O Rio de Janeiro está passando por uma série de mudanças, construindo estádios, habitação e estradas para sediar a Copa do Mundo em junho, e as Olimpíadas em 2016. Mas, no processo, a cidade está descobrindo relíquias de seu passado, que remontam à época na qual ela era o porto de escravos mais movimentado das Américas.

O Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão. E o Rio importou 1,8 milhão de escravos até o final do século XIX, muitos para trabalhar na produção de açúcar e mineração de ouro. Mas nos últimos anos, como nota o New York Times, equipes de construção estão encontrando de tudo sobre esse passado, de ossos a canhões.

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A construção da Vila Olímpica. AP Photo/Silvia Izquierdo.

A Zona Portuária do Rio virou um grande canteiro de obras, onde há o famoso caso do Cemitério dos Pretos Novos. A empresária Ana Maria de la Merced Guimarães comprou um imóvel no local e, durante uma reforma em 1996, encontrou ossos e arcadas dentárias humanas. “Pensei em uma chacina, que alguém havia matado a própria família”, diz ela à Agência Brasil.

Na verdade, era um antigo cemitério criado em 1769 e extinto em 1830. Nele, foram enterrados os 20.000 escravos que morreram antes mesmo de poderem trabalhar. Até então, o cemitério tinha sido completamente esquecido; com a descoberta, Merced fundou em 2005 o Instituto de Pesquisa e Memória dos Pretos Novos.

Em 2011, durante as obras de revitalização da Zona Portuária, funcionários da prefeitura carioca encontraram vestígios do Cais do Valongo, o maior porto de chegada de escravos do mundo. Ele foi construído pouco depois que Dom João VI passou a comandar seu império a partir do Brasil, e funcionou até 1831. No ano passado, ele foi declarado patrimônio da humanidade pela Unesco.

Em 2013, durante as obras para expansão do metrô do Rio, arqueólogos descobriram mais de 200 mil artefatos – incluindo a escova de dentes do imperador Pedro II. Escavações mais profundas trouxeram objetos que datam até do século XVII. Este pode ser um dos maiores achados arqueológicos do Brasil, mas as escavações terão que esperar três anos, até as obras do metrô terminarem.

As autoridades não estão fazendo muito. A prefeitura do Rio ajuda pouco o Instituto de Pesquisa e Memória dos Pretos Novos. No Cais do Valongo, a prefeitura instalou placas com informações sobre o passado escravista do local. Como lembra o NYT, estudiosos e ativistas acreditam que isso é algo muito tímido.

Claudio Prado de Mello

O arqueólogo Cláudio Prado de Mello limpa um prato de porcelana parcialmente recuperado em uma área de expansão do metrô carioca. AP Photo/Silvia Izquierdo.

À medida que construtoras transformam o Rio em uma sede para os Jogos Olímpicos, muitos arqueólogos e urbanistas se questionam: a cidade está ignorando não só o seu passado, como escavações arqueológicas inestimáveis?

Alguns argumentam que sítios arqueológicos devem se transformar em museus para lembrar o passado turbulento do país. A ideia é seguir exemplos como o Museu Internacional da Escravidão em Liverpool, Reino Unido, ou o Museu do Antigo Mercado de Escravos em Gana, África.

“Os arqueólogos estão expondo as bases de nossa sociedade desigual, enquanto nós assistimos a uma tentativa perversa de refazer a cidade em algo semelhante a Miami ou Dubai”, diz o arquiteto e urbanista Cláudio Lima Castro. Por enquanto, parece que as autoridades não estão muito dispostas a revisitar essa parte da nossa história.

O Rio terá que manter um equilíbrio entre tratar seu passado com a dignidade que merece, e satisfazer as expectativas de uma cidade-sede das Olimpíadas. Faltando apenas dois anos para os Jogos, eles precisam agir rápido. [New York Times]

Imagem inicial: A construção continua em um novo sistema de túneis de 4 km para automóveis abaixo da zona portuária. Mario Tama/Getty Images.