A nossa espécie, o Homo sapiens, não foi a primeira de humanos a deixar a África — nem de longe. A notável descoberta de um fóssil de rinoceronte de 709 mil anos nas Filipinas mostra que os chamados humanos arcaicos estavam brincando em torno das ilhas do Sudeste Asiático 400 mil anos antes mesmo que nossa espécie sequer existisse.

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O fato de os humanos pré-modernos terem se dirigido a Luzón, a maior ilha das Filipinas, há 709 mil anos, não é um completo choque. Descobertas arqueológicas anteriores sugeriram que os primeiros seres humanos, provavelmente uma forma de Homo erectus, se estabeleceram no Sudeste Asiático entre 1,5 milhão e 1,8 milhão de anos atrás, com evidências de seres humanos arcaicos vivendo em Java e Sumatra por volta de 500 mil a 800 mil anos atrás. Evidências de ferramentas de pedra que remontam a períodos de tempo semelhantes também foram encontradas espalhadas entre os restos de presas de animais nas ilhas do Sudeste Asiático de Sulawesi e Flores.

Quanto às Filipinas, no entanto, o traço mais antigo de atividade humana veio na forma de um único osso do pé que data de “meros” 67 mil anos atrás. Porém, como novas evidências publicadas nesta quarta-feira (2) na Nature mostram, os primeiros humanos haviam chegado a essa ilha muito antes disso; Luzón é hoje a terceira maior ilha do Sudeste Asiático a abrigar os primeiros seres humanos (sendo Sulawesi e Flores as outras duas). Inacreditavelmente, esses hominídeos aventureiros conseguiram chegar à ilha cerca de 709 mil anos atrás, muito antes de os humanos anatomicamente modernos chegarem ao local, o que aconteceu não antes de 100 mil anos atrás.

O sítio de escavação (Foto: Thomas Ingicco, Mission Marche aux Philippines)

As novas evidências foram descobertas no sítio Kalinga, no Vale de Cagayan, no norte de Luzón. Uma equipe liderada por Thomas Ingicco, do Museu de História Natural de Paris, analisou as 57 ferramentas de pedra e os 400 ossos encontrados enterrados no leito rico em argila. Esses ossos pertenciam a cervos marrons, varanus, tartarugas de água doce e stegodons (um mamífero extinto semelhante a elefantes e mamutes), mas o verdadeiro prêmio foi a descoberta de um rinoceronte quase completo com sinais de abate. Treze dos ossos do rinoceronte exibiam marcas de corte, e dois ossos mostravam evidências de terem sido atingidos para liberar a preciosa medula óssea dentro deles. Usando quatro diferentes técnicas de datação, incluindo métodos de ressonância de spin eletrônico, os pesquisadores dataram os itens entre 777 mil e 631 mil anos atrás, com a data mais provável sendo 709 mil anos atrás.

Portanto, além de terem chegado até Luzón, esses humanos primitivos também tinham a habilidade e os recursos para caçar rinocerontes. Isso é incrível.

Desenho mostrando os ossos de rinoceronte descobertos (em cinza) (Ilustração: T. Ingicco et al., 2018/Nature)

“Este trabalho parece cientificamente robusto”, disse Mike Morley, arqueólogo da Universidade de Wollongong, na Austrália, que não esteve envolvido na nova pesquisa. “As ferramentas de pedra e as marcas de corte nos ossos certamente apontam para um local de açougue, com os ossos fraturados e marcados presumivelmente durante o desmembramento do animal, deixando sinais característicos dessa carnificina nos ossos; os hominins que fizeram isso permanecem desconhecidos, no entanto, já que não há ossos de hominin associados aos materiais arqueológicos e fósseis.”

Morley disse ao Gizmodo que os métodos de datação usados “parecem ser sólidos”. As datas oferecidas pelas várias técnicas estavam de acordo e foram calculadas usando os fósseis e os sedimentos em que foram recuperados, disse ele.

Essas evidências empurram para trás o período de colonização das Filipinas em centenas de milhares de anos. Além disso, mostra que as Filipinas desempenharam um papel importante em possibilitar os movimentos ao sul dos primeiros humanos, entrando em Wallacea, o arquipélago de ilhas oceânicas entre os continentes asiático e australiano. Segue sendo um mistério como esses seres humanos primitivos conseguiram realizar esses incríveis feitos migratórios.

Uma possibilidade é que a população ancestral de Luzón chegou deliberadamente, usando algum tipo de embarcação.

“Acho que isso é improvável, mas nem todos concordam”, disse Gerrit van den Bergh, coautor do novo estudo e professor da Universidade de Wollongong, ao Gizmodo. “Eu tendo a ver esses eventos de colonização humana antiga como ‘eventos malucos’ extremamente raros, [possivelmente] causados por tsunamis.” Van den Bergh apontou o tsunami do Oceano Índico de 2004 como um exemplo moderno, um desastre do qual alguns sobreviventes foram resgatados de balsas naturais depois de passar mais de uma semana à deriva no oceano. Quanto a um pequeno grupo de pessoas que chega a uma ilha e estabelece uma população, tal evento, embora raro, é possível ao longo de um período de um milhão de anos, disse ele.

Outra interpretação é que Luzón um dia foi conectada ao continente asiático por uma ponte de terra, provavelmente durante um período de baixo nível do mar, desencadeado pela Era do Gelo. Com base nas evidências existentes, no entanto, van den Bergh acredita que este é um cenário improvável.

A outra grande questão colocada por essa descoberta é a natureza da própria população ancestral e a espécie a que pertencia. Como observado, o Homo erectus já estava bem estabelecido em áreas continentais adjacentes, mas existem outras possibilidades também.

“A suposição comum seria de que os fabricantes de ferramentas no novo local eram Homo erectus, mas a descoberta dos fósseis do Homo floresiensis em Flores (as chamadas ‘espécies Hobbit‘) e evidências genômicas de ‘Denisovanos’ no continente e na ilha do Sudeste Asiático significam que não se pode ter certeza sem evidência fóssil”, disse Graeme Barker, arqueólogo da Universidade de Cambridge, ao Gizmodo. “É uma evidência importante de se adicionar a uma imagem empolgante e de rápida mudança das sucessivas dispersões humanas na região.”

Adam Brumm, arqueólogo da Universidade de Wollongong e que também não esteve envolvido no novo estudo, diz que as descobertas de Flores e Sulawesi, e agora Luzón, mostram que as primeiras formas de humanos que habitavam o mundo muito antes de nossa espécie eram capazes de atravessar grandes abismos em alto mar para chegar a ilhas remotas e isoladas — mesmo que por puro acidente.

“Não sabemos como eles fizeram isso, mas sabemos, a partir de descobertas de fósseis em Flores, que hominins que foram geneticamente isolados nesta pequena ilha de Wallacea cerca de um milhão de anos atrás sobreviveram por centenas de milhares de anos e sofreram mudanças evolucionárias bizarras e inesperadas, como diminuir drasticamente tanto o tamanho do corpo quanto do cérebro”, disse Brumm ao Gizmodo.

“Podemos esperar encontrar evidências para histórias de evolução de hominin insular similarmente longas e complicadas nas ilhas de Sulawesi e Luzón, quando os fósseis de hominins um dia estiverem disponíveis para essas regiões; mas, mais importante, em cada instância os ambientes e ecossistemas insulares são dramaticamente distintos, então não podemos prever facilmente o resultado de todas essas ‘experiências’ evolucionárias únicas em diferentes ilhas de Wallacea.”

Outra grande questão é se esses humanos arcaicos, que evoluíram por centenas de milênios em Sulawesi, Flores e Luzón, duraram o suficiente para ficar cara a cara com os primeiros humanos anatomicamente modernos a chegar a essas ilhas.

“Sabemos agora, a partir de estudos de DNA antigos, que nossa espécie cruzou com pelo menos duas — mas provavelmente mais — espécies de hominin arcaicas encontradas por humanos modernos fora da África: neandertais e denisovanos”, disse Brumm. “Poderia haver outros eventos de fluxo gênico [isto é, intercruzamento] envolvendo humanos arcaicos em Wallacea? ”

É revelador pensar que tudo isso estava acontecendo enquanto os ancestrais do Homo sapiens ainda estavam evoluindo na África. Nossa espécie pode ter chegado atrasada ao espetáculo, mas o Homo sapiens é a única espécie humana ainda viva. Mas isso não é diminuir a notável marca alcançada por esses intrépidos hominídeos, que existiram fora da África e se adaptaram a novos ambientes por mais de um milhão de anos. Como disse van den Bergh ao Gizmodo, “os seres humanos pré-modernos eram mais resistentes, móveis e adaptáveis do que poderíamos imaginar”.

[Nature]

Imagem do topo: Thomas Ingicco, Mission Marche aux Philippines