Você já sabe: nesta sexta-feira (5), começam as Olimpíadas. E não se trata apenas do maior evento esportivo do mundo. É também o começo do maior esquema de segurança da história do Brasil – afinal, as nossas autoridades, que não garantem a paz de quem vive por aqui, querem evitar um desastre com os holofotes globais apontados para elas.

Falta de limites sobre balões vigilantes nas Olimpíadas põe privacidade da população em xeque
Como os atletas olímpicos vão sobreviver ao nadar nas águas sujas do Rio de Janeiro

Serão mais de 50 mil membros de forças militares trabalhando até o final das Paraolímpiadas em 18 de setembro. Muitos deles terão a ajuda de equipamentos sofisticados, o que transforma os jogos numa espécie de feira CES militar, um evento gigante cheio de gadgets impensáveis. Há, porém, uma diferença fundamental: as demonstrações não podem falhar. Por isso, tentamos conhecer alguns desses aparelhos e sistemas que prometem nos proteger.

Não, não vamos falar de armas de fogo ou veículos de guerra. Parte dos investimentos nacionais foram dedicados a equipamentos de prevenção, o que, muitas vezes significa que essas ferramentas são usadas no monitoramento de pessoas e situações.

Satélites e balões

A primeira camada de proteção ficará no alto. Bem alto. O Brasil firmou um contrato com Israel para que o satélite de altitude baixa Eros B possa monitorar a cidade. Durante os jogos, ele ficará a cerca de 450 km do chão, transmitindo imagens para os centros de monitoramento no Rio e em Brasília. Segundo o Exército, o satélite é capaz de oferecer “visão clara” de qualquer objeto que esteja a 50 cm do chão e de outros objetos.

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Vista aérea do Parque Olímpico no Rio de Janeiro. Crédito: Divulgação

Ainda que não consiga oferecer ricos detalhes de uma pessoa ou de um veículo, a ideia do satélite é que ele possa observar o plano geral da cidade para permitir a coordenação de outras ações. Por exemplo, o satélite pode detectar um veículo suspeito perto do Maracanã, o que permitiria o centro de operações a ativar todas as câmeras de rua na região. Com 2,3 metros de altura e 1,2 metro de diâmetro, o Eros B está em órbita desde 2006. Diariamente, o bichão dá duas voltas na órbita da Terra.

Ele permanecerá sobre o Brasil por seis meses. Depois dos jogos, será deslocado para o monitoramento de fronteiras, o que deve ajudar ações da Polícia Federal e da Receita.

Um pouco mais baixo, mas ainda sobre nossas cabeças, estarão quatro balões de monitoramento desenvolvidos pela Altave, de São José dos Campos (SP). Os quatro carregarão um sistema de câmeras de alta definição desenvolvido pelo exército americano e também pela americana Logos Technologies. O sistema, batizado de Simera, carrega 13 câmeras com 120 megapixels de definição, capazes de oferecer detalhes em uma área de 40 km².

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Balão desenvolvido pela Altave. Crédito: Divulgação

A Logos descreve o sistema como uma espécie de “Google Earth ao vivo com TiVo” e já foi testado no Iraque e no Afeganistão. O Rio de Janeiro será a primeira cidade a receber o sistema num contexto “civil”, fora de uma zona de guerra. Mesmo assim, já que o Rio é o Rio, a Altave realizou testes de resistência com os balões nos quais eles tomaram 39 tiros sem explodir. O teste foi feito pensando nas balas dos traficantes cariocas.

Os balões ficaram a duzentos metros do chão, terão custo de R$ 23,1 milhões ao estado do Rio de Janeiro e permanecerão na cidade após os jogos olímpicos.

Em Santiago (Chile), balões do tipo foram banidos pela justiça por violação de privacidade. A ONG Derechos Digitales, autora da ação, diz: “o Rio pode aprender algumas lições, como a de que tecnologia militar não deveria ser usada em cidades e áreas populosas”. Mas, segundo Vladimir Garay, que tocou a ação, em eventos esportivos específicos e de curta duração, os balões não são um problema. “É o uso permanente e desregulado que nunca deveria ser permitido”, diz ele.

Enquanto isso, o Rio de Janeiro importou outras tecnologias para trabalhar com o grande volume de dados gerado pelas câmeras. A cidade contará com um software da israelense BriefCam, que consegue comprimir 24 horas de filmagens em apenas um minuto. O programa deverá ser útil caso os oficiais tenham que rever muitas horas registradas por diferentes câmeras.

Além de comprimir vídeos, a solução captura as imagens e estabelece espécie de tags. Imagine que a polícia necessite buscar por um carro vermelho em uma rodovia. O software conseguirá filtrar os veículos que passaram pelo local e ainda informar o horário que cada um passou.

Biometria e bloqueadores de frequência

Nos aeroportos, um software desenvolvido pela Polícia Federal deverá barrar criminosos estrangeiros. Antes de passar pelo passaporte, qualquer gringo que pisar no Brasil terá de checar a sua digital junto ao programa, que então analisa um banco de dados com 25 mil nomes com problemas junto a Interpol. Em três segundos, será possível saber. Na semana passada, um cidadão inglês procurado por crimes financeiros no Catar foi deportado do aeroporto de Guarulhos.

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Sistema de biometria ligado à Interpol é exibido por agente federal. Crédito: Marcelo Vasconcelos/Portal Brasil

Já o exército recebeu autorização da Anatel (Agência Nacional das Telecomunicações) para utilizar bloqueadores de frequência durante os jogos. A ideia é proteger os eventos de drones intrusos – os voos dos equipamentos no Rio já haviam sido proibidos pela Anac e pelo Decea. Assim, o exército comprou oito bloqueadores modelo SCE 0100-D da empresa IACIT ao custo de R$ 448.228,50. Detalhe: se esses bichinhos forem acionados, todo mundo fica sem celular na região. Por conta disso, há temores de que os aparelhos sejam utilizados em outras situações fora dos jogos, como protestos e manifestações públicas. Veremos.

O exército vai trabalhar também junto com a CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear) na detecção de ameaças químicas, biológicas, radiológica e nucleares. Equipes com sensores e detectores poderão identificar à distância material potencialmente perigoso para arenas e centros de treinamentos. Mesmo que as ameaças estejam enterradas, elas poderão ser encontradas. Os equipamentos foram importados dos EUA, Japão, Itália, Alemanha e Israel.

Em casos de situações de emergência, em que as comunicações são cortadas, o Centro de Operações (COR) da prefeitura do Rio terá apoio de uma unidade móvel criada pela Cisco. O caminhão permite conexão à rádio ou satélite diretamente com o COR, além de oferecer conexões Wi-Fi onde o veículo estiver parado. Isso poderá ser feito em qualquer ponto da cidade. O equipamento foi desenvolvido após o furacão Katrina em 2005, segundo a Cisco.

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Centro de operações do Rio de Janeiro. Crédito: Tomaz Silva/Agência Brasil

Robôs

Claro, quando se fala em tecnologia militar, os robôs não poderiam estar de fora. Um deles é o iRobit, um robô antibomba fabricado nos EUA que atuará com o Esquadrão Antibomba da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), da Polícia Civil. O bichão tem uma câmera acoplada em sua parte superior e sensores para detectar materiais explosivos. Ele também consegue remover os artefatos e até desativar bombas com jatos de água. O iRobit já foi usado na Copa do Mundo e foi doado pelo Ministério da Justiça ao estado do Rio de Janeiro.

Robô antibomba iRobot. Crédito: Marcelo Horn

Outro robozinho está nas mãos do BOPE. Trata-se de um minirrobô-câmera, que serve para invadir locais em momentos de ameaça. Ele parece um carrinho de controle remoto com capacidades de filmagem de um drone.

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Robô utilizado pelo BOPE no Rio de Janeiro. Crédito: Governo do RJ

A compra do equipamento também foi feita para a Copa e o documento de abertura de licitação dá uma ideia sobre as especificações: iluminação infravermelha (para ambientes de escuridão total), resistência a impacto (pode ser arremessado com força de 1.500G), sempre pousa sobre suas duas rodas, câmera em preto e branco de baixa luminosidade, estrutura de titânio e rodas de uretano fundido, dimensões: 200mm (8″) x 180mm (7,3″) x 114mm (4,5″), peso de 530g, diâmetro das rodas de 76mm e autonomia de 60 minutos. Veja a ficha completa aqui.

Com tudo isso em mãos, é esperar as forças de segurança trabalhem tão bem quanto os atletas – e que o Rio de Janeiro permaneça seguro depois dos jogos também. A ver.

Foto do topo por Felipe Dana/AP