Você já viu uma criança usar um marcador ou giz de cera em um celular ou iPad? Se sim, talvez você consiga imaginar como era ver crianças nos anos 1950 desenhando em cima da fantástica nova tecnologia da época: a televisão. Porém, pelo menos em alguns casos, isso não era um erro horrível. A pessoa na TV é que as mandava fazerem isso — contanto que tivessem comprado o “protetor de tela mágico”, é claro.

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Na década de 1950, a presença de TVs nos lares explodiu nos Estados Unidos. Em 1949, apenas 2% das casas americanas tinham uma televisão. Porém, em 1955, esse número era de incríveis 64%. E essa primeira onda gigante de televisões trouxe novas ideias sobre como a TV poderia ser. Uma delas foi o primeiro programa “interativo”, que, para os padrões de hoje, incluíam tecnologias bastante primitivas. As crianças eram incentivadas a desenhar diretamente na TV com giz de cera. E qual era a pegadinha? Você precisava comprar uma proteção de “tela mágica” para o seu aparelho, que era vendida pelos produtores do programa.

O programa da CBS, intitulado Winky Dink and You, foi ao ar inicialmente nas manhãs de sábado de 1953, transmitido ao vivo por cerca de 175 emissoras em todos os Estados Unidos em seu primeiro ano. Ele ficou tão popular que foi adquirido por outras emissoras e exibido também aos domingos. E o programa mostrava que a tecnologia de tela não precisava ser uma experiência passiva — contanto que você comprasse os equipamentos devidos, é claro.

“Agora, quero que vocês separem seus gizes Winky Dink”, dizia o apresentador do programa, Jack Barry, às crianças. “Um de vocês pega o preto e o vermelho, e o outro pega o amarelo e o verde.”

Barry incentivava as crianças em casa a fazer coisas como cantar palavras mágicas para se transportarem para terras diferentes no universo animado de Winky Dink. O Winky Dink era um jovem e animado personagem infantil cujas travessuras aconteciam às vezes às custas da natureza de boa fé de Barry. Um episódio que você pode ver no YouTube começa com Winky tentando pintar um retrato de Barry, mas fazendo-o recuar tanto para longe da câmera que o apresentador cai. Uma preciosidade cômica para o ano de 1955.

Barry convidava as crianças a desenhar coisas nos familiares de Winky Dink, como flores no buraco de botão da jaqueta do Tio Slim, ou um nariz completamente novo para o velho. O Tio Slim espirrava, em reação a ter seu nariz desenhado em seu rosto, como você poderia esperar. Mais uma vez, uma preciosidade cômica para as crianças da década de 1950.

GIF: Winky Dink and You/YouTube

As crianças também eram orientadas a seguir o dedo de Barry com seus gizes na “tela mágica” para criar os desenhos. As crianças que não tinham o kit do Winky Dink, que podia ser enviado depois do programa, não conseguiam ver o que o apresentador estava desenhando. Um conjunto custava US$ 1,98, aproximadamente US$ 18,60, ajustada a inflação, em 2018.

“Claro, se você não tem um kit Winky Dink, você não consegue se divertir tanto, porque você não pode desenhar com a gente”, dizia Barry às crianças em casa.

Mas e os pequenos que não tinham o “conjunto oficial” e tentavam fazer o seu próprio, com plástico PVDC e lápis de graxa? As crianças, ainda assim, compravam a ideia de que precisavam do negócio de verdade. Um relato de jornal de 1955 contava sobre como duas crianças de Dayton, Ohio, encheram sua mãe sem parar pelo conjunto oficial e ficaram “desapontados” quando gastaram sua mesada no kit e descobriram que ele não era melhor que o que haviam feito em casa.

Incríveis dois milhões de kit de tela mágica do Winky Dink foram vendidos até fevereiro de 1955. Nada mal, para dizer o mínimo.

O kit do Winky Dink pode ter sido uma farsa, mas, ainda assim, era visto como uma força educacional para o bem. Na verdade, grande parte da televisão, quando ela surgiu, era vista como uma oportunidade de educar as massas. Já na década de 1930, tecnólogos estavam empolgados com a ideia de levar a sala de aula para as casas de todo o mundo. E, nos anos 1950, os americanos não estavam calejados o bastante para acreditar que a TV era uma tecnologia passiva que não estimulava a mente.

O Winky Dink seguiu sendo transmitido até 1957 e então saiu do ar, mas houve várias tentativas de revivê-lo. Como explica o livro TV in the USA, quando tentaram trazer o programa de volta em 1969, organizações protetoras dos direitos das crianças reclamaram que as crianças não deveriam ficar sentadas tão perto dos aparelhos de televisão. Apodreceria seu cérebro, afinal. Diferentemente das redes sociais atuais, claro.

Imagem do topo: Winky Dink and You/Reprodução