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PVC e Juca: o futebol não está louco: o país é que está doente

Em meio ao surrealismo corrente, Juca Kfouri e Paulo Vinicius Coelho debatem - acertadamente - a loucura do futebol. Mas será que o problema não é mais profundo do que isso?

Fato: a cobertura do futebol brasileiro há muito tempo deixou de ser a transmissão de um evento esportivo para se tornar uma narração surreal de uma realidade paralela. Pego duas frases de um comentário do colega Paulo Vinicius Coelho (que é o segundo melhor jornalista esportivo no Brasil que eu já conheci) que me ajudam a começar de algum lugar. “O futebol brasileiro ficou louco” e “A falência do jornalismo profissional contribui enormemente para esta loucura”. Sobre a loucura, trata-se de um simples reflexo de uma sociedade que abraçou o irracional; sobre a falência do jornalismo, é algo de que eu falo há 25 anos (e que me custou uma longa lista de desafetos…)

Vamos começar pela loucura do “atentado”: o Brasil não tem terrorismo, cuja definição “uso ilegal de violência e intimidação, especialmente contra civis, na busca de objetivos políticos, religiosos ou ideológicos”. Por isso, eu mudo a narrativa aqui e digo: não houve “atentado” nenhum contra o ônibus do Fortaleza. Houve uma tentativa de homicídio duplamente qualificado (advogados, condenem-me se eu estiver errado aqui, mas para mim os dois qualificadores são “motivo fútil” e “emboscada”. Os Beavis and Buttheads que atacaram o ônibus em Recife não têm ideologia alguma, porque provavelmente, todos juntos, jamais conseguiram ler além de um rótulo de iogurte.

Mas a loucura não para aí, né? Nossa Seleção tem a nada invejável marca de dois ex-jogadores condenados por estupro. O ex-técnico da Seleção se embananou ao ser pedido para comentar a sentença de um deles (presente entre seus 23 escolhidos para ir ao Qatar). Entre os últimos presidentes da CBF, dois têm prisão decretada pela Interpol, um que foi o único brasileiro “salvo” pelo Covid (porque poderia morrer preso nos EUA), um afastado por assédio sexual e outro deposto. Ah, sim, tem o incêndio que matou dez crianças no maior clube do Brasil e que ficou por isso mesmo?

Mas PVC, falando da falência do jornalismo, vem cá: isso é novidade? Talvez o leitor/ouvinte/espectador não conheça o que rola atrás da câmera ou microfone, mas só em 2024 nós chegamos a esse estado de coisas? Quantos “comentaristas” ou “apresentadores” têm ou tiveram programas de TV porque eram amigos de patrocinadores? Quantos outros passaram anos sem escrever uma linha nem fazer uma ligação para apurar uma notícia, e se “preparavam” para a mesa-redonda abrindo o UOL Esporte meia hora antes de entrar no ar? Em quantas redações você soube de “profissionais” que eram colegas cuja maior habilidade era contar piadas durante a cerveja com o chefe? Ou outros que davam “exclusivas” no ar que tinham acabado de ler em algum site europeu (antes que isso virasse moda)?

Mas dá para ir mais fundo: qual o percentual de chefes de redação esportiva no Brasil que são negros ou homossexuais? Quantos colegas a gente tem com algum tipo de necessidade física especial como uma cadeira de rodas? E em que planeta pode haver um ambiente mais sexista do que uma redação de um time de esportes? Ou por que a quantidade de mulheres nas redações não é de 51,5% (segundo o IBGE, o percentual de mulheres na população)?

Juca Kfouri, outro colega, com considerável mais experiência e talento (e idade 😀) do que eu também, contra-argumentou PVC dizendo que o futebol sempre foi louco. Na verdade, a observação à insanidade da Seleção é dele. Juca, você também tem razão, o futebol sempre foi louco, mas acho que é mais que isso. A irracionalidade que se manifesta aqui é só o reflexo de uma sociedade racista, homofóbica, viciada, corrupta, misógina, e que consegue se dividir entre dois lados tão ruins que o cidadão que não come alfafa precisa fazer uma escolha de Sofia na hora de votar. Tomara que mais profissionais sensacionais como vocês venham à frente para falar o óbvio ululante. Já passou da hora.

Point Blank

Homofobia é… Uma rápida história: há cerca de 10 anos, na casa de um amigo comum, conheci um apresentador da categoria acima (amigo de anunciante que virou “jornalista”). Quando eu falei que não entendia (e sigo sem entender) por que o São Paulo, que graças ao ex-volante Vampeta, é “acusado” de ser time de homossexuais, não assume isso como uma bandeira contra o preconceito e ganha uma oportunidade comercial imensa. O “jornalista” me desafiou a falar isso ao vivo. Eu topei na hora, mas só se ele assumisse a posição homofóbica dele. O papo acabou ali, com as tradicionais risadinhas de borracharia. E ele arregou, claro.

Burrice pura e simples é…um país onde simplesmente o melhor jornalista esportivo que eu conheci, Claudio Carsughi, tenha passado um segundo que seja fora do cargo mais alto possível na melhor redação de jornalismo esportivo que possa existir. O mesmo vale para Alberto Helena Júnior e outros, que não comandam redações porque algum amigo de anunciante queria brincar de jornalista.

E dizia Nelson Rodrigues…“As épocas são mais inteligentes ou menos inteligentes. Mais sóbrias ou menos nobres, românticas ou cínicas, perversas ou heróicas, etc. etc. Nos coube por fatalidade uma das épocas débeis mentais e das mais espantosas da história. Há uma debilidade mental difusa, volatizada, atmosférica. Nós a respiramos. Isso aqui e em todos os idiomas. É um fenômeno internacional tão nítido, tão profundo, que não cabe nenhuma dúvida, não cabe nenhum sofisma. E acontece, então, esta coisa nunca vista: Todos agem e reagem como imbecis. Não que o sejam, absolutamente. Muitos são inteligentes, sábios, clarividentes; e tem um nobilíssimo caráter, e uma fina sensibilidade, e uma alma de superior qualidade. Mas num mundo de débeis mentais, temos de imitá-los. Não sei se me entendem. Mas para viver, para sobreviver, para coexistir com os demais, o sujeito precisa ir ao fundo do quintal e lá enterrar todo o seu íntimo tesouro.”

Eu sei que…ficou longo, mas falar de idiotas é um assunto tão vasto que fica impossível de se fazer durante o tempo de chupar um Chica-Bon.

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