Um cidadão comum que tem um celular anda com instrumentos de navegação e comunicação mais sofisticados que um soldado em um campo de batalha. É por isso que as forças armadas americanas estão se esforçando para desenvolver um smartphone próprio para soldados, aumentando o poder de suas tropas. De acordo com os soldados que testaram os protótipos do Pentágono, a tecnologia não poderia vir em melhor hora.

Nos últimos meses, eu venho acompanhando os esforços da DARPA para desenvolver um smartphone militar. Mais especificamente, os esforços da agência para desenvolver um software adequado para um smartphone, já que ela decidiu utilizar aparelhos pré-existentes, como o Samsung Galaxy, ao invés de construir seus próprios aparelhos (no entanto, o exército está muito empolgado para testar o novo celular do Google).

Eu falei recentemente com dois veteranos que já utilizaram o novo aparelho em suas temporadas no Afeganistão. A capacidade de salvar vidas que mesmo as inovações mais simples têm me impressionou.

Os Mapas Salvam Vidas

Quando conheci Doran Michels, chefe de programação do programa de Apps Inovadores da DARPA, ele não hesitou em falar sobre a triste situação dos mapas militares. “É muito estranho pensar que, se formos acompanhar um pelotão de fuzileiros navais em uma missão assustadora e extremamente complexa”, Michels me falou na minha primeira visita à DARPA, em julho, “os fuzileiros estarão usando mapas de papel, lápis, acetato e papéis transparentes com desenhos táticos feitos com canetinha.”

Em outras palavras, as operações militares mais avançadas estão usando a mesma tecnologia de navegação utilizada na Segunda Guerra Mundial. Se alguns soldados precisassem cruzar um riacho e molhassem os mapas, estes seriam destruídos imediatamente, limitando o sistema de localização dessa tropa a apenas uma bússola.

Dessa forma, não é de se surpreender que um dos primeiros aplicativos que a DARPA desenvolveu foi um app de localização simplificado. Seu funcionamento é parecido como o do Google Maps, mas ele possui funções que podem ser a salvação (ou a perdição) de um soldado no campo de batalha.

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Uma atualização recente do TransApp, um aplicativo de localização, sendo rodado em um Samsung Galaxy Note.

O aplicativo de localização se tornou cada vez melhor, mas quando os primeiros celulares da DARPA começaram a surgir no campo de batalha, há três ou quatro anos, a simples existência de um aparelho que pudesse mostrar imagens de satélite atualizadas já era algo importantíssimo para as tropas que percorriam os terrenos acidentados do Afeganistão. “Alguns desses mapas de papel do Afeganistão eram dos anos 90, ou do começo dos anos 2000”, me explicou, Chris Gage, um capitão do Exército americano, em uma entrevista. “Eles são muito antigos.”

Os mapas dos celulares DARPA não são apenas atualizados, mas também dinâmicos: é possível adicionar novos mapas, uma função que os soldados apontam como essencial para o planejamento de missões e resgates. Em seu segundo período de ação, entre 2013 e 2014, a unidade de Gage chegava a percorrer 160 quilômetros em cada missão, muitas vezes em locais imprevisíveis. Ele me contou que eles precisariam de “milhares de mapas para organizar… alguma rota”. O smartphone da DARPA coloca todos esses mapas ao alcance das mãos dos soldados.

Os Dados Salvam Vidas

Os mapas da DARPA começaram como uma ferramenta extremamente básica. Mas, nos últimos anos, os desenvolvedores do TransApp vêm inserindo novas funções que abrem uma gama de possibilidades para os soldados em combate.

Em 2009, o mundo soube da existência de um pequeno truque de programação que permitia acessar os registros de veículos com GPS embutido. Algumas linhas de programação permitiam o acesso às rotas anteriores do veículo, o que fazia com que a unidade as evitasse no futuro, escapando dos explosivos que costumam ser instalados nessas rotas pré-existentes. Os fuzileiros navais chamavam esses registros de “rastros confiáveis”.

Os desenvolvedores do TransApp criaram um programa que faz basicamente a mesma coisa, mas voltado para tropas se movendo no solo. Da mesma forma que uma mulher de São Francisco utilizou seu Nike+ para desenhar, hm, coisas no mapa da cidade, esses rastros utilizam o GPS dos smartphones para rastrear as rotas dos soldados. O TransHeat é um app mais recente que conta quanto tempo os soldados passam em cada área específica, soando um alarme quando a área fica perigosa, o que significa que os soldados precisam se mover para não atrair os inimigos.

O mais importante é que o TransApp facilita a transferência de informações em tempo real. Todos os soldados podem olhar para o mesmo mapa, que é atualizado constantemente, e aprender com as experiências passadas. Os smartphones simplificam o processo de criação das chamadas “atas de continuidade”, que auxiliam as tropas a manter registros de rotas seguras e pessoas importantes para as missões.

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Uma imagem do app TransHeat; as zonas vermelhas são as áreas que devem ser evitadas.

“Se você não presta atenção nesses detalhes de continuidade, os soldados acabam se ferindo”, disse o Capitão John Meyer em uma entrevista, “porque uma unidade sem experiência pode chegar no local e andar ou dirigir por áreas que as unidades mais experientes já haviam identificado como perigosas. O Talibã, como a maioria dos nossos inimigos, são combatentes experientes. Eles gostam de preparar emboscadas e instalar explosivos em áreas específicas.”

Gage acrescentou algumas informações perturbadoras. “Se você anda por um caminho uma vez, na segunda vez que você o percorrer, você terá uma probabilidade de 50% de encontrar um explosivo”, ele disse. “Se você andar pelo mesmo lugar três vezes, a probabilidade sobe para 90%.””

Como dito previamente, o compartilhamento de dados pode combater esse problema. As versões mais atualizadas dos apps militares dão aos soldados a possibilidade de marcar os locais onde existem explosivos, para que seus companheiros sejam alertados caso se aproximem demais dessas áreas. O sistema é similar ao Alerta Amber (sistema utilizado para a localização de crianças desaparecidas nos EUA), mas direcionado ao uso em zonas militares.

A Comunicação Salva Vidas

Como já mencionado, um dos aspectos mais empolgantes do programa TransApp da DARPA é o fato da agência não estar apenas criando uma nova tecnologia, mas sim colaborando com os próprios soldados para construir um sistema inovador. Os soldados que participaram nos testes do TransApp nos últimos anos solicitaram funções específicas para os novos aplicativos; a DARPA acatou esses pedidos e desenvolveu esses apps.

Um exemplo é o Tactigram, um simples aplicativo de alteração de imagens requisitado pela unidade de Meyer. O app permite, basicamente, que os soldados tirem fotos e acrescentem rapidamente legendas para identificar pessoas específicas ou veículos importantes. Eles podem enviar essas imagens para o resto da unidade usando ondas de rádio.

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Uma imagem do aplicativo de comunicação e de um aplicativo de localização.

Falando sobre rádios, até mesmo a transferência de dados mais simplória foi uma inovação no campo de batalha. Você sabia que a maioria dos soldados não pode nem ao menos mandar mensagens para os outros? A demanda por segurança dificulta a criação de redes de celulares similares à utilizadas no meio civil; mas, agora, as tropas podem trocar informações pelas ondas de rádio ou fazer transferências criptografas ligadas ao celular TransApp. A rede aguenta a troca de imagens pequenas e sistemas de comunicação básicos.

“Se você está tentando conduzir uma missão de observação e… você está tentando ser silencioso”, diz Meyer, “falar no celular pode criar ruídos inadequados. Poder nos comunicar com várias unidades silenciosamente por esses aplicativos — e compartilhar imagens rapidamente — foi um grande avanço.”

Mais uma vez, a tecnologia é simples, mas extremamente importante.

A Tecnologia Salva Vidas

O futuro dessa tecnologia é empolgante. O período de financiamento da DARPA acabaou no final de 2014, na mesma época em que o sistema TransApp foi integrado ao programa Nett Warrior do exército americano. Até lá, mais aplicativos impressionantes serão desenvolvidos.

 

O Glideline High Altitude Jump é um bom exemplo. A plataforma TransApp é sofisticada o bastante para possibilitar que o exército carregue dados de missões militares em pleno voo, mesmo que os soldados dessa missão estejam pulando de um avião. “Nós pulamos de aviões em grandes altitudes, e podemos adicionar mapas de navegação ao sistema enquanto pulamos de um avião a 10.000 pés de altitude, na calada da noite. É muito difícil se mover por um ambiente sem iluminação, como um deserto”, disse Meyer. “Esse celular — esse aplicativo — nos permite ir do nosso ponto de partida, em pleno ar, até o nosso local de pouso.”

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Isso mesmo. Esses smartphones ajudam os soldados a se direcionar em pleno ar, milhares de metros acima do solo, no escuro total, até eles pousarem em segurança. Imagina só: direções em tempo real para paraquedistas. Isso é incrível.

Ambos, Meyer e Gage, não hesitaram em dizer que sim, a tecnologia TransApp salva muitas vidas. “Penso que, conforme damos continuidade à nossa parceria [com a DARPA], esse tipo de tecnologia avançada traz mais segurança para nossos soldados e nos ajuda a construir uma organização mais letal”, afirmou Meyer.

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Um Ranger do Exército Americano utilizando um dispositivo Nett Warrior.

Gage acrescentou que o smartphone militar não é necessariamente uma ferramenta limitada à manobras ofensivas. “Se estivéssemos sob ataque”, ele disse, “Eu provavelmente deixaria o aparelho de lado e focaria em controlar meus homens e movê-los ao redor do inimigo para neutralizar esses ataques”. Ele acrescentou que “Nós não usamos esse dispositivo para localizar alvos. O usamos para trazer mais segurança para o campo de batalha.”

A tecnologia de navegação e de compartilhamento de dados que a maioria dos civis utiliza diariamente e sem muito alarde pode salvar a vida de muitos soldados lutando do outro lado do oceano. A única questão agora é: por que tão poucos soldados têm esses smartphones?

Imagens via DARPA / U.S. Army