Risk tinha tudo para ser um filme chato. Tudo bem, é o documentário mais recente da vencedora do Oscar Laura Poitras, mas é também sobre o WikiLeaks. A gente já não viu o suficiente sobre Julian Assange e seu quadro de deformação mundial? A questão é que você nunca viu Assange desta maneira. Você nunca o viu tão de perto, tão feio. E é exatamente por isso que você precisa ver Risk.

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*Alerta de spoiler*

Por razões pontuais, a versão específica de Risk que eu vi nesta semana não é a mesma que estreou no Festival de Cannes, em março de 2016. Essas razões incluem, mais destacadamente, o papel do WikiLeaks na eleição norte-americana de 2016 e o escândalo de má conduta sexual do ex-representante do WikiLeaks Jacob Appelbaum. Após a estreia, Poitras e companhia acrescentaram filmagens extras, tratando esses desenvolvimentos. Imagens que, acredito, tornam o filme muito mais poderoso. Tendo nunca visto a versão mostrada em Cannes, não posso dizer exatamente o que é diferente, mas posso dizer que a versão de Risk que chega aos cinemas americanos no mês que vem é fenomenal.

O filme começa com uma imagem de Assange puxando um garfo de dentro de uma garrafa com seus dentes. Ele parece um garoto bobo de fraternidade, mas tem sucesso e serve três copos. Embora inicialmente pareça que o filme vai te colocar para dormir com uma série de entrevistas, você prontamente é informado de que Poitras tem filmado Assange desde 2011, quando o WikiLeaks despejou milhares de cabos diplomáticos dos Estados Unidos na internet e abalou o estado da política internacional. Nos primeiros dez minutos do filme, Risk mostra um Julian Assange ainda não famoso, tentando falar com Hillary Clinton no telefone, para alertá-la sobre os vazamentos de 2011 (ele não consegue).

Daquele momento em diante, fica emocionalmente claro que Poitras ganhou acesso sem precedentes a Assange e a uma série de outros líderes do WikiLeaks, inclusive Jacob Appelbaum e Sarah Harrison. Por causa desse acesso, Risk se torna uma montanha-russa de tirar o fôlego, percorrendo a historia recente, das consequências da Primavera Árabe à eleição norte-americana de 2016 e tudo entre esses dois eventos. E, conforme Poitras ilustra de forma magnífica com seu estilo inspirado no cinema verdade, a história nem sempre se desenrola em protestos enormes ou com muitos holofotes. Às vezes, ela acontece em salas silenciosas, entre amigos sem noção. De acordo com Risk, é basicamente assim que as conquistas de abalar o planeta alcançadas pelo WikiLeaks aconteceram.

Por fim, o filme se torna um porta-retrato torturado de Julian Assange. Quase não há filmagens que expressem como o WikiLeaks afetou a política global, até as últimas cenas. O que recebemos, em vez disso, é uma série de cenas cuidadosamente curadas, mostrando o fundador do WikiLeaks em seus momentos mais vulneráveis: diante das acusações de assédio sexual, durante sua fuga para a embaixada equatoriana em Londres, enquanto ele apodrece na embaixada por anos, seu plano de influenciar a eleição de 2016. Também vemos os momentos escancaradamente humanos: quando Jacob Appelbaum corta o cabelo de Assange (por alguma razão), quando Assange se disfarça de um ciclista barbudo para escapar das autoridades, quando a Lady Gaga visita a embaixada (por alguma razão), quando Assange espia pela janela, procurando pelo céu. Mais uma vez, o mundo nunca viu Julian Assange dessa maneira.

Então, como é que ele parece? Bem malvado e perturbado, para ser sincero. Seu antigo tenente, Jacob Appelbaum, também não parece bonzinho. Ambos enfrentaram alegações de assédio sexual e abuso, e Risk passa um tempo considerável tratando esses escândalos, sem poupar um detalhe sequer. Próximo do fim do filme, Poitras admite que ela brevemente namorou Appelbaum em 2014 e também destaca o fato de que uma de suas amigas próximas acusou Appelbaum de abuso. Assange, enquanto isso, fala em frente à câmera sobre como ele quer silenciar as mulheres que o acusaram de assédio sexual, expondo uma linha de pensamento que o faz parecer terrivelmente culpado. As cenas, juntas com a entrevista entre Poitras e Assange, sugerem que o fundador do WikiLeaks é especialmente interessado no poder, expressando e mostrando isso àqueles próximos dele, assim como ao mundo.

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Assistir a tudo isso parece estressante, e é. O que salva o filme de se tornar uma bagunça mental deprimente é a produção muito, muito excelente. A fotografia é simplesmente linda, botando lado a lado cenas gravadas com uma câmera portátil e cenários sugestivos. As cenas dos primeiros dias do WikiLeaks acontecem em uma casa em que Assange e seus amigos estão escondidos. Conforme eles planejam o primeiro grande vazamento da organização, a câmera vira para uma árvore fora da casa que lembra uma confusão emaranhada de nós. Quando chegamos à parte sobre a derrota de Hillary Clinton nas eleições, vemos o rosto sorridente de Donald Trump em uma tela enorme, interrompido por uma rede de cabos que me fizeram pensar em fantoches. O filme tinha tudo para ser chato, mas, na verdade, te faz ficar pensativo — e é até mesmo esclarecedor.

Ainda assim, quando o título aparece na tela após a cena final, você fica imaginando uma coisa acima de tudo: por que o nome Risk? O documentário pretende expressar o risco que Assange assumiu quando decidiu criar o que o governo norte-americano agora chama de “uma agência de inteligência não-estatal”? É sobre arriscar a liberdade em nome da transparência radical? Essa parece óbvia demais.

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Talvez seja sobre Assange dando boas vindas ao poder para criar riscos expondo segredos? É quase como se Assange achasse que o mundo fosse um jogo de tabuleiro para eles e seus amigos e seus segredos roubados. Se for isso, é um jogo bem perverso o que ele está jogando.

Todas as imagens: NEON / Showtime