O ministro da Ciência e Tecnologia, Marco Antônio Raupp, anunciou em março que o Brasil terá um satélite para levar Internet a todos os municípios do país – tanto banda larga fixa como 3G. Mas os detalhes do satélite e do projeto eram escassos até então. Por isso, conversamos com Himilcon de Castro Carvalho, da Agência Espacial Brasileira; e Marcos Castello Branco, do CPqD. Eis sete perguntas e respostas sobre o satélite da banda larga.

Himilcon é diretor de política espacial e investimentos estratégicos da AEB, e coordena o programa deste satélite na agência. Enquanto isso, Castello comanda no CPqD, desde 2010, um projeto bastante semelhante ao do governo: integrar redes sem fio terrestre e via satélite para levar banda larga a regiões remotas do país. O CPqD não está diretamente envolvido no programa do satélite brasileiro, mas “teve uma importante participação na primeira etapa de discussão e especificações, ocorrida no governo Lula”, diz Castello. Segundo Castello, o plano do satélite geoestacionário brasileiro e o projeto do CPqD “são fortemente complementares”.

 

1) O que o novo satélite geoestacionário vai fazer?

Himilcon explica que o satélite tem dois objetivos: “comunicações estratégicas de governo e de defesa” em banda X, e internet para o Plano Nacional de Banda Larga, coordenado pela Telebras, em banda Ka.

Castello revela que na primeira etapa de discussão e especificações, ainda no governo Lula, “o satélite brasileiro teria uma grande variedade de aplicações – desde meteorologia, controle aeronáutico, segurança pública e aplicações estratégicas e militares de governo”. O foco do satélite agora ficou mais restrito, no entanto: “na abordagem atual, conduzida no governo Dilma, o satélite tem apenas dois focos principais anunciados – o acesso à banda larga e as aplicações militares”, diz Castello.

 

2) Quem é responsável pelo satélite?

Quanto ao planejamento do satélite, Himilcon cita uma série de organizações envolvidas, todas brasileiras: “a Telebras, responsável pela coordenação geral do projeto; os ministérios das Comunicações, da Defesa e da Ciência e Tecnologia; a Agência Espacial Brasileira; e o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais)”.

E quem vai construir o satélite? Segundo Himilcon, isto está “a cargo de uma sociedade formada entre a Telebras (49%) e a Embraer (51%)”. Ela será encarregada de escolher e contratar fornecedores, provavelmente no exterior, para o primeiro satélite e sistemas de solo. Ela também vai contratar os serviços de lançamento do satélite ao espaço. Segundo Himilcon, o satélite está orçado em R$716 milhões.

O ministro Raupp, quando do anúncio do satélite, disse que seria feito “um concurso internacional” que daria a chance de uma cooperação tecnológica entre o Brasil e outros países. Mas a ideia é reduzir a dependência de empresas estrangeiras no futuro: segundo Himilcon, a sociedade Telebras-Embraer “irá se capacitar e absorver tecnologias e conhecimentos… de forma que os próximos satélites com essa finalidade tenham maior conteúdo nacional”. Aprender com empresas estrangeiras é uma estratégia que funcionou bem para a China, e já vimos isso antes no Brasil: a Foxconn se instalaria no Brasil em troca de conhecimento e know-how vindos de fora.

E sim, Himilcon disse “próximos satélites” – aparentemente esse será o primeiro de vários satélites para banda larga. O primeiro satélite, quando em órbita, será operado pela Telebras e pelo Ministério da Defesa.

Antenas de satélite

3) Como será distribuída a internet banda larga através do satélite?

Você já deve conhecer a internet via satélite, na qual é preciso instalar um receptor no local para ter acesso à rede. Pois bem, o projeto do governo NÃO é esse: não se trata de fornecer internet via satélite direto aos consumidores. Quem recebe o sinal do satélite são os provedores, que então distribuem o sinal seja via rede terrestre, seja via 3G (ou, no futuro, 4G).

Himilcon deixa isso claro: “O satélite será acessado diretamente por provedores de serviço de internet (ISP) que, por sua vez, atenderão aos usuários individuais seguindo as diretrizes e custos estabelecidos pelo Plano Nacional de Banda Larga. A distribuição via 3G funciona via antenas no solo, que se comunicam diretamente com celulares ou modens.”

Também é assim que funciona o projeto do CPqD: segundo Castello, “no projeto de integração do CPqD, a tecnologia de transmissão… permite levar os sinais da estação central até o terminal do usuário – é equivalente a um terminal de acesso de banda larga terrestre”.

 

4) A internet via satélite é conhecida por velocidades baixas ou serviço intermitente. Com este novo satélite, como se pretende lidar com estes problemas?

Himilcon explica que o novo satélite terá uma faixa de frequência bem maior que o encontrado na internet via satélite comum. Segundo ele, a faixa maior de frequência “é um fator chave para a oferta de serviços de alta velocidade”.

A Banda Ka, a ser utilizada pelo novo satélite, terá largura alocada “de 2,5GHz no link de descida para o usuário (17,7 a 20,2GHz)”. Segundo Himilcon, os satélites que fornecem internet hoje usam a banda Ku, com largura “de somente 500MHz (11,7-12,2GHz) no link de descida”. Além disso, o satélite vai dividir a área de cobertura em feixes, “o que permite a reutilização de frequências” e uma velocidade maior, diz Himilcon.

Castello, do CPqD, explica que satélites podem trazer velocidades iguais às de sistemas terrestres de alta capacidade “ao empregar faixas de frequência mais altas, e feixes ‘spot’ com maior capacidade e potência de transmissão”. Ele lembra, no entanto, que há um “atraso inicial intrínseco”, devido à grande distância entre a Terra e o satélite no espaço.

Visão aérea do centro de lançamento de Alcântara/AEB

5) Quando o satélite será lançado ao espaço?

Himilcon diz que “o satélite deverá ser lançado no final de 2014”.

 

6) Como surgiu a ideia de usar um satélite para distribuir banda larga no país?

Himilcon explica que o satélite surgiu da necessidade de cobrir todo o território nacional com banda larga. Ele diz que seria impossível cobrir o país usando fibra ótica, “pelo menos nos próximos anos” – por isso o satélite.

Castello lembra que o projeto de integração satélite-terrestre faz parte de um projeto maior, proposto pelo CPqD e feito para o Ministério das Comunicações, chamado de RASFA (Redes de Acesso Sem Fio Avançadas). O projeto RASFA foi proposto pelo CPqD e aprovado pelo Funttel para execução entre 2010 e 2013.

 

7) Esta ideia já foi realizada em outros países?

Castello diz que a Austrália também planeja usar de satélites para levar banda larga a áreas remotas. A NBN Co. já oferece serviços de satélite, mas de forma limitada; a empresa planeja lançar dois satélites de banda Ka até 2015, por um custo aproximado de R$2 bilhões. Segundo Castello, na Austrália “o governo também está investindo diretamente nesse tipo de solução para prover acesso banda larga via satélite”.

E Himilcon cita diversas empresas que já trabalham com a internet via satélite que o governo visa estimular: Viasat e Hughes, dos EUA; e Eutelsat e Athena-Fidus, da Europa.

Imagens por Angela Waye/Shutterstock, Jose Gil/Shutterstock e Edson Haruki/AEB