Se você quer gastar entre R$ 700 e R$ 1000 num smartphone desbloqueado, praticamente todas as opções são aparelhos com Android — e alguns deles são bem bons. O Lumia 620 é o Windows Phone 8 que chega para disputar terreno com os aparelhos intermediários com sistema do Google. Por R$ 899, preço em que é encontrado normalmente, ele é a opção para quem quer um sistema diferente. Vale a pena? Descubra a seguir.

Design

O Lumia 620 vem para encarar os Androids intermediários, mas a Nokia não fez questão de tentar imitá-los no design. A tela tem 3,8″, meia polegada a menos que o Motorola Razr i e o LG Optimus L7. É menos até que o recém-lançado (e inferior!) Lumia 520. É a menor tela da categoria, e isso não é ruim: acredite, 3,8 polegadas são suficientes para a maioria dos usos. A ponta do seu dedão consegue percorrer a tela toda com muita facilidade.

Ele é mais “gordinho” que os rivais, com espessura maior e altura e largura menores. Isso faz com que segurá-lo seja muito mais natural. Em smartphones fininhos e com telas maiores, sua mão precisa se ajustar, como se fosse uma pinça, com o polegar bastante esticado e próximo dos outros dedos. Isso passa longe de acontecer com o 620: sua mão fica numa posição bem mais confortável e natural. O material empregado na traseira tem um aspecto emborrachado, o que dá aderência, além de uma sensação de que ele nunca vai escorregar da sua mão (estou olhando para você, Nexus 4).

Ao contrário do unibody do irmão maior, o Lumia 920, o 620 permite que você o abra para trocar a bateria. Ou melhor, você precisa abri-lo: não há portas para microSIM ou microSD nas laterais. O chip da operadora é encaixado num suporte que, por sua vez, entra num pequeno compartimento ao lado do buraco da bateria. O microSD é um pouco menos complicado: você “só” precisa encaixá-lo num compartimento metálico, girá-lo para dentro do slot e travá-lo. Você podia ter me feito passar sem essas, Nokia.

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Mas, voltando ao fato de ele não ser um unibody: a tampa traseira é quase tudo do aparelho. Ela inclui até mesmo os três botões laterais — o de volume, o liga/desliga/trava a tela e o disparador da câmera, de duas fases, todos eles na direita (dica: não aperte os botões com a capinha fora do aparelho, eles podem travar) — e a saída de áudio. O que chama a atenção é que ela é bem espessa, o que leva a crer que tudo que falei ali em cima sobre o aparelho ser gordinho foi uma decisão consciente do design da Nokia, que poderia ter feito o Lumia 620 ainda menor, mas achou melhor ir pelo caminho contrário. Decisão acertada, na minha opinião.

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Tela

As 3,8″ mostram 800×480 pixels. É a mesma resolução de telas maiores, mas concentrada num espaço menor. A definição, como era de se esperar, é boa: só é possível ver cada pixel aproximando muito o olho da tela — e você não vai precisar fazer isso, certo? Mas não é só na resolução que ela se destaca: as cores são vibrantes também, nada lavado. O preto, no entanto, não é tão escuro quanto numa AMOLED, e isso fica bem perceptível quando você compara as bordas com o fundo do Windows Phone. O brilho, ajustado automaticamente, é intenso, o que é muito bom em locais iluminados, mas meio exagerado numa sala escura ou à meia luz.

Ele ainda tem um truque interessante: em lugares muito iluminados, como uma rua ensolarada, por exemplo, ele reforça o contraste para melhorar a legibilidade. Isso é muito legal, mas seria ainda melhor se funcionasse perfeitamente: quando uso o aparelho no ônibus, o contraste varia e as cores ficam “piscando”. O teclado alterna entre cinza-escuro e preto e não para quieto em nenhuma das duas cores. Não atrapalha, mas não é muito bacana, sabe? Seria melhor que o sistema fosse mais sensível e ativasse o recurso de maneira permanente, ou pelo menos fizesse uma transição mais gradual.

Desempenho e a triste bateria

Se você for olhar as especificações técnicas do Lumia 620, não encontrará nada de muito animador. O processador é um Snapdragon S4 Plus, dual-core com 1GHz de clock, um número mediano para a categoria. São apenas 512MB de memória RAM, a metade de um Samsung Galaxy S III Mini ou de um Motorola Razr i ou D3.

Mas não estamos aqui para falar de números. Vamos deixá-los um pouco de lado. O fato é que o Lumia 620 é rápido e o melhor de tudo: não trava. Parece que sistema operacional e hardware se dão muito bem, com cada um deles sabendo explorar o que o outro tem de melhor. Em três semanas com o telefone, não precisei nem passar perto de desligá-lo por causa de travamento uma vez sequer.

Quando um app dá problema, ele fecha e você volta para a tela inicial. Só isso. Nada de precisar tirar a bateria ou forçar um desligamento para voltar a usar. O máximo de lentidão que você encontra é uma tela de “Carregando”, por menos de dois segundos, ao abrir um app. Isso é bom: é como se o sistema falasse, “Ei, eu não travei, estou trabalhando!”. Você não fica desesperado, achando que o telefone parou. E isso não é tão frequente, logo, o sofrimento é mínimo.

Já a bateria, de apenas 1300mAh, é bem medíocre, e é o principal problema do Lumia 620: dura com algum esforço durante um dia. Minha rotina inclui sair de casa às 7h e chegar às 21h, usar o smartphone para ouvir música por cerca de uma ou duas horas e acessar e-mail e redes sociais na parte da manhã. Ele aguenta, mas chega no fim do dia já prestes a abrir o bico e desligar. Como sei que meu uso é mediano, para quem depende muito do smartphone, ele pode te deixar em apuros.

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Uma coisa que ajuda é não esquecer o telefone conectado desnecessariamente. Com wi-fi ou 3G ligados, a bateria esgota rapidamente e dura bem menos que o normal em outros smartphones. É bom você se lembrar de desligar as conexões quando não forem necessárias — as configurações do Windows Phone não ajudam isso, já que elas deixam wi-fi e 3G separados. Mas o melhor mesmo ainda é levar o cabo USB com você. Sempre.

Windows Phone 8

Vou confessar uma coisa: eu adoro a cara do Windows Phone. Gosto muito do conceito de live tiles. Esses quadradinhos ficam entre os simples atalhos e os às vezes poluídos widgets, mostrando a quantidade de informação que você deseja ter sobre um app de acordo com o tamanho da tile. Por mais que a justaposição de quadrados de diferentes tamanhos possa sugerir bagunça, acho a home screen muito mais racional e limpa que a de um Android, graças ao fundo monocromático branco ou preto e aos ícones minimalistas. As imagens animadas de algumas tiles, como a da galeria de fotos e da agenda de contatos, dão graça ao sistema.

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No entanto, o Windows Phone 8 ainda tem vários aspectos que ainda precisam ser mais desenvolvidos. O que mais me incomodou nas semanas que fiquei com o Lumia 620 foi a falta de uma central de notificações. Teoricamente, as live tiles deveriam dar conta do recado, com o quadrado de cada app mostrando suas próprias notificações. Seria lindo, mas não funciona na prática. Há apps que ignoram a existência de notificações, caso do Facebook, ou que erram na contagem, como o Twitter, que parece funcionar de modo “binário”, mostrando “1”, independentemente de qual seja o número de replies ou DMs recebidas. E, mesmo que isso funcionasse, você precisaria entrar em cada um dos apps para “zerar” o que não foi lido. No Android, a área de notificações tem um botão só para limpar e jogar tudo fora. No iOS, o processo é parecido. Tudo muito mais prático.

As toast notifications, avisos que aparecem na parte superior da tela, também apresentam problemas. Ocupam espaço demais e, assim como os contadores das live tiles, não podem ser dispensadas todas de uma vez. Toda vez que eu me conectava com o aparelho, apareciam várias, e eu tinha que ir dispensando-as uma por uma, empurrando-as com o dedo para o lado. É chato, incomoda, piora a experiência. Há de se reconhecer o empenho da Microsoft em tentar desenvolver algo diferente e não copiar os concorrentes, mas o resultado final não é muito agradável.

Outro problema são as configurações. Elas ficam desorganizadas, dispostas em uma grande lista que parece ser bem aleatória. Os atalhos para as páginas em que se liga o wi-fi e o 3G, por exemplo, estão distantes um do outro. Há apps que facilitam o trabalho, como o Connection Tiles, mas aí esbarramos na limitação das tiles: elas não são widgets. Se fossem, bastaria um toque para ligar/desligar cada uma das conexões. Como não são, elas funcionam como atalhos mesmo, levando para as respectivas páginas. Nada muito difícil, mas é uma desvantagem a se considerar.

Minha última crítica fica ao design Metro/Modern nos apps. Eles, em geral, são muito bonitos, mas os “botões extras” ficam muito próximos dos botões capacitivos do aparelho. Como não há uma divisão física, não é difícil apertar o Iniciar por engano e ir para na home screen. Além disso, quando o único botão disponível é o Configurações, a barra inferior fica pequenininha e você precisa passar o dedo para tentar alcançar o botão, que nunca dá certo de primeira. É uma questão que a Microsoft deveria rever. Como você pode reparar, há uma série de arestas que precisam ser aparadas.

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Mas há, claro, coisas muito boas. As notificações na tela de bloqueio funcionam muito bem. É possível selecionar um app principal e cinco secundários para mostrar suas novidades sobre o fundo escolhido. O principal mostra três linhas de detalhe, enquanto os secundários exibem apenas a contagem de mensagens (ou algo equivalente) não lidas. O miniplayer que aparece quando você aperta o botão de volume também é uma bela sacada, além de funcionar com apps de terceiros, como o Rdio.

Marketplace e aplicativos

É bem frustrante e chato dizer isso, mas é a verdade: o Windows Phone ainda está um passo atrás (no mínimo) do Android e do iOS em relação aos aplicativos. Sim, você encontra um pacote básico de apps para o sistema: Facebook, Twitter, Foursquare, Evernote, Endomondo, Skype (bom, ele é da Microsoft, seria estranho se ele não estivesse nessa lista), Kindle, Netflix, WhatsApp e Rdio, entre outros, têm suas versões para o sistema operacional móvel da Microsoft.

O problema, no entanto, é que quase todos eles estão num estágio de desenvolvimento anterior aos seus correspondentes nas outras plataformas. Você não consegue criar um caderno no Evernote, por exemplo. O Facebook não mostra quem está online e reserva uma seção desnecessária para as fotos — ok, no Android ele também não é nenhuma maravilha, mas é um pouquinho melhor. Fazer login no Endomondo pelo Facebook é impossível. A sincronização do Rdio para, sem mais nem menos, e deixa músicas incompletas.

Além disso, há as lacunas. Não há nenhum app próprio do Google para o sistema, por motivos bem óbvios. Você encontra algumas boas opções, como o GDocs, mas isso nem sempre acontece. Tentei usar o IM+ para acessar o Gtalk e, cara, que dor de cabeça. Primeiro o Google bloqueou o acesso do app, achando que era uma tentativa de invasão. Resolvi isso. Aí o app não funciona direito: as notificações não aparecem, mas você continua online para todo mundo — desculpa, gente, juro que não quis ignorar suas mensagens! O Google Mail também tem uns probleminhas, como deixar vazar código ao encaminhar mensagens com anexo, mas cumpre bem o básico. Se você depende muito dos serviços do Google, prepare-se para ter alguns pepinos e abacaxis no meio do caminho.

Outros apps que uso no meu Android e senti falta foram o Pocket, o Dropbox (tem o FileBox para quebrar um galho, mas ele fica longe de ter todas as funções) e o Instagram — nada que não dê para viver sem, mas isso piora um pouco a experiência com o aparelho. Uma saída pode ser apelar para outras alternativas, como salvar textos para ler mais tarde no app do Kindle ou no Evernote e trocar o Dropbox pelo SkyDrive.

Um problema é procurar apps “genéricos” quando os originais não estão disponíveis. O Marketplace não é muito diferente da Play Store em termos de funcionamento, mas a comunidade é menor. Isso faz a média de avaliações não ser tão exata. Há apps muito bons avaliados com menos de quatro estrelas.

Sim, você não leu errado: mesmo depois de tantas críticas, eu escrevi “há apps muito bons”. Porque eles existem, sim, oras! Estão lá, meio escondidos, mas estão. Há desenvolvedores fazendo um bom trabalho. Além dos já citados GDocs e FileBox, tem também o Ônibus Ao Vivo, que é bem útil para quem mora em São Paulo, além de ser muito melhor que o site Olho Vivo, da SPTrans,  e o Battery, que dá vários detalhes sobre o uso da bateria de seu smartphone e tem um live tile com a previsão de duração.

Ok, justiça seja feita: pouco disso é culpa da Microsoft. Não é ela que faz os apps, não é ela que tem que correr atrás disso. Ela precisa atrair mais desenvolvedores, claro, mas isso só acontecerá se o sistema operacional vingar mesmo — devs querem que seus apps estejam em muitos aparelhos, e o cenário ainda não é o ideal para focar no WP. E é algo que você tem que levar em conta: eu terei tudo o que eu quero no meu smartphone? A experiência será completa? A resposta, por enquanto, ainda é não.

Câmera

A câmera do Lumia 620 tem modestos 5 megapixels, se comparados aos 8MP dos concorrentes da Motorola. O posicionamento é ruim: se você segura o aparelho em modo retrato com os quatro dedos na traseira do smartphone, a lente fica encoberta, e é bem desajeitado segurá-lo com um dedo a menos — uma desvantagem de ser pequeno.

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O botão de disparo tem duas fases. É meio difícil distinguir cada uma das fases. No começo, mal dá para perceber que você está acionando o foco, mas, depois de algum tempo, você pega o jeito.

A interface é simples e intuitiva: toque na tela para focalizar um ponto e disparar ou passe o dedo da esquerda para a direita para acessar a galeria. Há ainda quatro opções rápidas: modo vídeo, câmera frontal, ligar/desligar o flash e usar os aplicativos inteligentes. Além disso, as reticências das configurações estão ali para você acessar mais opções de foto e vídeo, como ISO, valor exposição, equilíbrio de branco e proporções.

As imagens têm qualidade razoável. A nitidez é boa, mas a câmera parece não se dar muito bem com situações em que a luminosidade é muito alta ou muito baixa. O segundo caso era até esperado — quase toda câmera de celular não é boa para tirar fotos à noite —, mas o primeiro foi uma surpresa. Várias regiões das imagens ficam claras demais.

Áudio

O Lumia 620 não tem nenhum apelo especial para audiófilos ou fãs de música, mas cumpre muito bem as expectativas de quem quer utilizar o smartphone para ouvir seus discos preferidos. A potência de saída é razoável. O destaque fica por conta das configurações de áudio do sistema: há suporte a sistemas Dolby 5.1, além de nivelamento de áudio — para você não precisar ficar mudando o volume para ouvir as faixas que estão mais baixas — e equalizador com várias opções pré-definidas. É realmente bom ter isso de forma nativa no sistema, pois garante que a sonoridade será a mesma, independente do app ou serviço de streaming utilizado. Os fones de ouvido que acompanham o aparelho têm uma qualidade um pouco melhor em relação ao modelo que vinha com os antigos Lumia, mas a aparência genérica de produto barato continua a mesma.

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O aparelho vem com dois apps para música: o Nokia Música e o Xbox Música+Vídeo, cada um deles para seu respectivo serviço de streaming (Nokia Music e Xbox Music), mas com possibilidade de reproduzir os arquivos colocados na memória do telefone ou no cartão microSD. Os aplicativos são muito parecidos: apenas detalhes na interface, como uma lista “em execução” no Nokia Música ou um live tile mais caprichado no Xbox Música+Vídeo. Usei bastante o segundo e posso dizer que é um ótimo player de música, melhor que muitos apps do Android, apesar de alguns problemas, como separar o mesmo disco em dois por causa de maiúsculas e minúsculas — juro que minhas tags estão organizadas! — e pular pra segunda faixa quando você dá play em alguns álbuns.

Vale a pena?

Por R$899, o Lumia 620 surge como uma alternativa muito interessante para quem cansou do Android ou está saindo agora dos dumbphones/featurephones. Ele oferece bom desempenho, fluidez e uma belíssima tela, mas cobra isso na oferta de aplicativos. A câmera e principalmente a bateria poderiam ser melhores. E ele parece não ter chegado no momento certo: há novos aparelhos na mesma faixa de preço, como o Motorola Razr D3, que o superam em vários sentidos — de performance à bateria. E, para completar, o 620 acabará tendo uma disputa interna: com o Lumia 520 tendo uma tela maior (e pequenas mudanças de hardware, algo que o usuário médio jamais usará como fator decisivo de compra) e custando R$200 a menos, é difícil acreditar no sucesso do Lumia 620, mesmo cumprindo um papel digno.

No fim, comprar o Lumia 620 depende de alguns esforços por parte do usário: se você tem paciência para vasculhar o Marketplace até achar opções que te satisfaçam, não tem problemas em se adaptar ao que está disponível ou simplesmente não faz questão de ter muitos apps, vá em frente: o Lumia 620 é um ótimo aparelho. Caso contrário, um mid-end com sistema operacional do Google ainda é a melhor opção.