Olhe onde pisa, Philae. O 67P, cometa em que pousamos uma sonda no ano passado, está aparentemente cheio de buracos. E conforme a gigante bola de gelo e poeira caminha em direção ao Sol, a superfície dela continua a se transformar.

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Essa é a mais nova descoberta a ser enviada para a Terra pela espaçonave Rosetta, da Agência Espacial Europeia, que está no Cometa 67P desde agosto de 2014. E baseados nas novas imagens, os cientistas responsáveis pela sonda concluem que uma série de fossos identificados na superfície do cometa são na verdade enormes buracos que atingem centenas a milhares de metros de diâmetro. E alguns deles continuam a aumentar com o passar do tempo.

“Estes estranhos fossos circulares são tão profundos quanto largos”, diz Dennis Bodewits, astrônomo da Universidade de Maryland e coautor de um novo estudo sobre o cometa a ser publicado em breve na Nature. “A Rosetta pode ver por dentro deles”.

Assim que a Rosetta chegou ao cometa no ano passado, astrônomos notaram fossos circulares na superfície de gelo. Desde então, a espaçonave se aproximou dez vezes mais da órbita, de uma distância de 100 km para 10 km. Isso permitiu aos cientistas registrar uma série de imagens em alta resolução da superfície, usando a câmera de sistema ótico, espectroscópico e infravermelho da Rosetta.

A câmera usa detectores CCD semelhantes aos encontrados em câmeras digitais e smartphones, mas faz uso de espelhos em vez de lentes para obter um alcance espectral muito maior do que é visto pelo olho humano. As imagens digitais registradas entre julho e dezembro de 2014 revelam novas informações sobre o cometa, incluindo ondulações e dunas em mais de cem regiões de gelo exposto – e agora, 18 grandes buracos.

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Sumidouros largos e profundos como estes nunca foram vistos em cometas antes, mas podemos supor como eles são formados de forma parecida aos buracos que temos no nosso planeta. Na Terra, sumidouros – também conhecidos como ravinas ou voçorocas – são formados quando erosões abaixo da superfície criam espaços ocos, eventualmente causando um colapso na camada sobreposta.

De forma semelhante no 67P, os pesquisadores acreditam que uma fonte de calor no interior do cometa pode estar vaporizando o gelo abaixo da superfície dele, criando fossos que acabam colapsando com o próprio peso. A energia do Sol também ajuda nisso.

Uma vez formado o sumidouro, o gelo no interior do cometa é exposto à luz direta do Sol, fazendo com que ele comece a se sublimar de forma ainda mais rápida. Inclusive, astrônomos do Rosetta já observaram jatos de vapor saindo de dentro de alguns dos fossos mais profundos, o que sustenta a ideia que a estrutura do cometa está em evolução.

Algumas perguntas seguem em aberto, incluindo a natureza exata da fonte de calor no núcleo do cometa, e se o 67P continuará a se deformar conforme ele se aproxima cada vez mais do Sol (o cometa chega ao periélio, ou o ponto mais próximo do sol, em 13 de agosto). Mas isso muda a percepção de que cometas são apenas grandes pedaços de detrito, voando pelo espaço até se desintegrarem ou se chocarem contra algo. [University of Maryland]

Imagens: Vincent et al., Nature Publishing Group; e ESA/Rosetta/MPS