem para alimentar suas blockchains. Estima-se que apenas o Bitcoin consuma 91 terawatts-hora de eletricidade anualmente, de acordo com o New York Times, o que equivale a meio por cento da geração total mundial. Cerca de um quarto da energia de El Salvador já é gerada por usinas geotérmicas, e a iniciativa de Bukele é projetada para capitalizar em cima do boom da criptomoeda — mantendo uma imagem ecologicamente correta.

O governo de El Salvador criou sua própria carteira de Bitcoin, chamada Chivo, que está disponível para todos os cidadãos com carteira de identidade nacional. Quem se registra recebe 30 dólares em Bitcoin. Isso é muito, dado que a renda nacional bruta per capita em El Salvador era, segundo estimativas, cerca de US$ 3.600 em 2020.

Muitos salvadorenhos, no entanto, são extremamente céticos de que pular no trem Bitcoin seja uma decisão sábia, já que isso atrela a economia do país aos preços altamente flutuantes da criptomoeda — e pode torná-la vulnerável à especulação nos mercados mundiais. A CNBC informou que uma pesquisa da Universidade da América Central mostrou que 70% dos entrevistados no país não apoiavam a oferta de moeda legal no Bitcoin, com muitos dos entrevistados tendo pouca confiança no próprio Bitcoin ou dizendo que não sabem como usá-lo de fato.

De acordo com a Associated Press, protestos eclodiram na capital, San Salvador, na quarta-feira, com manifestantes protestando contra o que consideram a concentração antidemocrática de poder do governo Bukele. Muitos na multidão ficaram particularmente descontentes em relação a suas políticas de Bitcoin. Segundo a AP, alguns dos manifestantes usavam camisetas “NÃO ao Bitcoin”. Um grupo de manifestantes vandalizou alguns dos 200 caixas eletrônicos criptomoedas administrados pelo governo que foram recentemente instalados em El Salvador. A AP notou que a rede já estava praticamente não havia funcionado ao longo da semana, após a Chivo ter sido sobrecarregada pelo grande número de novos usuários e por falhas no aplicativo criado pelo governo.

“O governo está apostando mais de US$ 200 milhões em um cassino virtual, e isso é dinheiro do contribuinte”, disse o economista sênior do Instituto Centro-Americano de Estudos Fiscais, Ricardo Castañeda, ao Wall Street Journal.

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Jorge Hasbún, dono de redes de lojas de roupas e chefe da Câmara de Comércio e Indústria de El Salvador, disse ao jornal que a implantação sob o governo de Bukele foi apressada e não deu às empresas tempo suficiente para se prepararem para aceitar a nova demanda. Ele também disse que o governo falhou em estabelecer um regime regulatório adequado antes de lançar a legislação sobre criptomoedas.

“Se um cliente vier pagar com bitcoin, não estou pronto para atendê-lo”, disse Hasbún ao WST. “Poderíamos ter surfado na onda de uma forma positiva, mas a maneira como a lei foi imposta não foi positiva.”