Em grande parte do mundo, o acesso ao aborto legalizado e seguro não é nenhuma garantia, e o Brasil não é exceção no tratamento precário a mulheres que, por qualquer motivo que seja, desejam interromper sua gravidez. E na ausência de procedimentos de aborto legalizados, as mulheres frequentemente colocam suas vidas em risco ao procurar clínicas que não são devidamente treinadas para isso. Algumas vezes, essas mulheres acabam mortas.

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Um novo relatório da Organização Mundial da Saúde e do Instituto Guttmacher agora quantifica o tamanho do problema representado por abortos inseguros. Dos 55,7 milhões de procedimentos realizados a cada ano, descobriu o relatório, mais de 25 milhões são considerados “inseguros”.

O relatório define duas categorias separadas de abortos inseguros. Abortos “menos seguros”, dizia o documento, são aqueles realizados por um profissional treinado, mas com um método ultrapassado, ou então um método seguro realizado por um profissional não treinado. Abortos “mais inseguros” são aqueles feitos por indivíduos sem treinamento com o uso de métodos perigosos.

Gráfico mostra proporção de abortos seguros de acordo com riqueza dos países. Mais ricos, à direita, tem maior porcentagem de procedimentos seguros

No mundo desenvolvido, 88% dos abortos são considerados seguros. Em países em desenvolvimento, no entanto, a figura é muito mais aterrorizante. Em maior parte da África e da América Latina, menos de 25% dos abortos são seguros. Em países em que o aborto ou é completamente proibido ou só legalizado quando é para proteger a saúde de uma mulher, apenas um em cada quatro procedimentos é seguro.

A OMS regularmente conduz estimativas de segurança de aborto ao redor do mundo, mas, até esse relatório, contava com uma técnica diferente, com menos nuances, para chegar a esses números. As estimativas prévias mais recentes, publicadas em 2012, descobriram que 21,6 milhões do 43,8 milhões de abortos em 2008 foram inseguros.

Para a nova análise, pesquisadores observaram dados de 182 países e regiões e então buscaram recursos como o PubMed em diferentes nações e línguas para conseguir dados de pesquisas com a população sobre a busca de cuidados para o aborto, pesquisas de profissionais de saúde e outros dados nacionais e regionais sobre aborto. A partir da revisão desses textos e de discussões com grupos de especialistas, eles então construíram um modelo estatístico para calcular as estimativas de segurança de aborto no mundo. Eles concluíram que ambos os números de abortos e de abortos inseguros cresceram.

“Dos 56 milhões de abortos que acontecem a cada ano no mundo, cerca de 25 milhões são inseguros”

O relatório, que observou abortos feitos entre 2010 e 2014, dividiu os abortos inseguros em duas categorias pela primeira vez — “menos seguros” e “mais inseguros” —, em um esforço para oferecer um cenário com mais nuances sobre os problemas enfrentados pelas mulheres que não têm acesso a serviços de aborto. Cerca de 14% caía na categoria de “menos seguros”. Mortes a partir de complicações relacionadas a um aborto inseguro foram altas em partes do mundo em que os procedimentos aconteciam em circunstâncias menos seguras, o que incluía coisas como a dependência de remédios herbais como parte do procedimento de aborto. Essas complicações incluíam abortos incompletos, hemorragia e infecções.

Se já não estava claro, o relatório destaca o quão importante é ter leis de aborto que protejam a mulher, em qualquer parte do mundo que seja. Sem acesso legal ao aborto, as mulheres ficam frequentemente limitadas à opção insegura.

Imagem do topo: Getty