Se você pudesse alistar seu smartphone para se tornar parte de um telescópio do tamanho da Terra para buscar a fonte de raios cósmicos, você faria? Pesquisadores da Universidade da Califórnia (EUA) esperam que sim: eles desenvolveram um app para usar um milhão de câmeras de smartphone a fim de responder a uma das grandes perguntas sobre o nosso universo.

Raios cósmicos

O que é exatamente um raio cósmico? Basicamente, são partículas de alta energia vindas de muito longe, que batem em nossa atmosfera em eventos chamados de “chuveiros atmosféricos”. Essas partículas se decompõem em radiação eletromagnética e em outras partículas à medida que atravessam o ar, em uma área de muitos quilômetros quadrados.

O problema é que chuveiros atmosféricos são difíceis de se detectar, por serem aleatórios e muito extensos. Na verdade, estamos tentando descobrir de onde eles vêm há cerca de cem anos.

No início do século XX, um cientista chamado Theodor Wulf plantou a semente empírica que se tornaria a ideia dos raios cósmicos, mostrando como o ar na ponta da Torre Eiffel continha mais radiação do que o ar na parte inferior. Alguns anos mais tarde, o físico Victor Hess confirmou as conclusões de Wulf em um balão de hidrogênio acima da Terra, e assim nasceram os raios cósmicos.

victor hess
Victor Hess e seu balão em 1911, via Bayerischer Rundfunk

Desde então, as teorias vêm se proliferando, mas foi difícil provar algo sobre os raios cósmicos, porque nossos métodos de detecção são muito escassos.

O app

É aí que entra um app chamado CRAYFIS, ou Raios Cósmicos Encontrados em Smartphones. Ele foi criado por uma equipe de físicos da Universidade da Califórnia em Irvine, que quer reunir um milhão de smartphones para criar um detector de raios cósmicos – basicamente, um telescópio – tão grande quanto o próprio planeta.

Funciona assim: dentro da câmera do seu smartphone, existem fotodiodos de silício, que detectam a luz visível e a transformam em algo que você pode ver na tela. Mas, como a equipe de UC explica em seu estudo (PDF), os fotodiodos também podem detectar partículas de alta energia. O app é basicamente um software que registra quando a câmera detecta essas partículas, e em seguida grava o nível do “chuveiro atmosférico”, mais local e hora.

Você pode solicitar acesso ao app neste link, para Android ou iPhone, mas ele ainda está em beta no momento. Ela roda automaticamente e de forma imperceptível, apenas quando o seu smartphone está carregando a bateria, e só envia os dados para a universidade quando você estiver conectado via Wi-Fi.

E quanto à privacidade? Bem, o app tem acesso à câmera mas envia apenas dados do chuveiro atmosférico, não suas fotos. A equipe da universidade diz que passou mais de um ano testando o app em sua versão beta para testar tudo isso – duração da bateria, envio de dados e privacidade. Outro detalhe bacana: caso os seus dados do seu smartphone sejam utilizados pela equipe, você será listado como coautor no estudo.

Nas últimas décadas, a física de partículas praticamente esteve restrita a agências multinacionais com projetos de bilhões de dólares. À medida que cientistas – e usuários de smartphone – descobrem como aproveitar o poder dos sensores encontrados em bilhões de dispositivos ao redor do mundo, isso pode estar prestes a mudar. [CRAYFIS via UC Irvine]

Imagem inicial por Syda Productions/Shutterstock