O sabonete antibacteriano está sob ataque ultimamente. Testes dizem que alguns deles não eliminam micróbios, enquanto outros causam desequilíbrio hormonal e aumentam a resistência de algumas bactérias.

Mas e se o problema na verdade estivesse em todo sabonete, não apenas os antibacterianos? Na mais recente New York Times Magazine, Julia Scott resolveu substituí-lo por um spray de bactérias normalmente encontradas na sujeira – e a pele dela nunca esteve melhor.

Não é tão absurdo quanto parece! Sério. Para nos limparmos, nós fomos condicionados a matar as bactérias na nossa pele, mas só recentemente os cientistas perceberam que talvez isso não seja algo tão bom. Há bactérias que se desenvolvem naturalmente na pele, a maioria delas é inofensiva, e desequilíbrios no microbioma da pele estão ligados a problemas como acne e eczema.

É por isso que estão surgindo vários cosméticos com tratamentos probióticos e extratos de bactérias. Mas Julia vai um passo além em sua reportagem para a NYT Magazine: ela deixou de lado toda a rotina de higiene e, duas vezes por dia, pulverizou a pele com com AO+ Refreshing Cosmetic Mist – um nome chique para um spray cheio de bactérias.

David Whitlock, o inventor do AO+, teve a ideia enquanto assistia cavalos rolando em sujeira. (Um começo promissor, não?) É que a sujeira contém bactérias que devoram amônia, substância encontrada em abundância no nosso suor. Mas essas bactérias naturais anti-suor, Nitrosomonas eutropha, são criaturas delicadas, facilmente mortas por produtos químicos comuns no sabonete. Então por que usá-lo?

Julia descreve a rotina de higiene das pessoas por trás do AO+:

O presidente do conselho de administração da empresa, Jamie Heywood, toma banho com sabonete só uma ou duas vezes por mês, e passa xampu apenas três vezes por ano. O caso mais extremo é David Whitlock, engenheiro químico treinado no MIT que inventou o AO+: ele não toma banho há 12 anos. Ele ocasionalmente passa uma esponja para retirar a sujeira mais grossa, mas confia na colônia de bactérias em sua pele para fazer o resto.

Eu conheci ambos pessoalmente. Cheguei perto o suficiente para apertar a mão, me envolver em uma conversa casual e notar que eles de modo algum transmitiam uma sensação de estarem “sujos”, tanto no sentido visual como olfativo.

Ou seja, os rapazes não estavam fedendo, nem aparentavam precisar de um banho… mesmo sem tomar banho. Então Julia decidiu experimentar isso, e a pele dela nunca esteve melhor: mais suave, mais macia, e sem espinhas no rosto.

Os resultados: depois de deixar o spray secar na minha pele, eu estava com um cheiro melhor. Não inodoro, mas não tão ruim quanto eu teria normalmente [após sair da academia]. E, estranhamente, os meus pés não estavam fedendo.

Minha pele começou a mudar para melhor. Na verdade, ela se tornou mais macia e suave, em vez de seca e escamosa, como se a umidade tivesse penetrado minha pele endurecida pelo inverno. E meu rosto, propenso a espinhas relacionadas a hormônios, permaneceu liso. Pela primeira vez, meus poros pareciam diminuir.

A conclusão não é necessariamente que deveríamos rolar em sujeira, nem que você deveria comprar AO+. (Os criadores do AO+ só agora vão apresentar o produto à FDA, órgão americano semelhante à Anvisa, para testá-lo como remédio.) A ideia é refletir sobre o que nós consideramos “limpeza”.

Como explicamos antes, produtos de limpeza pessoal apostam em efeitos psicológicos para indicarem que estão funcionando. Por exemplo, o sabor refrescante da pasta de dente não limpa melhor a sua boca; e a espuma do xampu até ajuda na limpeza, mas seu principal objetivo é mostrar ao consumidor que está fazendo alguma coisa – um xampu sem espuma poderia limpá-lo melhor.

Milhares de anúncios publicitários nos condicionaram a associar tudo isso à limpeza. Mas e se estar limpo significa apenas ter um microbioma saudável na pele? [New York Times]

Foto por L and S Media/Shutterstock