Algumas pessoas dizem que a vida é dor. Essas pessoas estão sendo otimistas: a vida não é dor, são dores, no plural – dor de dente, dor nas costas, dor de amor, a dor de ver seus pais envelhecerem e morrerem, a dor de ajustar suas expectativas de vida, dor de estômago, dor que você não consegue rastrear até uma fonte única – milhares de diferentes tipos, uma porcentagem não insignificante da qual você quase certamente irá experimentar antes da sua (provavelmente dolorosa) morte.

Mas qual dessas dores – restringindo apenas ao aspecto físico – é a pior? Para descobrir, no Giz Pergunta desta semana contatamos alguns médicos e pesquisadores da dor, cujas respostas distorceram e problematizaram o próprio conceito de dor, e a função da dor biologicamente.

David C. Yeomans

Professor Associado de Anestesiologia, Perioperatório e Medicina da Dor, Universidade de Stanford

O tipo de dor que algumas pessoas consideram a pior é algo chamado neuralgia do trigêmeo.

O nervo trigêmeo fornece toda a informação da dor da cabeça e do rosto. Se você tem dor de dente, dor no rosto, dor nos olhos, seja o que for, está passando pelo nervo trigêmeo. E o que acontece em algumas pessoas é que um vaso sanguíneo fica dilatado ou hipertrofiado, e empurra o nervo trigêmeo. Freqüentemente, os pacientes descrevem a dor resultante como sendo um relâmpago que atinge o lado do rosto.

Os ataques não duram muito tempo – talvez até dois minutos -, mas alguém pode ter cem deles em um dia, desencadeados por um estímulo muito leve: um sopro de vento frio, por exemplo, ou escovar os dentes ou fazer a barba. Na maioria das vezes, as pessoas com neuralgia do trigêmeo param de escovar os dentes por esse motivo e, assim, têm problemas com os dentes.

Especialistas em dor usam algo chamado escala numérica de dor para avaliar a dor de um paciente. A escala vai de 0 a 10, e praticamente todo mundo com neuralgia do trigêmeo avaliará sua dor como 10 – a pior dor imaginável.

É até certo ponto tratável: existe uma droga chamada tegratol que foi desenvolvida para a epilepsia e ajuda muitas pessoas, pelo menos a princípio. Mas tem efeitos colaterais que as pessoas odeiam: ela diminui seu QI e, faz você viajar um pouco e deixa você um tanto disfórico (instabilidade do humor acompanhada de mal-estar).

Há também dois tipos diferentes de cirurgias que algumas pessoas acabam fazendo. Em um deles, seus crânios são abertos e colocam um “travesseiro” entre o nervo e esse vaso sanguíneo. O alívio é geralmente imediato, mas algo como 50% dos pacientes eventualmente precisam fazê-la mais de uma vez. Ou uma radiação ionizante muito focalizada é usada nos pacientes – direcionada para um local que fica fundo do corpo, frequentemente na cabeça – e meio que cozinha o sistema. Isso geralmente ajuda também, mas demora um pouco para funcionar.

Muitas mães dirão que o parto é a pior dor que já experimentaram, e geralmente é. Mas alguém que teve um bebê, e depois uma nevralgia do trigêmeo algum momento depois, lhes dirá que a neuralgia do trigêmeo é pior.

“Praticamente todas as pessoas com neuralgia do trigêmeo avaliarão sua dor como 10 – a pior dor imaginável”.

Theodore Price

Pesquisador Responsável do Grupo de Pesquisa em Neurobiologia da PAIN e Professor de Ciências Cerebrais e Comportamentais da Universidade do Texas, Dallas

Acho que o pior tipo de dor física é o tipo que você sente que não pode controlar. Este é um enorme problema com pessoas com dor crônica intratável, como a dor muitas vezes foi originalmente o resultado de uma lesão que já foi curada há muito tempo, mas não há nenhum sinal de que a dor vai parar.

Uma maneira comum que esse tipo de dor crônica pode acontecer é quando alguém sofre um acidente de carro e quebra um membro. Essa lesão traumática também pode esmagar um nervo e a compressão nervosa causa dor neuropática. Tudo cura, mas a lesão do nervo causa uma dor neuropática que nunca se resolve.

Outro exemplo cada vez mais comum é na quimioterapia do câncer. Um paciente faz quimioterapia para o câncer e a quimioterapia mata o câncer, mas a toxicidade da quimioterapia causa uma neuropatia que não desaparece depois que a quimioterapia é encerrada. O paciente está curado de câncer, felizmente, mas fica com uma dor que queima nas mãos e pés anos após a quimioterapia.

Esse tipo de dor é devastador para a qualidade de vida e realização de funções básicas. Poucas pessoas notam que de 7 a 10% da população sofrem desse tipo de dor crônica de “alto impacto”. Infelizmente, esse tipo de dor também é extraordinariamente difícil de tratar.

“Entre 7-10% da população sofrem deste tipo de dor crônica de ‘alto impacto'”.

Mohab Ibrahim

Professor Associado de Anestesiologia e Farmacologia e Diretor da Clínica de Dor Crônica da Universidade do Arizona

Muitas pessoas, quando apontam certos critérios e não somos capazes de controlar a sua dor, se enquadram na categoria de fibromialgia. E a fibromialgia é notoriamente difícil de controlar. Não é impossível – apenas difícil. Os sintomas podem variar de pessoa para pessoa — dor difusa, principalmente, mas também depressão.

Mas do ponto de vista físico, a pior dor provavelmente é a dor sem um diagnóstico conhecido – quando você faz todos os testes e todos dão negativo.

A psicologia desempenha um papel significativo nesse tipo de dor – e os problemas psicológicos também podem se manifestar como dor. Uma maneira de tratá-la é abrir os pacientes para a ideia de que sua dor pode estar vindo de uma fonte não física. Outra é envolver a psiquiatria nos tratamentos. Mas é difícil tratar algo quando você não sabe o que tratar.

“Do ponto de vista físico, a pior dor provavelmente é a dor sem um diagnóstico conhecido”.

James McAuley

Cientista de Pesquisa Sênior e Líder de Grupo na Neuroscience Research Australia e atual presidente do grupo de dor nas costas do STREAM Health

Bem, depende de quem está sentindo. Muitas vezes, quando as pessoas pensam sobre o pior tipo de dor, esperam ouvir algo como “enfiar uma agulha embaixo da unha” – algo traumático. Esses tipos de coisas podem ser muito dolorosas, mas muitas vezes não duram muito tempo, e tendemos a medir a dor tanto pela intensidade quanto pela duração. É difícil para nós dizer que algo assim é mais doloroso do que uma dor crônica nas costas, por exemplo.

Mas tentar determinar o pior tipo de dor também depende do que pensamos ser a dor e do que pensamos ser o propósito da dor.

O propósito da dor é nos alertar sobre algo que está ameaçando nosso corpo: as células nervosas são estimuladas, e elas nos avisam que há uma ameaça para o nosso corpo, e elas alertam a medula espinhal e o sinal vai para o cérebro, e então nosso cérebro tem que interpretar isso, com base no contexto.

Alguns anos atrás, havia um mergulhador da marinha na Austrália que estava praticando mergulho no porto de Sydney, e quando ele estava vindo de um deles, ele sentiu um pedaço de madeira bater do seu lado e contra uma perna. Isso o incomodou um pouco então ele a afastou. Mas ele percebeu que não conseguia usar a sua mão. Ele pensou então que poderia não ser um pedaço de madeira. Então ele olhou para baixo e viu que toda a sua perna estava dentro da boca de um tubarão. Sua mão também estava dentro da boca do tubarão. E ele disse que uma vez que ele viu isso, ele teve a dor mais intensa que você poderia imaginar.

Suas terminações nervosas estavam gritando “perigo!” em seu cérebro, mas ele ainda não achou que tivesse sido mordido por um tubarão. Isso nos diz um pouco sobre a dor: como ela está relacionada não apenas com o que vem do seu corpo, mas com o modo como seu cérebro processa esse sinal. Se processar esse sinal como muito ameaçador, isso determinará a quantidade de dor que você sente.

A maioria das pessoas pensa que a dor nos diz sobre o que está acontecendo em nossos corpos – pessoas que têm dor nas costas, por exemplo, podem pensar que têm um disco fora do lugar ou que suas vértebras estão rachando. Mas, na verdade, a dor que eles estão sentindo é porque eles se sentem inseguros, e muitas vezes muitos desses pensamentos alimentam isso, o que piora a dor. E é onde estamos na ciência moderna da dor, em termos de pensar sobre por que as pessoas experimentam dor por um longo tempo quando ela já deveria ter desaparecido: não é que elas estejam em perigo, é que seus cérebros mudaram o processamento da informação.

“Na verdade, a dor que eles estão experimentando é porque eles se sentem inseguros, e muitas vezes muitos desses pensamentos alimentam isso o que piora a dor”.

Erin Young

Professora Assistente e Diretor Assistente do Centro de Avanço no Gerenciamento da Dor na Universidade da Escola de Enfermagem de Connecticut

Na minha opinião, o pior tipo de dor é a dor crônica. Dor aguda, digamos, de um osso quebrado ou parto, ou dor pós-cirúrgica, pode ser grave, mas a dor aguda geralmente oferece informações sobre a condição do corpo e é transitória, o que significa que quando a lesão ou dano é resolvido ela vai embora.

A dor crônica, por outro lado, é a dor que não vai embora quando a lesão é curada. É muito mais difícil de tratar do ponto de vista médico – os opióides e outras medicações tradicionais são amplamente ineficazes e a dor crônica está associada a altos índices de depressão, ansiedade e incapacidade, além da redução da qualidade de vida. A dor aguda é desagradável (até o extremo), mas a dor crônica é sofrimento.

Steven Harte

Diretor de Ciência Sensorial no Centro de Pesquisa de Dor e Fadiga Crônica da Universidade de Michigan em Ann Arbor, onde estuda os mecanismos cerebrais da dor crônica

Esta questão parece relativamente simples e direta, mas na verdade é bastante complexa e não existe uma resposta correta.

A dor é subjetiva, e como a dor é experimentada difere muito entre os indivíduos. Algo que pode ser doloroso para uma pessoa pode não ser doloroso para outra pessoa. Portanto, a resposta mais precisa para a pergunta “Qual é o pior tipo de dor física?” pode ser que dependa de para quem você pergunta.

Nós vemos essas diferenças individuais quando medimos a sensibilidade à dor em laboratório. Por exemplo, muitos indivíduos acham que imergir a mão em água gelada é muito doloroso e a retiram quase imediatamente, mas outros mantém a mão debaixo d’água por muito mais tempo.

Muitos fatores contribuem para essa variabilidade, incluindo a genética, funcionamento do sistema nervoso, história de uso de drogas e experiências dolorosas anteriores, assim como expectativas sociais e culturais. O contexto em que ocorre um evento doloroso também é crítico, pois o contexto ajuda a definir os significados e as consequências associados à dor. Por exemplo, dores de parto e dor decorrentes de um acidente traumático podem ser graves, mas o primeiro é um aspecto esperado da gravidez e tipicamente associado a um resultado positivo, tornando a dor mais tolerável e menos desagradável do que o segundo na maioria dos casos.

Diferenças individuais à parte, foram identificadas certas características que amplificam o processo da dor. A dor prolongada, inescapável e imprevisível está associada a mais sofrimento e menor qualidade de vida do que a dor que é breve, evitável e antecipada. Por essas razões, a dor crônica mal controlada, que pode durar muitos anos, como a associada à artrite ou lesão nervosa, e a dor associada à tortura, são exemplos do que muitos consideram os piores tipos de dor.