Usando satélites e estações terrestres, os cientistas documentaram um raio de 2017 que foi nada menos que épico. Ele cruzou o céu de três estados no sudoeste dos EUA. Incrivelmente, os cientistas dizem que é provável a descoberta de “megaflashes” ainda maiores.

Normalmente, pensamos em relâmpagos como algo que se move na vertical, mas eles também podem se mover horizontalmente, principalmente em grandes altitudes. Uma nova pesquisa publicada na semana passada no Boletim da Sociedade Meteorológica Americana confirma que os “megaflashes” de raios são mais comuns do que imaginamos. Esses super-raios geralmente se estendem por mais de 100 quilômetros de comprimento. Foi o caso de um megaflash recorde, que se estendeu por mais de 500 quilômetros acima do Texas, Oklahoma e Kansas em 2017.

O comprimento dos relâmpagos verticais é tipicamente em torno de 6 a 10 quilômetros, com os mais altos chegando a 20 quilômetros. A “extensão horizontal de um raio dentro da nuvem, no entanto, pode ser muito mais longa, atingindo dimensões de ‘mesoescala’ em grandes sistemas de tempestades”, escreveram os autores do novo estudo, liderado por Walter Lyons da FMA Research em Fort Collins, no Colorado.

Por “mesoescala”, os autores estão se referindo a relâmpagos com mais de 100 quilômetros. E qual o comprimento máximo possível para um relâmpago horizontal? Cientificamente, isso ainda é desconhecido.

Os cientistas tomaram conhecimento pela primeira vez sobre os raios de mesoescala na década de 1950, mas foi só com a descoberta dos sprites — raios na atmosfera superior — em 1989 que os meteorologistas começaram a apreciar a natureza do fenômeno.

Sprites são flashes elétricos brilhantes que ocorrem em aglomerados em altitudes que chegam a 50 a 90 quilômetros acima da superfície da Terra. Esses flashes ocorrem em coleções organizadas de tempestades individuais, conhecidas como sistemas convectivos de mesoescala.

Nas circunstâncias certas, esses flashes podem desencadear uma reação em cadeia que se estende por vastas distâncias. Em 2007, por exemplo, os cientistas usaram dispositivos de mapeamento de raios 3D para registrar um raio de 321 quilômetros de comprimento acima de Oklahoma, um recorde na época.

Para o novo estudo, os pesquisadores procuraram entender e caracterizar melhor o maior desses megaflashes. Para esse fim, Lyons e seus colegas analisaram os dados coletados pelo Mapeador Geoestacionário de Raios (GLM) a bordo dos satélites GOES 16 e GOES 17 da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA, na sigla em inglês), lançados em 2016 e 2018, respectivamente. O GLM está fornecendo aos cientistas uma capacidade sem precedentes de rastrear grandes tempestades de grandes altitudes sobre a Terra.

Usando dados do GOES e estações de monitoramento de raios no solo, os pesquisadores descobriram que megaflashes com extensão de 100 quilômetros ou mais são realmente bastante comuns. Como mostra o novo artigo, no entanto, os maiores têm um comprimento mais extenso do que os cientistas pensavam.

Na manhã de 22 de outubro de 2017, uma linha de instabilidade, ou seja, uma série de tempestades que se formavam à frente de uma frente fria, apareceu no sudoeste dos EUA. À 1h13 da manhã no horário local, um raio apareceu acima do norte do Texas e se espalhou rapidamente na direção norte-nordeste através de Oklahoma, terminando finalmente no sudeste do Kansas. No total, o megaflash viajou mais de 500 quilômetros, iluminando uma área de 67.845 quilômetros quadrados.

Esse megaflash não foi confirmado pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), portanto, tecnicamente, não é um recorde mundial oficial. No artigo, Lyons e seus colegas disseram que é um ponto discutível, dada a forte probabilidade de megaflashes ainda mais longos naquele sistema de tempestades em particular e em outras tempestades desde então.

Além disso, dados do GOES não publicados já sugeriram um megaflash ainda mais longo — um gigante de 673 quilômetros de comprimento que apareceu sobre o Brasil e foi registrado no início deste ano.

Então, qual o tamanho dos megaflashes? Aparentemente bem grande, de acordo com a pesquisa.

“Um megaflash, uma vez iniciado, parece capaz de se propagar quase indefinidamente, desde que existam reservatórios de carga contíguos adequados [no sistema de tempestades]”, escreveram os autores. “É possível que um megaflash possa atingir 1.000 km? Não apostaríamos contra isso. Que comecem as buscas.”