Com o status dos Estados Unidos como uma superpotência tecnológica vem a tendência a ocasionalmente ignorar o resto do mundo. De LaserDiscs e MiniDiscs japoneses a telefones da Nokia, passando pela preferência do ridículo AIM em detrimento do MSN, às vezes os americanos parecem curtir ficar atrás tecnologicamente – ou apostar em outras soluções bizarras.  Para o bem ou para o mal, eis algumas tecnologias das quais o Tio Sam não sentiu falta.

[Pedro Burgoso texto foi ligeiramente adaptado para fazer mais sentido; para que nós, brasileiros, que usamos urnas eletrônicas superiores E o MSN, pudéssemos entender esse povo primitivo.]

Laserdiscs

O fim da produção de reprodutores de Laserdiscs há pouco mais de um mês não foi um grande acontecimento. Quero dizer, à parte a incitação de uma pequena nostalgia e a irritação de um ou três “hobbistas”, o evento não foi muito notável. Para os norte-americanos. Acontece que os Laserdiscs eram muito mais populares no Japão do que nos EUA durante o seu auge – cerca de 500% mais popular.

Por quê? O sucesso japonês do Laserdisc (ou Videodisc, como eles foram comercializados lá) explica-se por duas coisas: dinheiro e anime. Desde o lançamento, os preços do Laserdisc eram mais baixos no Japão do que na maioria dos outros mercados, o que acelerou sua adoção. Fãs de animes apreciaram a fidelidade aperfeiçoada do formato, o que impulsionou as vendas na época e eventualmente levou a um mercado ainda ativo de LD de segunda mão. Reprodutores de Laserdisc, embora não sejam mais produzidos, continuam a ser vendidos em lojas de Akihabara e outros lugares. Em uma Best Buy? Nada.

Telefones da Nokia

Quando a Nokia faz algo interessante, o Gizmodo US noticia. Fora isso, nos EUA a empresa existe em um estranho mundo inferior de reconhecimento de nome ultra-alto e relevância quase infinitésima. Para a maioria dos norte-americanos, a Nokia parece uma fabricante de telefones baratos. Para a maioria do resto do mundo, ela é a rainha inconteste dos telefones celulares, e não apenas no nome – ela é, de longe, a maior fabricante de handsets do planeta. Ela literalmente acaba com seus rivais, vendendo o dobro do volume de seu competidor mais próximo, a Samsung.

Os números: a Nokia vendeu 113 milhões de dispositivos móveis no último trimestre, o handset de entrada 1100 tem mais de 200 milhões de unidades vendidas, e em dado momento o N95, um handset precoce e desajeitado que faz de tudo, ficou no topo da lista de telefones móveis mais vendidos no Reino Unido. Onde ficam os Estados Unidos no meio disso tudo? Desses 113 milhões de dispositivos móveis vendidos no último trimestre, apenas cinco milhões tiveram como caminho a América do Norte. A Nokia é o equivalente da BBC em gadget – a maioria dos norte-americanos a conhece, mas o resto do mundo depende dela.

TV móvel

Não estou falando dos serviços caros de vídeo-por-3G pixelado daqui. Não, refiro-me à TV digital desenvolvida transmitida direto para seu handset, PC ou PMP. O Brasil tem isso, a Coréia do Sul tem isso e, claro, o Japão também. A tecnologia usada no Japão e no Brasil é conhecida por 1seg, e ela transmite por UHF, junto com o conteúdo HD regular. No Japão, mais de dois terços dos novos telefones móveis têm suporte ao padrão, que é parte da vida diária de muita gente. Nos EUA, ela é basicamente desconhecida.

O DMB é um padrão alternativo, voltado a um público bem maior. Desenvolvido na Coréia do Sul, as versões por satélite e terrestre da tecnologia (S-DMB e T-DMB, respectivamente) já estão em uso difundido por lá, e o T-DMB está sendo preparado para boa parte da Europa Ocidental – experimentos aparentemente têm se saído bem. Infelizmente para os norte-americanos, as bandas VHF e UHF utilizadas pelo padrão T-DMB já foram reivindicadas por programação de TV pré-existentes e pelos militares, então eles não devem esperar ver TV terrestre em telefones da AT&T ou da Verizon em breve. Alguns aparelhos têm suporte ao serviço pay-for-play MediaFlo, que ninguém usa.

Osaifu-Keitai ou “seu telefone é sua carteira”

Em grande parte do mundo, incluindo os EUA, sistemas de pagamento móvel têm sido ignorados ou abandonados após inícios vacilantes. Não no Japão (se você já percebeu uma tendência aqui, bom trabalho!). Osaifu-Keitai, o padrão de e-wallet (e-carteira) adotado pelos pesos-pesados japoneses de telecomunicação NTT DoCoMo, SoftBank e au, essencialmente tornam as carteiras obsoletas. Telefones equipados com Osaifu-Keitai podem ser recarregados com dinheiro, baixar tíquetes para qualquer coisa – de evento esportivo a viagem de avião –, servir como identificação oficial e ser linkados a um cartão de crédito.

Devido a incertezas sobre a demanda por um serviço desse tipo e muita red tape (fita vermelha; termo usado para se referir a burocracia, regulação excessiva etc.), nenhum padrão comparável emergiu nos Estados Unidos, e isso é uma vergonha: se você pode chegar a um acordo sobre nebulosas questões de privacidade associadas com o porte de tantas informações privadas em um dispositivo fácil de perder, ele parece ser o tipo simples, óbvio e fundamentalmente bom de progresso tecnológico que é provavelmente, com ou sem o nosso consentimento, inevitável.

Troca de mensagens instantâneas de próxima geração

A AOL (ênfase no A), com o peso dos velhos estereótipos de usuários “tectardados” e da persistente associação com geriatria e filmes da Meg Ryan do final dos anos 90, não tem a melhor imagem pública. Mas ela continua com a plataforma de messaging mais popular dos EUA! O AIM, embora seja um vestígio de um serviço com o qual a empresa já não se importa muito, é o padrão de facto para troca de mensagens nos EUA (e em Israel, estranhamente). Como nós já vimos, porém, isso nem sempre significa muito.

Globalmente, os números do AIM/ICQ/iChat são sobrepujados massivamente pelos do MSN – ou Windows Live, como ele tem sido chamado nos últimos anos. Na China, o maior mercado de IM, a maioria das pessoas não liga para nenhum desses, optando pelo serviço Tencent QQ.  Os dois nasceram sólidos cinco anos depois do AIM, mas seus recursos extras – basicamente add-ons para mensagens voltados a atrair o pessoal mais jovem – são de utilidade questionável. Não é que persistir com o AIM tenha deixado os norte-americanos com um serviço inferior, é mais o fato de isso ter isolado-os, de uma maneira pequena, do resto do mundo do messaging.

MiniDisc

A história do MiniDisco sintetiza o regionalismo tecnológico: um competidor sólido e capaz para o domínio do formato de áudio regravável, o MD foi recebido com entusiasmo no Japão. Ele era extremamente avançado para o seu tempo, fornecendo qualidade de áudio fantástica, semelhante à do CD, com capacidades de gravação como as de uma fita cassete, tudo em um pacote mais portátil do que qualquer um desses formatos. Embora tenha sido introduzido no começo dos anos 90, o formato se sustentou bem contra a primeira geração de tocadores de MP3, que, com suas capacidades limitadas, poucos recursos e altos preços, não forneciam bem uma vantagem perceptível sobre as veneráveis unidades de MD. A Sony tinha um produto sólido – e até meio que um hit – em suas mãos.

Ao menos, isso é o que ocorreu em Tóquio. Apesar dos melhores esforços da Sony – e o que parecia uma linha sem fim de renovações de produto – o MiniDisc nunca foi mais do que um tocador marginal nos EUA. Sim, ele ganhou aplausos de audiófilos e músicos (confira as informações das gravações de milhares de concertos no Archive.org se você não acredita em mim), mas o formato nunca decolou, nem como mídia de gravação, nem – devido às gravadoras e sua aversão a riscos e ao alto custo da mídia em si – como um competidor para o CD. Quando os tocadores de MP3 atingiram a maioridade, as portas do MD nos Estados Unidos finalmente foram trancadas para sempre. A Sony, é claro, levou um tempo para entender a mensagem, e Steve Jobs estava rindo o tempo todo.