Faz pouco mais de um ano que o Grooveshark, o serviço de streaming que habitava a fronteira da legalidade com a pirataria descarada, virou fumaça. Em 30 de abril de 2015, os visitantes do serviço se depararam com a seguinte mensagem no site:

“Caros fãs da música,

Hoje estamos fechando o Grooveshark.

Nós começamos há quase dez anos com o objetivo de ajudar os fãs a compartilhar e descobrir música. Mas, apesar das melhores intenções, nós cometemos erros muito graves. Nós não conseguimos garantir o licenciamento de titulares de direitos autorais para grande quantidade das músicas no serviço.

Isso foi errado. Pedimos desculpas. Sem ressalvas.”

Mesmo assim, o domínio do serviço, grooveshark.com, continua ativo. Pena que o que rola por lá não seja tão divertido assim. Agora, no endereço funciona um serviço de vendas de ingressos de shows e eventos esportivos chamado “ScoreBig”, que tenta tirar proveito da popularidade do finado site de música. Visitantes perdidos e órfãos do Grooveshark são saudados com um banner que diz: “Uma nova oferta para os ouvintes do Grooveshark”. Em seguida, aparece uma mensagem que diz:

“Em abril de 2015, o serviço de streaming Grooveshark foi fechado. A ScoreBig surgiu para ajudar o público do Grooveshark a continuar tendo acesso a música nova.”

A nova dona do domínio vem recebendo aportes financeiros desde 2009, ano de sua fundação. Foram recebidos pelos menos US$ 50 milhões nos últimos sete anos. No ano passado, a ScoreBig iniciou uma parceria com a Ticket Master para a comercialização de ingressos.

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O curioso disso tudo é que a companhia não é detentora do domínio. O dono do “grooveshark.com” é o Universal Music Group, o conglomerado da indústria fonográfica que ajudou a afundar o Grooveshark. Quando fechou, o serviço de streaming poderia ser condenado a pagar US$ 736 milhões ao UMG.

Entramos em contato com a ScoreBig para tentar entender detalhes desse negócio com o UMG. Queríamos saber o quanto eles pagavam pela locação do domínio, até quando vai a parceria, o motivo pela locação do domínio e se isso tinha atraído mais clientes para a empresa. Tivemos a seguinte resposta:

“O Grooveshark tinha apelo a grandes fãs de músicas. A ScoreBig que ter apelo junto a esses mesmos fãs com descontos nos melhores shows ao vivo. Então, já que o Grooveshark não existe mais, a ScoreBig vem trabalhando com o UMG desde a metade de 2015 para permitir que seus fãs encontrem seus artistas favoritos e economize em ingressos para assistí-los ao vivo. Por conta de nossa política interna, não podemos revelar informações adicionais a respeito de nossas finanças e clientes”.

Faz sentido a empresa tentar capitalizar as migalhas do Grooveshark. Quando foi fechado, o serviço tinha uma base de 35 milhões de usuários.

Além disso, outros serviços piratas de streaming tentam tirar proveito da fama do site. Logo após o fechamento do Grooveshark, um clone mal feito surgiu. Mas foi enquadrado rapidamente e, em dezembro do ano passado, o seu dono condenado a pagar US$ 17 milhões para a indústria fonográfica.

Porém, a guerra dos clones não acabou. Descobrimos essas outras cópias: groovesharks.org e groovemp3.com. Os sites utilizam as cores (o laranjão) e interfaces bem parecida com a do verdadeiro Grooveshark. Até o logo é utilizado no segundo site!

groovemp3

No segundo caso também notamos que eles mantêm um sistema espertalhão para transmitir as músicas. Em vez de ter um banco de dados próprio, ele pesca as músicas diretamente no YouTube. Ou seja, na pior das hipóteses, eles podem afirmar que apenas retransmitem conteúdo do site do Google. Tentamos contato com os donos dos sites, mas não tivemos resposta.

Filhos do Tubarão

E o que aconteceu com a galera que fazia o Grooveshark existir? O caso mais emblemático foi de Josh Greenberg, um dos cofundadores do serviço, que foi encontrado morto aos 28 anos, um pouco depois de a plataforma ser fechada. Tudo indica que a causa foi um suicídio. Os amigos ainda lembram dele no “Dia do Josh Greenberg”, um evento que ocorre no dia 18 de abril (data de seu aniversário).

O outro cofundador do Grooveshark, Sam Tarantino, entrou em modo silencioso. Ele participou de palestras e debates e agora está trabalhando em outro serviço de música, o Chromatic. O serviço ainda não está disponível, mas é possível cadastrar o email para receber notícias. Não temos ideia de como o Chromatic vai funcionar e nem se terá alguma conexão com aquilo que o Grooveshark fazia. A única coisa que diz é que a plataforma ajudará os usuários a descobrirem músicas novas.

Fizemos contato, mas, como é praxe quando um serviço ainda está em desenvolvimento, ninguém respondeu.

Enquanto isso, um grupo de ex-funcionários lançou no mês passado uma nova empresa: a Admiral. A companhia oferece um serviço de dados e análise para empresas afetadas por bloqueadores de propaganda na internet, como jornais e sites de notícia. A startup recebeu um aporte de US$ 2,5 milhões em investimentos.

Foto por Connie Ma/Flickr